Publicado 03 de Março de 2014 - 5h00

fabio toledo

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fabio toledo

Lembro-me de uma história que me contou um amigo quando ainda estávamos no ensino médio. Dizia-me ele que o seu pai não conversava com um irmão dele há mais de trinta anos. Ele contou-me também que isso era normal na sua família, pois também o avô não conversava com outro parente há décadas. Confesso que aquele relato me causou grande perplexidade. Como é possível que alguém consiga guardar mágoa de um irmão por tanto tempo e não tentar uma reconciliação?

 

A questão é complexa e assume matizes peculiares em cada situação. Apesar disso, penso que há alguns aspectos que, se forem bem considerados e aplicados, podem ajudar muitas pessoas a reatarem a amizade.

 

Temos uma visão parcial e limitada dos fatos. Além disso, quando surge um conflito de maior gravidade, a nossa capacidade de analisar racionalmente é fortemente contaminada pela paixão e pela emoção. E então surgem dois ingredientes muito propícios para fomentar em nós o ressentimento: a memória e a imaginação, ambas frequentemente distorcidas.

 

Assim, após uma discussão, uma briga ou uma deslealdade, é comum que a nossa memória se foque em fatos negativos. A imagem que guardamos da pessoa será então uma caricatura negativa, sombria e feia. Por vezes, remoemos mentalmente palavras ou ações que nos atingiram. E esses ingredientes em nosso coração vão formando uma trama de maus sentimentos que nos impedem de voltar a olhar no olho.

 

Com isso, entra em cena a “louca da casa”: a imaginação. Esses fatos que guardamos na memória, ainda que verdadeiros, mas ampliados no aspecto negativo e ofuscados os positivos da pessoa, ganham asas e então perdemo-nos em elucubrações interiores do tipo: “quando ele(a) disse aquilo, no fundo queria me atingir, pois sabia que...”, “ele(a) fez aquilo de propósito, só pra me prejudicar...”. Assim, com a imaginação solta e a memória presa aos fatos negativos, o tempo só faz aumentar o ressentimento, tornando mais difícil a reconciliação.

 

Acontece que o nosso coração foi feito para amar. Por isso, quando guardamos nele inimizades é como se ele tivesse uma parte doente, pois o ódio é a negação do amor. E quanto mais partes doentes houver, mais comprometida estará a nossa capacidade de amar e, por consequência, mais infelizes seremos. É necessário, portanto, quebrar esse círculo vicioso.

 

Nesse intento, podemos utilizar a própria memória e a imaginação para agir no sentido oposto. Por exemplo, podemos nos esforçar por lembrar de coisas boas daquela pessoa, como dos momentos agradáveis vividos juntos ou atos de generosidade que tenhamos presenciado. Também o retrato mental que trazemos dela (ou dele) pode ser trocado por um mais colorido, simpático e sorridente.

 

E a imaginação também pode desempenhar um importante papel. Ainda que com esforço, talvez possamos pensar: “ele(a) fez isso porque estava cansado(a), afinal estava passando por um momento difícil”, “com certeza, ele(a) não fez por mal”. Aliás, se nos acostumarmos a reagir assim diante de uma ofensa ou agressão, sequer se forjará o ressentimento em nós, pois já o mataremos desde o seu nascedouro.

 

Mas há ainda um ingrediente muito pior: o orgulho. Trata-se de uma erva daninha que envenena o coração e nos faz pensar que somos superior aos demais e, por consequência, a ampliar astronomicamente as ofensas que recebemos e sequer notarmos aquelas que praticamos. Também é ele que nos impede, muitas vezes, de dar o braço a torcer e tentar uma reconciliação.

 

E o antídoto contra ele é a humildade, que nos leva a termos um conceito real de nós próprios e dos outros. Isso não nos impede considerar que temos um imenso valor que decorre da nossa natureza humana. No entanto, os outros também o tem. Assim, ao considerarmos que todos os seres humanos são dotados de uma imensa dignidade, também não mediremos esforços para buscarmos nos reconciliar, arrancando do peito toda essa mágoa que envenena a alma e nos impede de sermos felizes e de amarmos livremente os demais.