Publicado 05 de Março de 2014 - 5h00

andré fernandes

Cedoc/RAC

andré fernandes

Todo homem pode e deve perguntar a si mesmo sobre as razões de nossa existência e do sentido último do mundo que nos cerca. Por isso, deve fomentar um conjunto de atitudes elementares para que essa dimensão reflexiva possa desenvolver-se ao longo da vida. Se assim não for, outros fatores externos podem corrompê-la, a ponto de transformar a velhice numa espécie de muro das lamentações do pensamento, porque não se teve uma vida examinada. Aliás, com a vida corrida de hoje, essa tarefa parece-nos ainda mais necessária.

Uma dessas atitudes básicas está em não ter preconceitos a respeito daquilo que se pretende refletir. Filosofar significa abrir novos horizontes, digirir nosso olhar para a totalidade do mundo, porque nosso espírito é, de alguma forma, uma força para se alcançar o infinito. Mas isso não quer dizer que sempre vai se refletir o todo sempre que se buscam respostas para nossas dúvidas mais angustiantes ou para nossos problemas concretos.

Quero dizer que uma pessoa que resolva se submeter ao diálogo com o seu eu reflexivo deve estar disposta a falar daquele todo: não pode perder de vista os mundos material e transcendente. Deve, de certa forma, enfrentar-se com esse todo, mesmo que se trate das questões mais prosaicas, porque, no fundo, são indagações filosóficas, já que vivemos as respostas para essas mesmas questões diariamente.

Como sabemos, o atual excesso de informação impede uma postura reflexiva numa pessoa. Ainda que ela esteja atolada num lamaçal de dados e notícias, ela deve tomar o cuidado de, conscientemente, não deixar passar por alto nada que, em princípio, seja essencial. Saber colher a essência no meio das aparências que as informações trazem consigo. Ter uma postura crítica, o que não é uma tarefa fácil. Mas a realidade nem sempre é cômoda.

Obviamente que a totalidade da realidade não é o resultado da soma de uns fatores escolhidos arbitrariamente. Uma pessoa muito entendida em física, literatura, gastronomia, futebol, em corte e costura e mesmo na vida privada das celebridades não é, em razão disso, um pensador ou um filósofo. É apenas um especialista, porque a filosofia trata de uma compreensão estruturada do mundo que possui uma certa hierarquia. Dessa maneira, o essencial reconhece-se como sendo essencial e o não essencial como não essencial. E não o contrário.

Uma autêntica reflexão não faz um corte intencional e arbitrário na realidade ou no problema que se quer conhecer. Procura amplos horizontes e não impõe tabus, nem tampouco busca sistematizações precipitadas que ignoram tudo aquilo que deseja furar a bolha logicamente construída por aquele sistema hermeticamente fechado.

Do contrário, perderia sua própria identidade e se converteria em ideologia. Nesse sentido, Goethe dá um poético puxão de orelha em alguns filósofos de seu tempo, os quais pretendiam “dominar Deus e o espírito humano e encerrar todo o universo em diferentes sistemas”.

A busca daquele todo no ato de refletir diz respeito muito mais com a profundidade do que com a extensão. O pensamento deve não só mirar mais além, apartar-se da correria do cotidiano, transcendendo o mundo, mas se fixar exatamente nas coisas que nos rodeiam, ou seja, questionar as razões últimas de um problema concreto.

Não se interessa, por exemplo, em saber a forma mais rápida de se conseguir dinheiro ou de alcançar um cargo político, mas investiga o que são os bens materiais ou o poder político em si.

E, com o tempo, quem pretenda ter uma visão de toda a realidade, logo se dará conta de que isso é uma missão de envergadura, mas que tem um limite. Shakespeare, em mais um contribuição da arte para a filosofia, já nos alertava de que há mais mistérios entre o céu e a terra do que nossa vã filosofia pode imaginar: o mundo é muito maior do que nossa capacidade de compreensão.

O ato de refletir não se resume a um pensar muito, porém em contemplar a realidade, escutá-la com atenção e com uma franqueza ilimitada. Isso não é sinônimo de uma postura passiva. Pelo contrário, supõe um compromisso máximo: o compromisso de abordar todos os aspectos do problema e não se deixar cegar por preconceitos ou pelo típico imediatismo que nos caracteriza. Em suma, estar aberto ao mundo que, junto com a claridade nas ideias (Ortega y Gasset), são a cortesia e o distintivo do filósofo autêntico. Com respeito à divergência, é o que penso.