Publicado 02 de Março de 2014 - 14h28

Por Rogério Verzignasse

Nem as poças de água no campo de terra do Vida Nova impediram a molecada de jogar bola na manhã da última sexta-feira

Gustavo Tilio/Especial para a AAN

Nem as poças de água no campo de terra do Vida Nova impediram a molecada de jogar bola na manhã da última sexta-feira

Tocos, empurrões, trombadas, berros, gargalhadas, abraços. Ah, sim. Volta e meia sai um gol. Mas o povo nem se interessa com o placar. Na pelada, todo mundo ganha. Em ano de Copa — quando o País investe milhões na construção de belíssimos estádios e se prepara para receber astros milionários —,_o futebol é, como sempre foi por aqui, um ritual para celebrar amizade e o companheirismo. E a bola rola pela cidade toda. Em campos cercados ou rapadões.

O rachão do Jardim Carlos Lourenço, por exemplo, acontece todo domingo. Os amigos se encontram no campinho do terreno público às margens da Rua Clodomiro Vescovi. Mesma área da escolinha infantil e da associação de bairro. Na praça imensa — onde havia uma mina d’água — a turma corre atrás da pelota, faça chuva ou faça sol.

Por ali jogam desde molecões de 15 anos a senhores de 60. A faixa etária não importa. Não há esquema tático, nem jogador guardando posição. Todo mundo ataca e defende, corre feito louco. Só se vê o poeirão levantando na disputa das jogadas. Quem tem um pouquinho de habilidade é o Messi do pedaço. Peleja com direito a meia-lua, chapéu, bola entre as canetas. E os marcadores caem de traseiro no chão, para gargalhada geral.

Bom, para o show, cada um entra na cancha com um traje. Há quem use chuteira em um pé só. Muitos jogam descalços. Meião é luxo para poucos. As camisas deixam à mostra as barrigas salientes. Cada time é identificado com o colete em uma cor. E tem até torcida. Mulheres, namoradas, filhos. Todo mundo fica ali, na beira do campo, e se diverte com os lances atrapalhados. A massa explode quando a bola estufa a rede toda remendada.

 

 

 

Carlos Lourenço tem as tradicionais “peladas” aos domingos; jogadores vão dos 15 aos 60 anos de idade

Créditos: Gustavo Tilio/ Especial para a AAN

 

 

 

 

O espetáculo geralmente tem dois tempos de 30 minutos. A turma não aguenta mais que isso. Os atletas deixam o rapadão se arrastando, cansados, com joelhos esfolados e a canelas roxas. Todo mundo, de língua pra fora, corre para a abençoada cervejinha que mata a sede. Ah, nem vestiário existe. A turma suada e imunda passa o restinho da manhã rindo e proseando. Prazer que dinheiro nenhum do mundo paga. 

A favela, o carrão

Na Vila Brandina, o campo de futebol às margens da Rodovia Heitor Penteado — na saída para Sousas — está longe das medidas oficiais. Ali, jogam uns sete de cada lado. Mas é tanta gente querendo participar que a galera organiza um torneio, todo fim de semana. Da hora que nasce o sol até a hora do almoço, os marmanjos correm atrás da bola.

Um detalhe importante. A galera ergueu na beira do campo um barraquinho de madeira, que serve tanto de arquibancada como de restaurante. Depois da peleja, rola a carne assada. E o cheirinho do churrasco se espalha. Na enorme geladeira de isopor, entupida de pedras de gelo, repousam dúzias e dúzias da breja divina.

 

 

 

No Vida Nova, aulas acontecem no Centro de Integração da Cidadania

Créditos: Gustavo Tilio/ Especial para a AAN

 

 

 

 

 

Como na pelada do outro bairro, a rapaziada come grama, apesar das limitações técnicas. O toque de bola envolve velhos camaradas da Vila Brandina e gente que chega da cidade toda. Há vários moradores da própria favela, que chegam a pé ou de bicicleta. Mas há o cidadão abastado, que estaciona o Honda Civic bonitão ali por perto, se aproxima da galera na boa e vai para o jogo.

No meio do campo, com bola rolando, não há diferença de raça, credo, classe, preferência política, gosto musical. O futebol deixa todo mundo igual, correndo atrás do objetivo do grupo todo. A peleja da Vila Brandina é justa, igualitária, solidária. É exercício antropológico, tema para tese de doutorado. Dentro das quatro linhas, existe o Brasil que dá certo.

 

Acompanharão Portugal

A molecada que joga peladas pela cidade toda tem uma oportunidade especial nos meses que precedem a Copa. É que a Prefeitura vai escolher 12 meninos que vão trabalhar como gandulas nos treinos da seleção de Portugal, no CT da Ponte Preta. É a chance de ver o craque Cristiano Ronaldo de pertinho.

 

Para escolher os sortudos, a Administração vai lançar um concurso de cartilhas individuais sobre a aspectos geográficos, sociais, políticos e econômicos lusitanos. Também vão pontuar os alunos da escola que fizer a mais bela decoração para homenagear os visitantes ilustres.

 

A garotada vai passar os próximos meses decorando salas, pátios, corredores; montando alegorias e pintando painéis. Outros 12 garotos devem ser escolhidos para serem gandulas nos treinos da seleção da Nigéria, marcados para o Guarani. Só falta para a Prefeitura acertar os detalhes da promoção com os dirigentes africanos. 

 

Resgate social

Na manhã de sexta-feira, choveu forte lá pela região do Vida Nova. O campinho de areia estava tomado por imensas poças d’água. Mas a molecada corria atrás da bola assim mesmo, com o entusiasmo de sempre. Os meninos moram em um bairro que volta e meia vira manchete do jornal com notícias tristes. Lá moravam, por exemplo, cinco das vítimas da maior chacina da história da cidade, que matou 12 jovens.

 

Mas quem passeia por ali e vê a garotada rindo e correndo — com o calção todo embarreado — nem imagina que há criança na turma que perdeu parente na tragédia. O futebol é uma espécie de elixir contra a dor guardada num cantinho do coração.

 

 

 

Na Vila Brandina, casinha de madeira serve como banco de reservas e, depois do jogo, “restaurante” aos atletas

Créditos: Gustavo Tilio/ Especial para AAN

 

 

 

 

O treinador da turma, na sexta, era o policial militar José Hamilton Romão, que ajuda a colocar em prática, no coração do bairro, um trabalho social emblemático. A escolinha de futebol oferece lazer saudável e suporte emocional a quase uma centena de crianças e adolescentes. 

O campinho fica dentro do Centro de Integração da Cidadania (CIC), complexo mantido pela Secretaria de Estado da Justiça, que presta serviços essenciais à população. Lá dentro, onde já funcionava um posto da Polícia Militar, nasceu o projeto de incentivo à prática esportiva.

 

O futebol tira menores da rua. Afasta a galerinha do tráfico e das rodinhas suspeitas. A pelada fez nascer grandes amizades.

No fim de semana da chacina, a molecada estava jogando em Cafelândia, e conquistou o título de um torneio de futebol infantil. Mas, enquanto se festejava por lá, famílias choravam por aqui. Um atleta mirim da escolinha, por sinal, era irmão de um dos adolescentes assassinados. Quem lembrou do episódio foi a própria diretora técnica do CIC, Regina Rodrigues. Para ela, o trabalho social prestado no centro representa alento, esperança de futuro melhor para os pequenos e para as famílias.

Mas, enquanto a diretora conversava com a reportagem do lado de fora do alambrado, a garotada se divertia na pelada: firulas, escorregões, bolas prensadas. Um time de camisa, outro sem. A bola entrava no gol sem rede e só parava na poça. As condições da cancha não eram das melhores. Mas quem adora jogar bola não se importa. Uns moleques por ali mostravam habilidade de encher os olhos.

 

Como o Mário — apelidado de Balotelli porque é a cara do craque italiano — ou o Zé Leandro (que vestia camisa emprestada pelo amigo Alberto). Quando saía o gol, o craque corria para a galera. Subia no alambrado, era abraçado, paparicado. A molecada faz a maior festa, porque futebol não tem espaço para lembranças doloridas. 

 

Veja também

Escrito por:

Rogério Verzignasse