Publicado 02 de Março de 2014 - 0h53

Pacientes usam cadeiras do PA Campo Grande para se deitar enquanto esperam atendimento, na manhã da última terça-feira

Janaína Rbieiro/Especial a AAN

Pacientes usam cadeiras do PA Campo Grande para se deitar enquanto esperam atendimento, na manhã da última terça-feira

A histórica falta de médicos nas unidades de Pronto Atendimento (PA) de Campinas teve mais um episódio dramático na última semana, quando pacientes chegaram a esperar até 10 horas por atendimento no serviço do Centro, na última segunda-feira.

 

O problema, que se arrasta há anos, se agravou depois que o convênio com o Hospital Dr. Cândido Ferreira acabou, em março do ano passado, e o atendimento para o Sistema Único de Saúde ficou com um déficit de 120 profissionais.

 

O concurso para contratação no final de 2013 não foi suficiente: a maioria dos aprovados não apareceu para trabalhar nos atendimentos de urgência e emergência.

 

 

 

 

Situação é pior na unidade do Centro, onde a espera chegou a dez horas no começo da semana: qualidade do atendimento também é questionada

Créditos: Janaína Ribeiro/ AAN

 

 

 

O Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) terminou recentemente o relatório que avalia os PAs e prontos-socorros de Campinas e, segundo a coordenação da pesquisa, a situação é pior do que quando foi feito o último estudo, há dois anos.

 

A Secretaria de Saúde, por sua vez, afirmou que em março vai enviar dois projetos de lei para a Câmara que devem solucionar de vez a questão.

 

O Correio visitou dois PAs que passaram por momentos críticos na última semana, do Centro e do Campo Grande.

 

A comerciante Patrícia dos Santos Santana, de 21 anos, esperou 10 horas para ser atendida no Centro, com fortes dores abdominais, na segunda-feira.

 

“Depois de ficar das 8h às 18h esperando, a médica nem chegou a apalpar a minha barriga e disse que eu tinha uma infecção de urina”, disse a jovem, que afirmou ainda que não vai ao Centro de Saúde porque nunca há vagas para atendimentos espontâneos.

 

O operador de máquinas Nadisson Santos Oliveira também enfrentou quatro horas de sofrimento para ser atendido na terça. Com náuseas e diarreia, ele passou mal por diversas vezes durante o período.

 

“Agora que acabou de chegar água mineral para oferecer aos pacientes na espera. Não é esse o jeito que a população deve ser tratada. E nenhum funcionário dá previsão de quando vamos ser atendidos.”

 

No PA Campo Grande, o mais distante da região central (22 quilômetros), a espera era de mais de quatro horas na terça-feira. Com o olho inchado e suspeita de conjuntivite severa, a auxiliar de serviços gerais Cláudia Cristina Fernandes, de 31 anos, esperou cinco horas pela consulta.

 

“A gente está acostumado, apesar de ser uma falta de respeito. Todas as vezes que venho para cá, me preparo para ficar plantada aqui mais de três horas.”

Relatório

Pacientes internados nos corredores, leitos com macas do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), equipes de médicos incompletas, espera de mais de três horas e grande demanda de pacientes de outros municípios.

 

Foi este o cenário encontrado pelos técnicos do Cremesp que fizeram o relatório de PA s e prontos-socorros de Campinas entre abril e novembro de 2014.

 

O documento será enviado está semana ao Ministério Público, com sugestões do que deve ser feito para amenizar o problema.

 

 

 

Caixa para críticas no PA Campo Grande: Cremesp vê problemas graves

Créditos: Leandro Ferreira/ AAN

 

 

 

 

 

 

A conselheira do Cremesp em Campinas Silvia Helena Rondina Mateus afirmou que a situação é ainda mais caótica do que quando o penúltimo relatório foi feito, em 2011.

 

“O pior problema é em relação à quantidade de médicos, que em vez de aumentar, diminuiu. Conseguimos identificar uma melhora na infraestrutura, como equipamentos e material de trabalho, mas os pacientes continuam dias internados em um local onde deveriam ficar somente seis horas”, explicou Silvia.

 

Ainda segundo a conselheira, a rede de atendimento de urgência de Campinas está recebendo mais usuários de Hortolândia, Monte Mor e Sumaré.

 

“Para resolver a situação temos que aumentar o número de leitos para pacientes que precisam ser internados, fazer um plano de carreira e cargos atrativo para fixar médicos nos PAs e reestruturar as unidades básicas de saúde, para que pacientes não recorram somente à urgência.”

 

O RAIO X DOS PAs

PA Centro: necessitaria de mais quatro médicos — possui seis na escala de quarta-feira. Atende a região Central e parte da Leste

PA Anchieta: necessitaria de mais quatro médicos — possui seis na escala de quarta-feira. Atende a região Leste.

PA São José: necessitaria de mais quatro médicos — possui oito na escala de quarta-feira. Atende a região Sul.

PA Campo Grande: necessitaria de mais seis médicos — possui nove na escala de quarta-feira. Atende a região Noroeste.

 

Câmara

O secretário de Saúde de Campinas, Carmino Antonio de Souza, afirmou que mandará dois projetos de lei à Câmara em março para tentar resolver de vez a falta de médicos nas unidades de Pronto Atendimento.

 

Hoje, o déficit nos quatro PAs equivale a 50 plantões de 12 horas por mês, que poderiam ser supridos por cerca de 20 médicos, dependendo do tamanho de cada turno, segundo Souza.

Um dos projetos determina que médicos da própria rede de saúde do município que quiserem fazer plantões nos PAs tenham um pagamento maior pela hora trabalhada.

 

Para um profissional em início de carreira no SUS, o ganho em 12 horas pode variar de R$ 1.100, para plantão diurno em dia de semana, a R$ 1.400, para o noturno nos fins de semana.

 

Os valores, porém, aumentam para profissionais estatutários com anos de carreira e com prêmios do serviço público. Hoje, o SUS de Campinas conta com 1,7 mil médicos.

 

No entanto, eles não podem exceder o limite de 44 horas por semana. Os ganhos também não podem ultrapassar o salário do prefeito, de R$ 18.329,67.

 

“Pagaríamos uma hora mais cara do que a complementar para os plantões de urgência se tornarem mais atrativos. E quem fizer o plantão de 24 horas pode ainda receber um auxílio-alimentação de até R$ 590 por mês.”

 

O outro projeto criará um plano de carreira especial para plantonistas, que deve virar um cargo específico da rede.

 

A ideia é criar um banco de profissionais que ficará disponível para escalas especiais da Secretaria de Saúde.

 

“Vamos fazer uma escala única, dizendo em qual PA cada um vai trabalhar naquele mês de acordo com a necessidade. É um bom cargo para médicos jovens, que preferem ganhar por plantão”, explicou o secretário.

 

O corpo de plantonistas será usado ainda para suprir necessidades do Samu e para a central de regulação de vagas, que funciona das 6h às 22h.

 

“O objetivo é que a central passe a funcionar 24 horas por dia com o banco de profissionais”, completou.