Publicado 23 de Fevereiro de 2014 - 5h30

Uma equipe de pesquisadores paulistas iniciou este ano um conjunto de ações para ampliar em 20% a população de onças-pintadas na Mata Atlântica. O plano propõe a redução da caça, o monitoramento das populações remanescentes, o uso de técnicas como inseminação artificial e a formação de um banco de sêmen de onças-pintadas, espécie ameaçada de extinção. De acordo com Centro Nacional de Pesquisas e Conservação de Mamíferos Carnívoros (Cenap) do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), de Atibaia, que participa dos trabalhos, em todo o bioma estudado, há apenas 250 onças-pintadas adultas.

De acordo com Beatriz Beisiegel, analista ambiental do Cenap, 24 pesquisadores se reuniram para elaborar um Plano de Ação para a conservação da onça-pintada na Mata Atlântica, onde foi definida a meta de aumento da população desses felinos. “Mas o número de pesquisadores envolvidos nos projetos que decorrerão desta meta é muito maior”, afirmou.

Na Região Metropolitana de Campinas (RMC), a espécie já está extinta e não há equipes de pesquisadores destacadas para promoverem as ações em áreas de mata nativa. Há exemplares apenas em zoológicos. Em Campinas, por exemplo, apenas um casal de felinos vive no Bosque dos Jequitibás, mas não serão utilizados nos trabalhos. No entanto, outros animais que estão em cativeiros serão usados no estudo. “Há vários componentes do Plano de Ação que dependem da população de onças-pintadas em cativeiro. Serão usados na formação de banco de reserva genética e elaboração de um plano de reprodução orientada em cativeiro, ou seja, reprodução de animais que são interessantes para fins de conservação da espécie e reprodução assistida.”

As ações necessárias para atingir a meta proposta foram assumidas pelos pesquisadores presentes em uma reunião promovida no ano passado, em Campinas (leia mais abaixo). “Esses pesquisadores atuarão como articuladores, devem tomar as atitudes necessárias para que as ações apontadas aconteçam. Elas foram divididas em quatro objetivos estratégicos: combate à caça de onças e suas presas; monitoramento de populações; formação de banco de reserva genética e suplementação de populações.”

O Plano de Ação deve ser implantado até 2017, mas de acordo com Beatriz, o trabalho pode ser permanente. “Com certeza o trabalho de melhorar o estado de conservação das onças-pintadas na Mata Atlântica irá muito além deste prazo”, afirmou. As onças-pintadas no bioma Mata Atlântica estão na categoria Criticamente ameaçada (CR) de extinção, segundo os critérios da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). “Isso significa que a espécie está enfrentando um risco de extinção extremamente alto neste bioma.”

Segundo a pesquisadora, no Estado de São Paulo a espécie sobrevive apenas nas maiores áreas contínuas de Mata Atlântica: as Serras do Mar e de Paranapiacaba. No Vale do Ribeira, sul do estado, e no Parque Estadual do Morro do Diabo, no oeste, há alguns registros esporádicos de indivíduos, possivelmente migrantes, informou a pesquisadora.

Alerta

Artigo publicado na revista Science, uma das publicações mais importantes do mundo sobre ciência, de novembro do ano passado, abordou o estudo conduzido por pesquisadores do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) acerca do risco de extinção de onças-pintadas na Mata Atlântica.

A nota, de autoria de Mauro Galetti, do Departamento de Ecologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), contou com colaboração do coordenador-geral de Manejo para a Conservação do ICMBio e pesquisador de Zoologia da Universidade de Brasília (UnB), Ugo Vercillo, e do coordenador do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros (Cenap/ICMBio), Ronaldo Morato, além dos analistas ambientais Beatriz Beisiegel e Peter Crawshaw.

Segundo pesquisadores, exemplares da espécie estão em declínio no Brasil. A Mata Atlântica, que engloba a costa do Brasil e partes da Argentina e Paraguai, poderá se tornar o primeiro bioma tropical a perder o seu maior predador de topo, a onça-pintada.

Os especialistas já estimam em menos de 250 indivíduos as onças-pintadas adultas vivas em todo o bioma, distribuídas em oito espaços isolados. Análises moleculares feitas na espécie revelam ainda um parâmetro crítico para a manutenção da diversidade genética desses exemplares, ou seja, a população efetiva pode ser menor do que 50 animais.

A onça-pintada é alvo de pecuaristas por representar uma ameaça sobre o gado. Mas a espécie desempenha um papel crucial na cadeia alimentar, no controle de herbívoros como capivaras, veados, queixadas e de predadores, em menor número, como de pumas, jaguatiricas, raposas e guaxinins. A ameaça real de sua extinção irá interromper as interações predador-presa com efeitos imprevisíveis sobre o funcionamento do ecossistema da Mata Atlântica como um todo — já altamente fragmentada. (FT/AAN)