Publicado 19 de Fevereiro de 2014 - 5h30

Mastologistas e pacientes de Campinas e região repudiam a nova portaria do governo federal que restringe o acesso de mulheres com menos de 50 anos a exames de mamografia. Segundo os profissionais, a medida deve prejudicar cerca de 35% das pacientes com a doença atendidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) na cidade, que estão abaixo da faixa etária recomendada pelo Ministério da Saúde para o procedimento. O Conselho Federal de Medicina (CFM) entrou na última sexta-feira com uma ação civil pública para suspender o efeito da medida. A mamografia é hoje o principal exame investigatório para identificar o câncer de mama precocemente.

O texto do Ministério estabelece que usuárias com até 49 anos devem fazer mamografia para o diagnóstico de tumores malignos e não como exame de rotina, como é preconizado àquelas com mais de 50. Nesta última faixa etária, a verba para os exames é ilimitada. Além disso, para pacientes com menos de 40 anos em que o exame é indicado pelo médico, a portaria permite somente o procedimento unilateral — apenas em uma mama. Para o mastologista César Cabello dos Santos, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e editor da revista Brasileira de Mastologia, o rastreamento deve ser feito a partir dos 40. Segundo ele, apesar de a mama de mulheres mais jovens ser mais densa e mais difícil de diagnosticar na mamografia, o exame ainda é o instrumento mais eficaz de detecção de neoplasias.

“Essa resolução vai contra a posição da Sociedade Brasileira de Mastologia e Ginecologia. Em uma realidade como a nossa, onde o câncer de mama cresce cada vez mais em mulheres jovens, é uma medida sem propósito”. Santos disse que no Hospital de Clínicas da Unicamp, de 35% a 40% das mulheres tratadas têm menos de 50 anos.

O médico do Instituto de Mama de Campinas e do departamento de oncologia mamária da Unicamp, Fabrício Palermo Brenelli, afirmou que a posição do Instituto Nacional do Câncer (Inca), em que se baseia a portaria do governo federal, vai contra a linha de trabalho de todos os mastologistas do País. “Acredito que a decisão do governo federal é mais baseada na divisão de custos dos exames do que na prevenção em si. Não é porque a incidência é maior em mulheres com mais de 50 que o número de casos na outra parcela também não é significativo”, explicou. Brenelli disse que, em diagnósticos precoces, as chances de cura do câncer de mama chegam a 98%. “O exame preventivo em mulheres acima dos 40 anos é padrão nos Estados Unidos e deveria ser para o Ministério da Saúde. Evita que o tumor se espalhe a axilas e outros órgãos”, disse.

[TEXTO]A Sociedade [/TEXTO]Brasileira de Mastologia vai ingressar com uma ação solidária à do CFM, segundo o presidente, Ruffo de Freitas. A principal crítica do médico é em relação aos exames unilaterais. “Não existe fazer exame em uma mama e não fazer na outra. Precisamos fazer nas duas, para ter um padrão de comparação para o diagnóstico. A chance de falso negativo e de falhas aumentam”, explicou. Ainda de acordo com o presidente, no Brasil a incidência de neoplasias mamárias em mulheres abaixo dos 40 anos é de 22%.

Outro lado

Em nota oficial, o Ministério da Saúde explicou que mudou apenas a forma de pagamento dos exames às Prefeituras, que agora é feito de acordo com a faixa etária. “Antes, a mamografia bilateral era paga via Fundo de Ações Estratégicas e Compensações (Faec), agora somente os exames compreendidos na faixa dos 50 aos 69 anos passam a ser pagos por essa fonte, as demais são cobertas por recursos transferidos dentro do bloco financeiro Teto da Média e Alta Complexidade (MAC)”, disse a nota.

Ainda de acordo com o Ministério, a portaria não mudou os procedimentos em mulheres com menos de 50 anos, que já eram realizados com indicação médica. A coordenadora do departamento de Saúde da Mulher em Campinas, Celina Sollero, explicou que, na prática, o que muda é que agora mulheres acima de 50 anos podem fazer exames sem limitação, enquanto as mamografias para usuárias com 49 anos ou menos dependem da demanda de cada cidade. “Não tem como ampliar indiscriminadamente para não perdemos o controle do resultado do exame, tratamento e acompanhamento posterior”.

Diagnóstico precoce é fundamental

Com um filho de 1 ano e 10 meses, a bióloga Cristina Rosa nunca imaginou que seria diagnosticada com câncer de mama aos 37 anos. Ela descobriu o nódulo com o autoexame há oito anos, e a mamografia imediata foi essencial para identificar a neoplasia. “Fiz o exame três dias depois. Mas se não tivesse percebido o caroço, o câncer poderia ter desenvolvido muito mais, pois a mamografia não é indicada para mulheres de 30”, contou. Ela fez mastectomia parcial e quimioterapia. Hoje, com 45 anos, descobriu outro tumor, na mesma mama. “A restrição da mamografia para quem tem menos de 50 é um retrocesso. Está mais do que provado que a incidência em mulheres jovens é cada vez maior”, disse Cristina, que optou por retirar completamente as duas mamas, como tratamento profilático.

Márcia Helena Amadia Miguel, de 54 anos, descobriu o câncer de mama aos 45. O diagnóstico precoce com mamografia, que detectou o tumor com menos de um centímetro, foi primordial para o sucesso do tratamento. “Retirei a mama toda, mas não precisei fazer quimioterapia ou rádio”. (CP/AAN)