Publicado 02 de Março de 2014 - 5h00

MOACYR CASTRO - IG

CEDOC

MOACYR CASTRO - IG

O que no mundo dá ódio, no Brasil dá samba. Imagine se meia dúzia de charges sobre Maomé fosse capaz de provocar guerra, fome, peste e morte contra o cartunista, como fundamentalistas ameaçaram um dinamarquês por causa de um jornaleco que aprontou igualzinho por lá. Só com o nome “Jesus Cristo”, o Google manda a gente para oito páginas de anedotas sobre o filho do Homem, sem falar nos reclames em que Ele é garoto-propaganda. (Nessa hora, eu sinto orgulho de ser brasileiro, povo que enaltece até o sovaco do Cristo, sem cerimônia.)

Domingo passado, a TV Cultura passou um filme nacional (bem)feito em 1958. Uma lição atrás da outra. A começar pelo título: foi o filme que criou a expressão ‘Vou te contá’, que dura até hoje, sempre prometendo uma fofoca. O elenco é para quem passou dos 60 venerar: Chocolate, Pagano Sobrinho, Dorinha Duval, Maria Vidal, o eterno cangaceiro Milton Ribeiro, Golias, Cinderela... E as músicas, com os Demônios da Garoa, Carmen Costa (já ‘ensinando bossa nova’ com Eydie Gorme), o campineiro João ‘engole ele, paletó’ Dias, Risadinha ‘Alegria do Palhaço’, Jorge ‘eu quero é rosetá’ Veiga, Virgínia Lane, Dalva ‘Matriz’ de Oliveira, Isaura ‘Personalíssima’ Garcia, Chico Egydio.

Deusas e deuses da música e do riso. Para quem não sabe, Chocolate é autor da música prefixo dos programas de Chico Anysio até ele morrer e personagem representante do time da Ponte Preta no programa “Miss Campeonato”, encarnada na vedete Rose Rondelli, primeira ou segunda mulher do Chico, na velha TV Paulista. Tudo ao vivo. Na história, veja você, Chocolate explica o plano para a polícia pegar os bandidos e pergunta: “Tá ligado?” Virou praga.

Pela segunda vez um roque brasileiro tocava no cinema, agora com Nilton Paz (Conhece? Nem minha avó.). Ouçam a letra: “Nós somos da juventude transviada / Essa feliz rapaziada / Que passa a vida a se esbaldar, a sonhar, a cantar, a pular... / Nós somos a gloriosa mocidade / Cheia de luz e claridade / Que o falso puritano não pode topar / Não gostamos dessa mocidade sonsa / Educada no tempo do onça / Se nós vivemos na nossa baderna, / A nossa educação é mais moderna...” O cenário se parece com loja de conveniência em postos de gasolina. Lá fora, três ‘garbosas’ Romi-Isetta esperam as primeiras Lambretas que logo as desbancariam do coração dos jovens transviados e da paisagem do Brasil. Imagine tocar isso na MTV.

Feito em outro país, sobrariam nada e ninguém. Aqui, explodiram gargalhadas. Começa com os “Demônios” fumando narguilé e cantando: “Alô, alô!!/ Quem fala?/ É do harém do Maomé?/ O papai pediu para mandar/ Uma nega que me faça cafuné” (inspirou até anúncio do biscoito Aymoré). E lembre de “Alá, lá, ô, ô, ô”; “Olha a cabeleira do Zézé... Será que ele é Maomé? Parece que é transviado...” Afe!

Depois de baiana, índio e pirata, fantasia de xeique e odalisca é a marca do povo no Carnaval. Os políticos, mais autênticos, preferem trocar a perna pela cara de pau e os xeiques, sonham ser um dos 40 ladrões do Ali Babá.

Pregado no poste: “Mil palhaços no salão; milhões nos bolsos do mensalão”