Publicado 28 de Fevereiro de 2014 - 5h00

ig-cecílio

AAN

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Num país de tantos reis e rainhas — do café, da soja, dos baixinhos, do futebol, da cantoria — a chegada do Rei Momo deve ser saudada de maneira entusiástica. Pois é ele, o Rei Momo, quem realmente reina na alma dos brasileiros. Ao lado de Pelé. É legítima, pois, a saudação que lhe é feita: “Evoé, Momo.” Repete-se, para ele, o grito que as bacantes faziam ao Baco romano, o Dioniso grego: “Evoé, Baco; Evoé, Dioniso”. E a alegria, o prazer, o embebedamento, o êxtase, a falta de compromisso, o relaxamento físico e espiritual — tudo, ao mesmo tempo, acontece na alma brasileira. Mais do que sempre.

Penso que o Rei Momo chega, desta vez, num momento providencial e adequado. O povo está querendo ir às ruas, tem ido, mas anda perdendo-se por força de violências e depredações, de vandalismos e barbáries cometidos por pequenos grupos. Mas a rua sempre foi do povo e deve voltar a sê-lo. De maneira natural e simples, como foi no passado. Castro Alves previra-o ao cantar: “A praça é do povo como o céu é do andor.” A rua é do povo, dizemos, como os palácios governamentais são dos aproveitadores.

No reinado de Momo, tudo começa a ser diferente. E isso já se anuncia desde antes de sua chegada. Os blocos carnavalescos já tomam conta das ruas, das praças em quase todas as cidades brasileiras. Diferentemente de depredações e violências, de rebeldias sem causas claras, os carnavalescos sabem o que estão fazendo e procurando: alegria, distração, divertimento, festa. Rei Momo traz e inspira essa mudança de humor, para felicidade geral da nação.

Saudemos, pois, Rei Momo, que chega para por a casa em ordem, para nos devolver a picardia e o humor popular que pareciam perdidos diante da fabricação de tanta desgraça, de tanto pessimismo. Sei lá o que farão os grandes jornalões, que parecem enxergar apenas o cisco no olho da Dilma, sem verem a grande trave nos próprios olhos. A pregação do pessimismo, do derrotismo, a tentativa de voltarmos ao complexo de vira-lata são uma doença ruim e contagiosa, que tende a assustar os pequeninos e a facilitar manobras dos poderosos.

Nunca entendi — apesar de alguma experiência de vida — essa pregação de que tudo vai mal, de que estamos à beira do precipício. Pois vejo o contrário nas ruas e nas pessoas. Restaurantes cheios, supermercados lotados, hotéis sem vaga, rodoviárias e aeroportos que não conseguem atender a tanta gente, ruas entupidas de automóveis, construções que se multiplicam preocupantemente. O problema estaria na Bolsa de Valores? Pode ser, mas, da mesma forma que o povo, eu não entendo disso. Onde economistas veem empreendimentos e empreendedores, eu apenas consigo ver especulação e especuladores. Mas minha opinião não importa, pois sou ignorante como o povo.

O fato é que o Rei Momo chegou, evoé! E — apesar da sanha destruidora de muitos e da semeadura do azar e do pessimismo de outros — Momo deverá reinar até junho. Pois o Carnaval, este ano, não terminará na quarta-feira de Cinzas. Continuará, atravessando a Quaresma, vibrando também na Páscoa, e as cores verde-amarelo estarão anunciando que Rei Momo ficará também para a Copa do Mundo. E não adianta chorar. Nem protestar maleficamente nas ruas. Somos, sim, o País do Carnaval. E, também, País do Futebol. O que pode haver de mais dionisíaco do que isso?

Poderá ser até divertido ver, nas ruas, a disputa de espaço entre multidões de pierrôs e colombinas, de palhaços alegres, com as pequenas multidões de predadores mal-intencionados e mal-humorados. A alegria vence tudo. E o Brasil — pressionado pelas cassandras de sempre, agora instaladas em veículos de comunicação — não suporta mais esse pessimismo artificial, esse derrotismo imoral. Chega do pranto das viúvas de privilégios exclusivos! Pois Momo chegou.

E, com ele, o que de melhor tem a alma brasileira, que é a alegria e a festa.

O futebol e o Carnaval são os grandes símbolos da unidade nacional. Temos ainda problemas? Sim e muitos. Mas eles apenas serão resolvidos se um movimento nacional de esperança, de confiança, de otimismo, de alegria voltar a inundar a alma brasileira. Rei Momo chegou para isso. E os jogadores da seleção — sem reis, mas com o príncipe Neymar — poderão alavancar nosso potencial de brasilidade de cachorro grande e não de cãozinho vira-lata.

Depois da Copa, Momo ir-se-á embora. Então, a conversa será outra. Xô, para os que torcem para o Brasil perder! Que o novo rei seja Felipão!