Publicado 22 de Fevereiro de 2014 - 6h00

Por Maria Teresa Costa

Situação é crítica no Ribeirão dos Pinheiros, em Valinhos, região de Campinas

Gustavo Tilio/Especial para a AAN

Situação é crítica no Ribeirão dos Pinheiros, em Valinhos, região de Campinas

O aumento de vazão do Sistema Cantareira para as Bacias PCJ, anunciado no sábado pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB), chegou na região, mas não alterou a exigência de atenção no abastecimento de Campinas. Segundo o consultor da Sociedade de Abastecimento de Água e Saneamento (Sanasa), Paulo Tinel, o aumento de 1 m3/s amenizou a situação, mas o nível de atenção continua.

O motivo principal, disse, é que as cidades que estão antes de Campinas aumentaram o consumo da água do Rio Atibaia. Além disso, está havendo fuga de água do rio, que a empresa está investigando. Na madrugada passada, entre 1h e 4h, a vazão caiu de 11,75 m3/s a meia noite para 7,8 m3/s às 6h.

Assim, a vazão do Atibaia variou ontem de 6m3/s e 8 m3/s - há uma semana, quando a cidade estava prestes a entrar em racionamento, a vazão chegou a 3,4 m3/s.

Na madrugada de quinta, a mesma queda de vazão havia sido verificada, o que levou a Sanasa a pedir para a CPFL Renováveis interromper a operação da hidrelétrica Salto Grande. A usina parou, mas ontem houve nova queda abrupta na vazão.

A CPFL Renováveis informou que om as chuvas da semana passada, as duas PCHs Jaguari e Salto Grande foram autorizadas a retornar operação no inicio desta semana. Entretanto, desde quinta-feira essas PCHs foram novamente desligadas por ausência de chuva e consequente queda de vazão.

A CPFL informou que as empresas geradoras de energia da região vêm recebendo orientações da Câmara Técnica do Comitê das Bacias Hidrográficas dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ) para que seja garantida a operação adequada e segura das usinas, sem interferir nas captações existentes para abastecimento público.

Se a usina parou, disse o especialista em recursos hídricos, Aurélio Carmo, o mais provável é que a queda na vazão tenha sido provocada por irrigação. "É bem possível que isso tenha ocorrido, levando em consideração o horário em que a vazão baixou" , afirmou.

A preocupação da Sanasa é que o volume de água no rio vem baixando novamente e as perspectivas de chuvas não são boas. O boletim diário da Sala de Situação dos Comitês PCJ informa que a previsão de chuvas até terça-feira é de acumulados de 25 a 50 mm nas Bacias PCJ.

No final de semana, áreas de instabilidade aumentam a nebulosidade provocam chuvas fortes e persistentes no sul do estado e em cidades próximas da divisa com o Paraná.

Nas demais áreas paulistas, como na região do PCJ, mesmo com maior quantidade de nuvens, a chuva só ocorre a partir da tarde, de forma rápida e isolada, mas com risco para tempestades e descargas elétricas.

Para dar algum resultado, a chuva tem que cair na região do sul de Minas Gerais, onde se formam os rios que abastecem o Sistema Cantareira. Essa cabeceira está localizada nas cidades de Camanducaia, Extrema, Sapucaí-Mirim, Joanópolis e Nazaré Paulista.

A chuva do último final de semana e nem o aumento de vazão para o Rio Atibaia, de onde Campinas tira água para abastecer 95% da população, fizeram o rio voltar ao normal. Um sobrevoo feito no início da semana por técnicos da Sanasa, mostrou que o nível do rio ainda não está 100%, principalmente na região de Bom Jesus dos Perdões, quando o Rio Atibainha se junta com o Rio Cachoeirinha, formando o Atibaia. Vários pontos foram analisados, inclusive para uma possível área de represamento para a região de Campinas.

Os técnicos constataram ainda que o Atibaia tem uma grande redução de suas margens, com falta de mata ciliar, mostrando a preocupação com o meio ambiente, conforme o diretor de operações, Marco Antônio dos Santos.

"Temos algumas áreas do Rio Atibaia que quase não existem mais matas ciliares, isso é um perigo para nosso manancial. Com este período de estiagem, o rio diminuiu muito sua vazão e sem estas matas ele fica muito vulnerável" , afirmou.

Produção

Depois de cerca de duas semanas paralisada por causa da baixa vazão do Rio Atibaia, a Rhodia retomou a produção em sua unidade de intermediários e poliamida, no conjunto industrial de Paulínia.

Segundo a empresa, a água é utilizada em seus processos produtivos, principalmente em sistemas de refrigeração, sendo que a maior parte do total captado é devolvida para o rio, sem prejuízo para o abastecimento das comunidades

Alerta

O volume de água armazenado no Sistema Cantareira continua caindo e ontem as represas que enviam água para a região de Campinas operaram com 17,4% da capacidade, enviando 4 m3/s para a região e 29,04 m3/s para a Grande São Paulo.

Se o sistema não receber pelo menos três vezes mais chuvas do que o normal, os reservatórios chegarão ao período da estiagem comprometidos, disse o coordenador de projetos do Consórcio PCJ, José Cezar Saad.

Segundo ele, para atender a demanda desse período, precisaria chover 1 mil milímetros, volume que aumentaria para 50% a capacidade útil do armazenamento dos reservatórios. Normalmente, no início do ano, as chuvas atingem, no máximo, 300 milímetros.

Em fevereiro, a média histórica é de 202,6 mm, mas este mês, até ontem, choveu apenas 48,7 mm.

Saad afirmou que, em dezembro, os técnicos do Consórcio PCJ já tinham indicadores de que a estiagem neste ano poderia ser acentuada. No ano passado, choveu 70% menos do que o esperado nas quatro represas que formam o sistema, de acordo com a Sabesp.

"O estudo vem sendo feito desde novembro, quando nós percebemos que os níveis dos reservatórios estavam caindo", explicou. Desde então, o consórcio vem alertando prefeituras, empresas e órgãos gestores.

Decisão

A próxima quinta-feira será decisiva para estabelecer a quantidade de água que será enviada do Sistema Cantareira para as Bacias PCJ no mês de março. A Câmara Técnica de Monitoramento Hidrológico (CT-MH) vai se reunir em Piracaia para discutir a vazão e o Minstério Público avisou que vai continuar insistindo para que a remessa de água para São Paulo, além da vazão primária de 24,8 m3/s, seja restringida.

A Companhia de Saneamento Básico (Sabesp) tem enviado volumes acima de 30 m3/s, porque está usando seu banco de água, uma reserva que a empresa mantem no sistema.

"Nesse momento critico, temos que adotar somente as vazões primárias e manter o volume do banco de águas como reserva estratégica para garantir a operação do sistema" , disse o promotor Rodrigo Sanches Garcia, do Grupo de Atuação Especial do Meio Ambiente (Gaema).

O grupo defende que a diminuição do nível dos rios das Bacias PCJ traz problemas não só para o volume de água, mas também para a qualidade, pois a concentração de poluentes aumenta.

O Gaema de Campinas e Piracicaba encaminharam à Agência Nacional de Águas (Ana) e Departamento de Água e Energia Elétrica (Daee) recomendação para reduzir a vazão para São Paulo.

O promotor Ivan Carneiro disse que os dois órgaõs remeteram ao comitê anticrise que analisa a situação do abastecimento, que opor sua vez informou que uma resposta cabe aos órgãos gestores.

Escrito por:

Maria Teresa Costa