Publicado 19 de Fevereiro de 2014 - 5h00

Por Gustavo Mazzola

IG- Gustavo Mazzola

CEDOC

IG- Gustavo Mazzola

O Peter morreu! De repente, foram surpreendidos com a péssima notícia, que os deixava, os quatro, tristes com a partida daquele companheirão. Fazia mais de quarenta anos que não se sentavam em volta de uma mesa para um chope, rever histórias, conversar sobre qualquer coisa. Papo assim, tão bem programado, nem se recordavam de outro igual. Certamente viriam à tona lembranças de quando conviveram na mesma empresa numa distante década de 60. Mas, e essa agora do Peter e, ainda outro dia, a perda do Eustáquio? Ficava no ar uma verdade: os amigos daquele tempo estavam indo embora. Apesar de tudo, a conversa começava interessante, prometia.

— Então, continua com os desenhos? Ah! Aquelas caricaturas do pessoal da seção, das meninas, tudo sempre a ver com algum acontecimento do dia. A gente ria muito da figura que você fazia do amigo aqui com os óculos equipados com lampadinhas, tudo para brincar com a novidade da época, as lentes fotocromáticas, que se escureciam quando em contato com o sol.

Era com o Edmar com quem um deles falava. Caricaturista criativo, de fino humor, um dos desenhistas do Departamento de Propaganda, mas já chegava com uma bagagem de dar gosto: pertencera à equipe que fazia o Pato Donald, ainda quando a Abril estava na João Adolfo, em São Paulo.

Depois de muita prosa, eu, um dos amigos ali unidos — já divagando um pouco —, comecei a me lembrar do meu primeiro dia no emprego, em maio de 1966. Terminado o almoço na fábrica, meu chefe Sérgio, simpático e sorridente, como sempre — hoje, à minha frente nesse encontro de recordações —, passava-me já uma tarefa: deveria procurar os empresários campineiros Júlio Guerreiro e Durval Dias Arruda, que tinham uma informação importante para a nossa revista de assuntos gerais: estava no ar, em toda a cidade, o sinal da TV Andorinha que, além de retransmitir a TV Excelsior, de São Paulo, oferecia uma programação própria, tudo isso com uma mínima infraestrutura nos fundos de uma casa no Castelo. Era a nossa primeira televisão regional, muitos anos antes da TV Campinas, que só começaria por aqui em 1979. A matéria saiu publicada, rica em detalhes e fotos, chamando a atenção até da imprensa local.

— Fique atento, outros “furos” virão por aí — animava-me Sérgio. Eu iria aprender muito com ele, até coisas mais simples, como escrever corretamente o português, ser coloquial, leve no texto.

No canto da mesa, o meu antigo diretor Luiz Carlos, descontraído, amigão de todos. E de decisões rápidas, precisas.

— Vocês se lembram disso? Uma vez, quando a empresa ia completar 25 anos no Brasil, durante semanas estivemos preparando uma grande festa que aconteceria ao ar livre, na cobertura do prédio administrativo, inclusive com um show de Abelardo Figueiredo. Mas, a manhã do dia da comemoração, de repente, se mostrou fechada, anunciando pesadas chuvas. Pois ele, algumas horas antes do evento tomou uma decisão surpreendente: — Vamos mudar tudo para o andar térreo.

E a festa aconteceu maravilhosa, com os convidados vendo lá fora copioso aguaceiro, que continuou até a madrugada.

— E aquelas deliciosas brincadeiras que arquitetávamos com carinho na Seção de Arte? Por exemplo, com o Robertinho do Financeiro, que quase todos os dias dava uma passada lá na nossa seara de criação. Mas, vinha sempre com reclamações: “me dói aqui, me dói ali, não dormi bem esta noite!” Foi, então, que veio a ideia: como estava em sucesso a história do Ipê Roxo, a ação imediata foi esvaziar o repositório do apontador de lápis do outro desenhista, o Fred, tirando tudo de lá e amassando bem o conteúdo. Em seguida, adicionou-se uma boa quantidade de um pó arroxeado. A mistura foi colocada num saquinho de plástico e, então, era só esperar pela “vítima”. Não demorou muito e lá vinha Roberto com suas dores lombares.

— Olha, minha avó mandou esse chá pra você tomar, uma xícara na hora de se deitar, certo? É de Ipê Roxo, vai te fazer bem.

E, assim, durante vários dias, o nosso colega foi tomando a beberagem. Dizia: “o chazinho está dando resultado. Não sinto mais nenhuma dor!”

Era o final do esperado encontro. Mas, sentiam-se ainda inevitavelmente melancólicos: os anos tinham passado, as marcas do tempo nas faces, suas histórias já vividas, guardadas em prateleiras de tantas recordações. E mais essa de descobrir que os amigos começavam a morrer, mesmo!

Em dado momento, abraçaram-se emocionados. O encontro terminava ali sem que dissessem adeus um para o outro, somente um aceno amigo. Era preciso acreditar que a vida continuava. Apesar de tudo.

Escrito por:

Gustavo Mazzola