Publicado 12 de Fevereiro de 2014 - 6h30

Por Maria Teresa Costa

Represas que formam o Sistema Cantareira estão com o nível mais baixo dos últimos 30 anos

Luís Moura/AE

Represas que formam o Sistema Cantareira estão com o nível mais baixo dos últimos 30 anos

Apenas 3,41 m3/s de água entraram ontem no conjunto de reservatórios que formam o Sistema Cantareira, volume 46,5% menor que o verificado no dia 1º de fevereiro e 95,6% menor que há exato um ano. A situação dramática dos reservatórios, que ontem operaram com apenas 19,4% da capacidade, é tanta que as barragens, com o solo craqueado, parecem cenário das secas rigorosas que costumam atingir o Nordeste. A Represa Jaguari é a que tem menos água armazenada — apenas 16% da capacidade.

A Sabesp continua tentando fazer chover nos reservatórios e, segundo publicação no Diário Oficial do Estado de ontem, vai gastar com a tarefa R$ 4,47 milhões até dezembro de 2015 — o prazo do contrato com a empresa ModClima indica que a estatal está preocupada com o prolongamento da estiagem.

A Sabesp informou que ModClima fez cinco voos na bacia hidrográfica das represas do Sistema Cantareira na região de Bragança Paulista que resultaram em duas precipitações, mas sem quantidade suficiente para contribuir com a elevação do nível de água do manancial.

Tecnologia

Conhecida como semeadura de nuvens, a tecnologia começou a ser aplicada na quarta-feira e resultou em chuva, mas pequena, em Bragança Paulista, onde está um dos reservatórios do sistema. Para fazer chover, explicou a diretora da empresa ModClima, Majory Imai, é preciso lançar gotículas de água potável, de tamanho controlado, no interior de nuvens cumulus — aquelas nuvens densas que se formam na troposfera, a porção mais baixa da atmosfera terrestre. "Com isso, conseguimos o crescimento vertical da nuvem e a chuva ocorre depois de 20 a 40 minutos da semeação”, informou.

As gotas que são lançadas por avião dentro das nuvens ganham volume quando vão colidindo umas com as outras e se fundindo, em um processo chamado de coalescência, enquanto são carregadas pelas correntes ascendentes (correntes de ar quente). Quando o peso das gotas não é suficiente para vencer as correntes elas caem, colidindo de frente com as gotículas menores que estão subindo, ganham mais massa e formam gotas de chuva.

Preocupação

O Ministério Público, nas esferas federal e estadual, está preocupado com a situação do Sistema Cantareira e com o futuro desse sistema para garantir água para a Grande São Paulo e região de Campinas. Esta semana, na reunião preparatória para o debate sobre a renovação da outorga, as discussões foram centradas na necessidade de novas condições e regras para a operação nos próximos dez anos (período da outorga, cuja renovação será agosto de 2014).

“As baixas vazões liberadas para o PCJ podem gerar graves consequências negativas para o abastecimento público, para a qualidade da água fornecida para os usuários, com implicações na saúde pública (elevadas concentrações de cargas orgânicas não diluídas no meio líquido escasso), e no meio ambiente (prejuízos, por exemplo, à fauna aquática, com mortandade e não reprodução de peixes), bem como limitações para o desenvolvimento de novas atividades industriais na região e para licenciamento de novos empreendimentos imobiliários”, segundo nota conjunta do MPE e MPF.

Os promotores criticam a decisão da Agência Nacional de Água (ANA) e do Departamento de Água e Energia Elétrica (Daee) de continuar autorizando, apesar dos níveis críticos, a região de São Paulo a usar o banco de águas.

Aumento do custo

A Sociedade de Abastecimento de Água e Saneamento S.A. (Sanasa) gastou R$ 500 mil a mais em janeiro para tratar a água que é distribuída à população. A previsão é que o custo irá aumentar ainda mais em fevereiro, porque as condições do Rio Atibaia, que abastece 95% de Campinas, estão muito piores que no mês passado, segundo o diretor técnico da empresa, Marco Antonio dos Santos. “A baixa vazão impede a diluição natural dos poluentes e isso nos obrigada a aumentar o uso de produtos químicos no tratamento”, disse.

Em condições de vazões normais, a Sanasa usa, por exemplo, 8 ppm (parte por milhão) de cloro, volume que subiu para 44 ppm nesta estiagem fora de época. O volume de cal hidratado usado cresceu 82%, o de cal virgem, 109% e de carvão ativado dobrou. O aumento no custo do tratamento, segundo o diretor, não será repassado à tarifa de água.

Americana

Além dos poços mais rasos, a seca está também atingindo os profundos — em Americana, o poço do Jardim Colina, que tem 120 metros de profundidade, secou e disparou o alerta na cidade para as drásticas consequências que virão com o rebaixamento do lençol freático profundo, uma vez que a cidade utiliza 30 desses poços no abastecimento público.

O Departamento de Água e Esgoto (DAE) informou que vai realizar uma avaliação técnica mais aprofundada para estudar as reais condições do poço e as medidas que devem ser tomadas para que volte (se possível) a produzir água. Seguindo a empresa, Americana utiliza água de dois lençóis freáticos, o Itararé e o Tubarão, sendo que 30 poços do Dae estão no sistema Itararé. A cidade tem poços de 96m até 330m.

A diretora geral do DAE, Claudete Alves Pereira, disse que o poço da Colina fica a 120m de profundidade e está sofrendo as consequências da falta de chuva. “Esse está entre os poços mais rasos. Minha preocupação é que, se continuar esse clima de estiagem, outros poços possam secar”, afirmou.

A cidade tem mais poços na mesma profundidade ou mais rasos que o da Colina. O poço da Colina passou por manutenção ano passado, inclusive com troca de bomba para melhorar o funcionamento. Em Campinas, poços de sete, oito metros de profundidade estão secando e deixando a população que utiliza água subterrânea desabastecida.

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Maria Teresa Costa