Publicado 09 de Fevereiro de 2014 - 9h13

Por Maria Teresa Costa

Vista do Rio Atibaia no distrito de Sousas, com o nível bem abaixo do normal

Gustavo Tilio/Especial para a AAN

Vista do Rio Atibaia no distrito de Sousas, com o nível bem abaixo do normal

A garantia de oferta de água para os municípios das bacias dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (Bacias PCJ), que enfrentam sua pior seca com ameaça ao abastecimento, tem um preço, e ele é alto: R$ 1,1 bilhão. O Consórcio Intermunicipal das Bacias dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ) acredita que não bastará conseguir mais água do Sistema Cantareira a partir deste ano, quando haverá a renovação da outorga do Cantareira, com novas definições de vazões para São Paulo e para a região de Campinas.

Será preciso que as cidades consigam autonomia de abastecimento, construindo, por exemplo, barragens municipais, disse o diretor do consórcio, Francisco Lahoz.

O investimento de R$ 1,1 bilhão é necessário para a construção de três represas em Salto, Amparo e Pedreira, que garantiriam uma capacidade de armazenamento de 84 bilhões de litros de água, volume superior ao da Represa Cachoeira, que integra o Sistema Cantareira, e que forma o Rio Atibaia, principal abastecedor de Campinas — essa represa tem capacidade para 70 bilhões de litros.

As três represas ampliariam a vazão para a região em 8,3 m3/s — a atual outorga do Cantareira garante vazão máxima de 5 m3/s.

Metade dessa verba sairá do governo do Estado, que se comprometeu a construir as represas de Salto e Amparo.

Mas não há fonte de financiamento para a construção do sistema adutor, estimado em R$ 500 milhões — essa verba, segundo o secretário estadual de Saneamento, Edson Geriboni, terá que ser equacionada provavelmente com parcerias dos municípios.

Mas o presidente da Sociedade de Abastecimento de Água e Saneamento (Sanasa), Arly de Lara Romeo, disse que, no caso de Campinas, há dificuldades financeiras para bancar uma obra tão cara como essa.

Segundo o diretor do consórcio, Francisco Lahoz, o caos hídrico pelo que passa a região deixa bem claro que não há mais condições de depender do Cantareira. “A cada renovação da outorga continuaremos brigando por mais água. Temos que garantir autonomia e sair da dependência das calhas principais da bacia”, afirmou.

A solução para enfrentar o longo período de estiagem que vem pela frente nas Bacias do PCJ está na construção de represas, mas com capacidade superior à que está sendo projetada pelo governo do Estado para as barragens em Amparo e Pedreira.

De acordo com o pesquisador Antônio Carlos Zuffo, do Departamento de Recursos Hídricos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), elas estão subdimensionadas e não irão atender as necessidades em uma estiagem prolongada como a que poderá ocorrer.

O projeto financiado pela Petrobras indica que as represas acrescentarão 7 m3/s às bacias, mas Soufflé disse que a represa no Rio Camanducaia poderá regular a vazão em mais 8m3/s e a do Rio Jaguari, em mais 12 m3/s.

“É preciso que os reservatórios sejam maiores, e isso tem que ser projetado já, porque depois que as represas estiverem prontas, o entorno começará a ser ocupado e a capacidade de ampliação dos reservatórios estará perdida”, afirmou.

Zuffo lembrou que o projeto da Petrobras foi feito para que a Refinaria de Paulínia fosse autorizada a captar mais água, necessária para atender as ampliações projetadas na refinaria. Foi exigido que ela fizesse estudos de novos reservatórios para compensar a água a mais que será retirada.

“Ou seja, a refinaria não fez um estudo para garantir mais água para as Bacias PCJ, mas sim para repor a água que irá retirar”, disse.

Represamento não é saída

A construção de represas é polêmica. O represamento de rios para aumentar a oferta de água é uma medida condenada pelo engenheiro agrônomo Nelson Barbosa, que representa o Sindicato Rural de Campinas nos Comitês PCJ.

O diretor do Consórcio PCJ, Francisco Lahoz: “A cada renovação de outorga continuaremos brigando por água" 

Ele aponta o alto custo, os impactos ambientais, a perda de áreas férteis adequadas à produção de alimentos e a perda social, com a retirada de população rural de sua atividade, como alguns dos pontos negativos que deveriam ser levados em consideração.

“Elas não funcionam quando houver secas cíclicas graves, como essa, e que ocorrem a cada seis, oito anos, e tendem a aumentar. O que precisa ser feito é a recuperação da vazão perdida, pela recuperação e preservação das áreas rurais das bacias, sub-bacias e microbacias situadas nas áreas de cabeceira, nas áreas de recarga, começando no entorno e nas áreas altas acima do Sistema Cantareira. Na área de 96 quilômetros quadrados do sistema, centenas ou milhares de corpos d’água deságuam nas represas. Hoje com vazão muito baixa, insuficiente para manter os reservatórios carregados”, disse. 

‘Efeito José’

A seca em pleno período chuvoso pode ser o início de um longo tempo, de até 30 anos, em que a região de Campinas terá que conviver com a ameaça ao seu desenvolvimento por falta de água.

O fenômeno da escassez de chuvas, conhecido como efeito José — uma referência ao personagem bíblico que, ao interpretar o sonho do faraó previu sete anos de fartura e sete anos de fome — atinge a região, segundo estudo do pesquisador Antônio Carlos Soufflé, do Departamento de Recursos Hídricos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). 

O mais grave é que esse fenômeno, cíclico, não está sendo levado em conta na renovação da outorga do Sistema Cantareira que ocorrerá este ano.

O acompanhamento dos níveis de precipitação realizados pelo Instituto Agronômico de Campinas (IAC) mostram a presença de prolongados períodos de estiagem seguidos de períodos chuvosos. “Como eventos da natureza, nada é certeza. Podem ocorrer ciclos de dez, vinte, trinta anos, mas eles estão presentes”, afirmou.

O efeito José, explicou, sucede o efeito Noé (personagem bíblico do dilúvio), que começou na década de 70 e foi até meados da década passada.

“Desde 2009 já estamos vendo um declínio no volume de chuvas na região das Bacias PCJ”, disse. 

Esses longos períodos prolongados de chuva seguidos de seca são conhecidos desde a Antiguidade. Os egípcios, por exemplo, conheciam bem o fenômeno pelas cheias e secas do Rio Nilo.

O período sob o efeito Noé, afirmou, leva a um aumento da ordem de 20% nas vazões médias em relação ao período anterior. Mas a estiagem prolongada poderá, segundo cálculos do pesquisador, reduzir a vazão em cerca de 6 m3/s, o que irá pegar as empresas de saneamento de surpresa, porque não haverá água suficiente para todos. 

Campinas, por exemplo, que é a maior consumidora dentro das Bacias PCJ, capta 4 m3/s no Rio Atibaia para abastecer 95% da população — ou seja, a redução da vazão prevista é uma vez e meia a mais do que é retirado por Campinas. 

Barragens para “salvar” a região

Barragem do Rio Pirai

Localização: Salto

Capacidade: 9 bilhões de litros

Vazão: 1,3 mil l/s 

Barragem Rio Camanducaia

Localização: Amparo

Capacidade: 43 bilhões de litros

Vazão: 4 m3/s

Barragem do Rio Jaguari

Localização: Pedreira

Capacidade: 32 bilhões de litros Vazão: 3 m3/s

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Maria Teresa Costa