Publicado 07 de Fevereiro de 2014 - 8h02

Por Maria Teresa Costa


Cerca de 441 mil pessoas em cinco cidades na região já estão sofrendo cortes no fornecimento de água. Valinhos, Vinhedo, São Pedro, Itu e Cosmópolis adotaram o racionamento por causa da baixa vazão dos mananciais. Em Valinhos, que ontem entrou em estado de emergência, a cidade foi dividida em sete grupos e cada um deles ficará sem água duas vezes por semana, por 18 horas, entre 10h e 4h do dia seguinte.

CLT, uma das reservas naturais de águas de Valinhos, na quinta-feira (6), quando foi decretado o racionamento de água

Créditos: divulgação 

Além do racionamento, Valinhos, a exemplo do que ocorre em Campinas, implantará também medidas que incluem penalização com multa de R$ 336,00 — dobrando no caso de reincidência — às pessoas flagradas pelos fiscais molhando jardins e quintais, lavando calçadas, tanto residenciais quanto comerciais e lavagem de veículos em residência.

Cosmópolis adotou racionamento ontem depois de ter ficado sem energia elétrica na estação de tratamento entre 19h e 3h. A parada no fornecimento ocorrerá das 22h às 7h, intercalando diariamente duas áreas.

“A situação é preocupante e estamos monitorando as vazões”, disse o secretário de Saneamento Básico, Vital Caió Filho.

São Pedro também iniciou ontem o racionamento durante quatro horas por dia, porque mesmo com alertas em carros de som, cartazes e divulgação na mídia local, a Prefeitura encontra dificuldade em conscientizar os moradores sobre o consumo racional.

“Se todo mundo reservar água em casa vai continuar faltando. Não tenho caixa d’água no imóvel mas não vou guardar. Estamos evitando gastar água ao máximo.” (Juan Roque de Oliveira, 20, controlador de acesso) 

Na captação do bairro Santana, o nível do Rio Pinheiros, que abastece 60% do município, está 40% abaixo da média de sua capacidade.

Sem chuvas, o racionamento prossegue diariamente, das 13h às 17h. Em Itu, o abastecimento passou a ser interrompido às 20h e retomado às 4h. A medida vale para toda a cidade e só será revogada quando os reservatórios atingirem o nível normal.

Sem rodízio

O abastecimento em Cabreúva, Campo Limpo Paulista, Elias Fausto, Hortolândia, Itatiba, Itupeva, Jarinu, Mombuca, Monte Mor, Morungaba, Paulínia e Várzea Paulista está normal, segundo comunicado da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) enviado à imprensa nesta sexta-feira (7).

Por esse motivo, o racionamento está, por enquanto, descartado. 

A Sabesp reforça o pedido para que a população use água de forma racional adiando atividades como lavar o carro, quintais e calçadas.

Plano B

As perspectivas de caos hídrico na região das Bacias dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí levou as cidades que integram o Consórcio PCJ a iniciar o cadastramento dos caminhões-pipas de empresas e prefeituras e elencar os poços profundos da região para adotar, se necessário, o chamado abastecimento de salvação.

O plano visa garantir, em situação extrema de seca, o fornecimento de 20 litros de água diário por pessoa. Se a ausência de chuva persistir — e com o Sistema Cantareira recebendo 5m3/s e retirando 35m3/s —, os reservatórios secarão em 80 dias e, segundo o consórcio, as represas podem levar até cinco anos para se recuperar. Cinco cidades na região já estão em sistema de racionamento de água.

“Compramos uma caixa de mil litros para enfrentar o período de estiagem. Aqui é uma região alta e a água não chega. Sempre falta à tarde. Quem não tinha caixa d’água tratou de providenciar.” (Sivaldo Gonçalves, 42 anos, motorista)

A decisão de adotar esse abastecimento de salvação vai depender de como os reservatórios irão se comportar. Não há perspectiva de chuva até segunda-feira. O grupo de eventos extremos do consórcio se reuniu em Americana e orientou as cidades a declararem estado de emergência.

A medida já foi adotada por Valinhos, cidade que havia iniciado rodízio no fornecimento de água e, ontem, iniciou o racionamento, que deixará cada um dos sete grupos de bairros sem água duas vezes por semana durante 18 horas.

As cidades também estão sendo orientadas a aumentar o estoque de produtos químicos para tratar a água porque, na baixa vazão, há aumento da concentração de poluentes, e há necessidade de elevar o uso de cloro. Campinas, por exemplo, desde o mês passado quadruplicou o uso do produto.

“Todas as cidades que dependem das calhas dos rios para abastecimento estão com dificuldades para captar água e fazem manobras técnicas para não deixar a população sem água”, disse o diretor do Consórcio PCJ, Francisco Lahoz.

O consórcio está fazendo monitoramento diário e trabalha em sistema de gabinete de crise para discutir e propor medidas às prefeituras.

“Não estamos livres de adotar o abastecimento de salvação, como é feito no Nordeste, quando os açudes secam e todas as fontes de abastecimento se esgotam, situação em que a água do litoral é levada para as regiões afetadas e distribuída por caminhões-pipas na base de 20 litros por pessoa”, disse. Para efeito de comparação, o consumo médio ideal é de 200 litros diários por habitante.

“Aqui falta água quase todos os dias. Sempre armazenamos. Tenho uma caixa de mil litros e também comprei um tambor de 200 litros para reservar água para tomarmos banho.” (Maria Elza, 52 anos, dona de casa)

O uso de águas de poços profundos para o abastecimento público precisa de autorização do Departamento de Águas e Energia Elétrica (Daee). O departamento não informou a quantidade de poços operados por prefeituras e empresas existentes na Bacia PCJ. Campinas tem quatro — Jardim São Domingos, Monte Belo, Monte Belo II e Vila de Campinas — que respondem por menos de 1% do abastecimento da cidade.

O consórcio decidiu também apoiar a proposta do Ministério Público que está em análise na Agência Nacional de Água (ANA) e que recomenda que a agência libere o uso do banco de água da Sabesp para garantir as vazões primárias também para a região de Campinas.

O banco de águas é uma reserva que tanto a Bacia PCJ quanto a Sabesp possuem no Sistema Cantareira para ser usado em situações emergenciais. As reservas do PCJ já foram todas usadas.

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Maria Teresa Costa