Publicado 02 de Março de 2014 - 12h00

Por Marita Siqueira

A carioca Andreia Mota, que soma dez anos de carreira, aposta num disco de estreia que foge do óbvio

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A carioca Andreia Mota, que soma dez anos de carreira, aposta num disco de estreia que foge do óbvio

Poesia, música e teatro reunidos em um trabalho solo. Sob um olhar lúdico, a cantora carioca Andreia Mota uniu as duas vertentes de sua formação artística — o canto e a atuação — para homenagear o poeta brasileiro Manoel de Barros no primeiro álbum solo, intitulado 'Paisagem Invisível' (independente, R$ 20,00). O título foi inspirado no prefácio de 'O Cancioneiro', obra cuja autoria não é de Barros mas de outro poeta de mesma grandeza, o português Fernando Pessoa.

Andreia fez um disco nada óbvio, com arranjos que estimulam a percepção da paisagem e letras que suscitam o invisível. A questão linguística remete a Manoel de Barros no momento em que há subversão das palavras, segundo a artista. “Eu tinha na ideia uma referência forte do surrealismo que queria trabalhar como cenário. ‘Mas, por quê?’, me questionei. E pensei que era pela questão de subverter a lógica e Manoel de Barros faz tudo isso com as palavras. Inventa, inverte o sentido, faz de forma tão intensa e tão lúcida. Ele me deu coragem para não ter medo de fazer aquilo que realmente acreditava”, disse, em entrevista por telefone ao Correio Popular.

Esse medo que ela cita pode ser facilmente compreendido ao se pensar no mercado atual, em que muito se reproduz e pouco se cria. “Como artista, a gente tem o dever de se arriscar. O máximo que pode acontecer é as pessoas gostarem ou não”, afirma, ressaltando que isso não significa que ela permanecerá na mesma linha em outros discos. “Não tenho que ficar me definindo, sempre há de ter a busca.”

 

As músicas do CD foram escolhidas, inicialmente, a partir dos artistas que influenciavam a cantora, como Tom Jobim, Milton Nascimento e Wilson Batista, tendo como eixo principal a força dos ritmos brasileiros embebidos na linguagem do jazz. A princípio, a cantora queria fazer releituras de músicas desses artistas já consagrados de modo a imputar nelas uma identidade própria. Mas, conforme a produção foi avançando, descobriu outro rumo a ser tomado.

 

Guiada somente pela sensação, como diz, buscou conteúdos sobre sentimento que refletem o não palpável. Foi quando achou Fernando Pessoa, que a levou ao poeta Manoel de Barros, a quem homenageia nominalmente na declamação da poesia 'Aquele Riso - Paisageando', de Alessandra Gelio, durante quase três minutos ao som de pássaros — a musicalização é assinada por Nelson Freitas. De forma que procurou novos compositores e encontrou Thiago Amud, Marcelo Fedrá e Renato Frazão. De sua autoria, há apenas a faixa 'Dos Seus Olhos'.

Produção

 

Para produzir o disco, de maneira independente, Andreia recorreu à internet e conseguiu 198 apoiadores fundamentais para o financiamiento do projeto. Em todas as etapas, como há de se observar, nada foi óbvio, e o encarte não fugiu dessa “inlógica”. Preza-se nele mais a arte das ilustrações do que a informações em si. As letras podem ser lidas, no entanto, exigem uma dedicação especial. “A arte tem que tirar do lugar comum”, diz ela.

 

As músicas foram arranjadas por Real Júnior e Victor Ribeiro, que também assina a direção musical. O baterista Lourenço Vasconcellos, o contra-baixista Bruno Repsold, o pianista Nelson Freitas e o violonista Victor Ribeiro são respectivamente chamados de Zelador do Tempo, Esticador de Horizonte, Tocador de Miudezas e Fazedor de Amanhecer, nomes inventados e extraídos de poesias de Barros. Alessandra Gelio assina a direção cênica do show do disco, ainda sem previsão de data em Campinas, em processo colaborativo com Andreia Mota.

Carreira

 

Andreia Mota atua no meio artístico há dez anos. Embora 'Paisagem Invisível' seja seu primeiro disco solo, tem experiência no Brasil e no Exterior, onde trabalhou com diversos estilos e linguagens musicais que vão desde o teatro-musical e música coral até como crooner de grupos de samba e bandas de bossa nova, MPB, jazz e pop. Profissionalmente, estreou ao lado do ator e diretor Roberto Bomtempo no musical 'Raul Fora da Lei', em 2004, com o qual se apresentou por seis anos. Em 2009, participou do programa 'Ídolos', da 'Record', e recentemente integrou o grupo vocal Dá no Coro de Música e Cena e Mãe Joana. Com o repertório do álbum, fez shows em Portugal que a levaram a ser selecionada para o Locus Festival 2013, na Itália, onde grandes nomes como Esperanza Spalding, Jacques Morelembaum e Paulo Fresu já tocaram.

Escrito por:

Marita Siqueira