Publicado 02 de Março de 2014 - 11h00

Por Marita Siqueira

A atual formação dos Raimundos, com Marquim (à esq.) e Caio (boné vernelho)

Divulgação

A atual formação dos Raimundos, com Marquim (à esq.) e Caio (boné vernelho)

Após pouco mais de uma década de altos e baixos, saída e retorno de integrantes, a banda de rock Raimundos volta a lançar um disco de inéditas com som pesado e melódico — o antecessor foi 'Kavookavala', de 2002. 'Cantigas de Roda', o oitavo trabalho de estúdio da banda e comemorativo dos 20 anos de estrada, foi financiado pelo crowdfunding, algo que se traduz como financiamento coletivo. Por ora, apenas os apoiadores, 1.699, receberam em primeira mão o link para baixar o disco, o físico e o bolachão. Para o público em geral, será comercializado apenas via on-line a partir deste mês.

 

Com Digão (vocal e guitarra), Canisso (baixo e vocal), Marco “Marquim” Mesquita (guitarra e vocal) e Caio Cunha (bateria e vocal) no elenco, a banda, que hoje trabalha de forma totalmente independente, lançou em agosto a campanha para arrecadar recursos no site Catarse. A meta era de R$ 55 mil, mas superou as expectativas e alcançou R$ 123 mil, valor integralmente investido na gravação, feita em Los Angeles, contrapartidas e divulgação.

 

Para Marquim, crowdfunding é uma forma de ser independente de maneira bem-sucedida. “As gravadoras brasileiras sofrem com a pirataria e, sem dinheiro, fazem propostas muito fracas. Chegamos a procurá-las, algumas mostraram interesse e fizeram propostas. O problema que a oferta atual é assim: faz-se um CD com orçamento bem baixo, ‘dão’ um videozinho barato e depois a gravadora fica com 80% da venda e eles querem um pedaço dos show”, afirma, prevendo que o crowdfunding seja o futuro para as bandas nacionais. “Não vejo o governo falar sobre o fim da pirataria.”

 

O álbum traz 12 faixas inéditas, que passeiam pelo hardcore em 'Nó Suíno', 'Cachorrinha' e 'Rafael'. As letras de duplo sentido, marca registrada do grupo, também estão presentes em 'Gordelícia', 'Descendo na Banguela', 'Importada do Interior', 'Cera Quente' e 'Baculejo'. Um fato interessante é que para compor e ensaiar as canções, o grupo se reuniu na casa do pai de Digão, em Brasília, como faziam no início da carreira. Lá ficaram três meses, focados integralmente. “O Digão e o Caio fizeram 80%, mas todo mundo dava pitaco”, conta.

 

Segundo Marquim, a demora para fazer um disco de inéditas foi necessária para que os Raimundos, cuja atual formação se mantêm desde 2008, ficasse coeso. “Em 2011 a gente achou que deveria fazer um novo disco, mas precisava de uma sintonia maior”, diz, revelando que Caio ficou um ano estudando para só então começar a compor.

O propósito era revitalizar aquele som que o grupo fazia na década de 90 com o vocalista original, Rodolfo, que deixou o grupo em 2001. Se a intenção era um disco com a batida pesada do hardcore, melodias grudentas e linhas de baixo marcantes — além do triângulo dando o toque “nordestino” na percussão — o êxito foi alcançado. “Queríamos uma identificação imediata com o som do grupo. É um jeito de tocar diferente que eu demorei para pegar quando entrei, assim como Caio, mas que temos que respeitar.” Uma mistura de suavidade e agressividade, como em 'Cena Quente'.

Quando o amigo e surfista Binho Nunes mostrou a demo de sua banda, Beef-Killers, mixada por Billy Graziadei, o álbum encontrou seu produtor. “Pensamos em vários produtores e estúdios brasileiros, mas, por incrível que pareça, sai até mais caro porque a banda tem dois morando em Brasília e dois em São Paulo. E, além de hotel, alimentação, aluguel do estúdio por um mês, tínhamos que pagar mixagem, masterização. Ligamos pro Billy (vocalista e guitarrista da banda norte-americana Biohazard) que fez tudo, produziu, alugou seu estúdio (Firewater), mixou. Não teria como competir com os preços do Brasil.”

 

Graziadei foi como um parceiro e “sócio” do disco, explica Marquim. “Ele disse que queria fazer por ser um trabalhado importante na carreira do Raimundos e como produtor, vantajoso de lançar um CD no Brasil”, diz. O processo não contou, porém, com Canisso, que teve seu visto negado. O trio gravou nos Estados Unidos e Billy veio para o Brasil gravar só com o baixista.

Escrito por:

Marita Siqueira