Publicado 21 de Fevereiro de 2014 - 9h00

Cena do filme "Robocop", com direção do brasileiro José Padilla

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Cena do filme "Robocop", com direção do brasileiro José Padilla

Um jornalista manifesta espanto (com razão) pelo fato de José Padilha ter conseguido tantas regalias do estúdio MGM e dos produtores de 'Robocop'. Afinal, ele carregou para os Estados Unidos os brasileiros Lula Carvalho (fotografia), Daniel Rezende (edição) e Pedro Bromfmam (trilha), todos saídos de 'Tropa de Elite' (2007 e 2010). Sem contar que escolheu músicas e o roteirista (Joshua Zetumer, e o levou para trabalhar no Rio de Janeiro), e impôs um conteúdo político ao filme que Hollywood não está acostumada quando se trata de orçamentos milionários.

 

Em entrevista realizada terça-feira (18) no Rio, e da qual o Caderno C participou, o diretor disse que foi convidado para filmar. Por isso, estabeleceu condições a fim de demonstrar autonomia. Correu riscos, pois o filme não foi bem no primeiro final de semana na América por conta de uma nevasca e por estrear no Dia dos Namorados. Mas diz que a arrecadação já ultrapassou US$ 100 milhões e que “os produtores vão ganhar muito dinheiro”.

Conta que não teve o controle formal, mas ganhou direito de fazer o primeiro corte e exibi-lo em sessões privadas. Inicialmente, para 400 pessoas; depois, para grupos, e a avaliação surpreendeu os produtores porque o acharam bom justamente por ser político. “Acho que eles subestimam o público quando entregam tudo mastigado.”

 

Diz que filmou a partir da premissa de que num futuro próximo os soldados serão substituídos por robôs. “É assunto sério, só não sabemos quando será. Isso implica em que os governos e instituições terão de tomar decisões éticas a respeito. Este era o tema que me interessava em 'Robocop'.”

 

E garante ter ignorado a expectativa dos fãs. Afirma não saber quem são os fãs nem quantos. “Se tentar adivinhar o que eles pensam, não dirijo. Procurei ser fiel ao conceito filosófico básico de gerar uma máquina com resquícios humanos que corporações e governo pudessem manipular. Este é um princípio do fascismo. E o filme ainda fala de política externa e da mídia de direita.”

 

Padilha diz não se sentir obrigado a fazer um segundo filme e não pensou em franquia. Elogia 'Robocop' de Paul Verhoeven (1987), mas não gosta das sequências: 'Robocop 2' (Irvin Kershner, 1990) e 'Robocop 3' (Fred Dekker, 1993).

Joel Kinnaman (da série 'The Killing') conta que, criança, viu o original umas 25 vezes, a ponto de a mãe, que é terapeuta, achar que ele estava paranóico. Contudo, não vê semelhanças substanciais entre os personagens. “Procurei manter o movimento dele de virar primeiro a cabeça e depois o corpo como homenagem.”

Vilão

 

Pergunto a Michael Keaton como foi trabalhar um vilão não estereotipado e cheio de nuances. Ele diz que gostou do personagem porque o achou complexo e informa ter se inspirado em vilões como o Lex Luthor de Gene Hackman ('Superman - O Filme', 1978), que era muito divertido. E elogia Padilha, pois ele estabeleceu com antecedência alguns caminhos para o personagem.

 

E, brincando, assegura que chegou ao filme não porque o diretor tinha feito 'Tropa de Elite'. “Ah, é ele, então eu não quero.” A brincadeira surgiu justamente porque Joel Kinnaman havia dito que aceitou o convite por saber quem era Padilha. Keaton volta a falar sério, mas nem tanto, afirmando que sabia que 'Robocop' poderia ser bacana porque tudo o que Padilha faz é incomum. “Se ele fizer 'Débi&Lóide' ele vai achar alguma coisa interessante na estupidez.”

 

Depois se derrama diante das perguntas que os jornalistas brasileiros lhe fizeram. “Não estou fazendo elogios fáceis; eu poderia ter acrescentado muitas coisas ao meu personagem depois das entrevistas, assim como acho que 'Batman Returns' (1992) não era tão profundo quanto o 'Robocop' de Padilha.”

 

Para Joel, Padilha é um dos mais interessantes diretores do mundo e lembra que viu 'Ônibus 174' (2002) e os dois 'Tropa de Elite' no cinema, na Suécia — onde nasceu. “E gosto muito do conteúdo social do filme; para mim, foi uma honra saber que ele me conhecia.” Padilha devolve os elogios. “Há tempos Hollywood não conhecia um ator tão talentoso na capacidade técnica e artística como Joel.”