Publicado 20 de Fevereiro de 2014 - 17h31

Por Marita Siqueira

O jovem ator Sérgio Marone durante entrevista à reportagem da RAC

Leandro Ferreira/AAN

O jovem ator Sérgio Marone durante entrevista à reportagem da RAC

O ator Sérgio Marone estreou, no primeiro final de semana de fevereiro, no Teatro Amil, em Campinas, a peça 'Eu Te Amo'. Algo comum na vida de qualquer ator, se não fosse o desafio de assumir o papel que já foi de André Gonçalves e Alexandre Borges na adaptação para os palcos de Arnaldo Jabor de seu filme homônimo. O longa foi lançado em 1981, com Sônia Braga e Paulo César Pereio nos papéis principais. A transposição para o teatro implica numa nova dinâmica de comédia romântica que marca a primeira experiência do paulistano Marone dividindo a cena com apenas uma pessoa, no caso a atriz Juliana Martins, também diretora do espetáculo. “Quando se tem apenas dois atores, a entrega, a cumplicidade e a parceria têm que ser muito maior. É um desafio interessante”, disse ele em entrevista ao Caderno C no camarim do teatro.

 

No bate-papo, o ator disse que, aos 33 anos, é um homem mais caseiro, não “faz mais grandes baladas” e busca refúgio na casa dos pais em São Roque, região montanhosa nos arredores de São Paulo. Na TV, Marone estreou na novela 'Estrela Guia', em 2001, que serviu de trampolim para o horário nobre, em 'O Clone', no ano seguinte. Foram vários trabalhos na TV Globo e, paralelamente, no teatro. Agora, ele se aventura no cinema e busca por trabalhos em meios independentes.

Caderno C — O convite para fazer 'Eu Te Amo' partiu da Juliana Martins?

 

Sérgio Marone — Isso. Nos conhecemos em uma viagem para Nova York, pela (revista) Caras, e conversamos sobre teatro. Comentei que queria voltar aos palcos, porque estava sem fazer teatro há um ano, a última peça havia sido 'Escravas do Amor', de Nelson Rodrigues, que até esteve em Campinas, onde foi muito bem. Quando voltamos para o Brasil ela me procurou, dizendo que queria remontar 'Eu Te Amo' e perguntou se eu toparia fazer. Topei na hora. Conhecia e gosto muito do filme.

Ela está com essa peça desde 2010 e você entrou agora. Como foi o entrosamento?

Interessante que muda demais, como se fosse um novo espetáculo. Com o Alexandre (Borges), ele era o cara mais velho e ela a garotona. Agora, eu sou mais jovem do que ela, então a peça mudou bastante por isso.

Inclusive no roteiro?

 

Não. Mas houve adequação no roteiro, uma coisinha ou outra apenas. Antes, por exemplo, o cara chamava ela de garota e agora ela que me chama de garotão. Mas mudou o jeito dela fazer a peça. Mudam as intenções, o que tornou o processo interessante, inclusive para ela.

O fato de você pegar um personagem que foi consolidado na pele de outros atores, André Gonçalves e Alexandre Borges no caso, aumenta o desafio?

 

Eu não penso muito nisso. Acho que cada um tem uma personalidade diferente. O meu Paulo é completamente diferente do que o que André e Alexandre fizeram. Você aproveita algumas coisas que foram descobertas por eles, sem dúvida, mas descobri muitas outras coisas novas também. Admiro muito os dois, mas não tenho essa cobrança por estar substituindo-os. Minha cobrança é de fazer um bom trabalho para o público que vem assistir.

Para construir o Paulo, você buscou inspiração também no filme?

São personagens totalmente diferentes. Pereio foi quem fez o filme, ele é mais velho, mais louco, eu diria. Aqui a gente está fazendo um cara desiludido, com uma grande ressaca, mas que tem menos experiência do que o personagem do filme. Usei muito pouco como referência. Tem uma diferença importante. Acho que no teatro a gente valoriza mais o humor do que no filme, para deixar tudo mais leve, porém sem deixar de discutir o tema.

Qual a dificuldade de trabalhar uma obra de Arnaldo Jabor?

O texto do Jabor é muito bom, daqueles que “cabem na boca”. Você não precisa mexer no texto. Então, eu diria que não tem dificuldade exatamente. A maior, talvez, seja as nuances. Ele varia muito. O Paulo tem delírios, às vezes, fala coisas que fazem total sentido e, em outras, coisas que não têm o menor sentido. De vez em quando, ele tem rompantes de genialidade. Desenhar essas nuances é o mais difícil do texto do Jabor.

Seus estudos são em teatro, porém você começou a carreira na TV. Como foi esse trajeto?

 

Enquanto eu estudava teatro, fazia alguns trabalhos de modelo para pagar o curso e, paralelamente, fui fazer faculdade de Direito porque meu pai queria (ele cursou um ano e meio). E como modelo eu fazia muito teste para televisão. Em um deles eu passei no papel para 'Estrela Guia' (TV Globo, em 2001). Foi um personagem misterioso, interessante, e foi acontecendo. Daí, minha estreia oficial no teatro foi em 'O Santo Parto' (2004), que fiz logo depois de 'Malhação', e foi superindicado ao (Prêmio) Shell (recebeu cinco indicações). Agradeço muito ao universo porque as coisas para mim foram acontecendo na medida certa, talvez em sentidos inversos, mas muito bons.

Em 'Malhação' você se tornou um galã da telenovela, figura que foi quebrada imediatamente depois com 'Santo Parto'. Você sentiu necessidade de fazer essa quebra?

 

Não, não senti necessidade. As coisas foram simplesmente acontecendo, fluindo muito naturalmente. Claro, eu prospecto, mas eu nunca tinha pensado em fazer uma peça polêmica como era o 'Santo Parto' (nessa peça, Marone beija o ator Roberto Bomtempo).

Estudar teatro, como fez no Tapa e no Macunaíma, é essencial?

Eu não cheguei a me formar no Tapa. Fiz um ano e meio, surgiram as primeiras oportunidades de trabalho e eu tive de mudar para o Rio. Assim, minha escola acabou sendo mais pela experiência e pela convivência com os grandes atores com quem trabalhei. Mas, sem dúvida nenhuma colaborou, apesar do pouco tempo. O Tapa tinha aula no palco, então eu me sinto muito à vontade. E onde eu me sinto mais à vontade porque existe o domínio total do espaço, do que está fazendo, para onde o público vai olhar. 

Embora não tenha se formado, tem o hábito de ler, estudar sobre a arte?

Sim. Tenho lido mais coisas sobre cinema.

Cinema está entre suas pretensões?

Gosto muito. Tenho dois filmes que ainda não foram lançados. No final do ano retrasado filmamos em São Paulo 'Bala sem Homem', do diretor Felipe Canho, no qual somos protagonistas eu, Paola Oliveira e o Leopoldo Pacheco. E, mais recentemente, fiz um filme em Recife, que foi uma experiência sensacional. Um filme de baixo orçamento, o segundo longa do diretor Daniel Aragão, que está muito bem no circuito de festivais independentes. Esse longa chama-se 'Prometo um Dia Deixar Essa Cidade', protagonizado pela Bianca Joy; o Zé Carlos Carvalho faz o pai dela. Eu trabalho para ele e sou namorado dela. A história é ótima.

Dá para contar um pouco da história?

É uma história sobre uma menina que está saindo de uma clínica de reabilitação porque tem problema de dependência química e o pai dela é um político em plena plenária para ver quem vai concorrer à Prefeitura de Recife. Discute-se o quanto isso vai interferir na vida, na carreira dele. Meu personagem também funciona como um “joguete” de manipulação dela. Acabamos de filmar em 20 de dezembro, mas o Daniel é bem rápido. Deve ir para os festivais e quando estrear é aquela coisa, cinema autoral sem muito dinheiro para divulgação, deve ficar, infelizmente, duas ou três semanas em cartaz. Mas eu tenho certeza de que vai dar o que falar nos festivais independentes.

 

Fazer um filme independente, de baixo orçamento, dá uma sensação diferente?

 

Dá, mas não por ter pouco dinheiro, porque as pessoas só toparam por gostarem do projeto e estarem envolvidas com a história. Então, você faz aquilo com muito mais tesão, independente de ter muito ou pouco dinheiro. Claro que se tivesse muito, teria provavelmente gente lá sem acreditar tanto no projeto. Talvez a resposta para a sua pergunta seja sim. Dá uma sensação diferente.

Para finalizar, gostaria de saber um pouco sobre sua participação em 'As Canalhas' (seriado do GNT).

 

Foi maravilhoso, infelizmente é só um episódio. A protagonista é uma menina de 18 anos chamada Isabella Santoni, linda, supertalentosa, e a Malu Vale faz o papel da mãe dela. Meu personagem namora o da Malu, eles se conhecem na academia, e ela é a “canalhazinha”. Sou um personal trainer super do bem, que ama a personagem da Malu, e ela fica me seduzindo até que consegue separar os dois. O final é surpreendente. Esse eu não posso falar. Acho que vai ao ar entre março e abril. Fiquei muito feliz quando pintou o convite também por ter a oportunidade de trabalhar com o (diretor) Vicente Amorim, que eu admiro demais.

Escrito por:

Marita Siqueira