Publicado 21 de Fevereiro de 2014 - 5h00

Gaudêncio Torquato

Cedoc

Gaudêncio Torquato

Literalmente. Na Venezuela, Diosdado Cabello, presidente do Parlamento, rival do presidente Nicolás Maduro, estreou programa semanal de TV exibindo um porrete com pregos para “golpear os discursos dos opositores”.

 

Mas o porrete não é arma exclusiva da Venezuela. Circula bastante por estas plagas. Sua multiplicação pelas ruas das grandes cidades não se deve à afinidade do Brasil com o regime implantado por Hugo Chávez. É fruto do nosso baixo produto nacional bruto de felicidade.

 

Por aqui, as porretadas começam nos vãos da política. Coisa natural em ano de eleições. O presidente do PT, Rui Falcão, golpeia os opositores atribuindo-lhes a pecha de representantes do “neopassadismo” (Aécio Neves, do PSDB) e “neovelhismo” (Eduardo Campos, do PSB), em capciosa referência aos avôs dos dois pré-candidatos, Tancredo Neves e Miguel Arraes. Estocadas à parte, e até reconhecendo que a expressão tende a subir o tom por conta da emblemática campanha, o fato é que o clima social é turvo: as tensões se acirram, a insegurança se expande, a desordem ocupa as ruas, as milícias mostram-se despreparadas, os atores políticos encolhem o discurso e o sinal amarelo aparece no farol da economia.

 

A imagem de um país na corda bamba emerge com força. De um lado, um Estado que realiza uma das mais extraordinárias experiências contemporâneas na frente da distribuição de renda; de outro, um território com visível desequilíbrio na área de serviços públicos essenciais. Esse Estado preparou a infraestrutura para receber o novo contingente de classe média?

 

O porrete está banalizado. E baixa pesado sobre as turbas. Nunca bateu tanto no jornalismo, no qual estão os olhos, os ouvidos e as bocas das democracias. Os dados são assustadores: 118 jornalistas foram agredidos desde junho, 75% dos quais, segundo levantamento da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo, vítimas dos porretes da Polícia Militar. Incêndio de ônibus virou rotina. O porrete informal açoita os costados do poder formal do Estado.

 

Os bastões dos vândalos também estão no ar. Pergunta-se: o que se fez ou se fará para evitar o vandalismo? As providências são despejadas nos tonéis de promessas e vãs palavras. As autoridades não veem que a primeira pedrinha do dominó rolou e as outras caem em sequência. A primeira é a da credibilidade dos governantes e, por consequência, de toda a esfera política.

 

Os atos de desrespeito, deboche, humilhação espalham-se nas cercanias do império da desordem e da anomia que se alastram no país. Nossa vista já alcança a efervescência a ser causada pela Copa do Mundo. Mas não dá para ver se faltarão água e luz nas cidades e nos estádios. Ou se o acesso às arenas esportivas será fácil e tranquilo. A confiar nas autoridades, tudo correrá às mil maravilhas. Com porretes contidos, claro. Sem quebra-quebra. E aplaudindo o equilibrista, vendo-o chegar ao outro lado da corda esticada a mil metros de altura. Leitor, acredite se quiser.