Publicado 21 de Fevereiro de 2014 - 16h45

RUBEM COSTA

Cedoc/ RAC

RUBEM COSTA

No tempo em que era novidade, Herbie, o carrinho atrevido, ficou famoso quando apareceu no cinema como galã de uma comédia — Se Meu Fusca Falasse — que traduzia, então, a história dos desprezados pelas celebridades que povoam o mundo com a glória de cargos transitórios ou posições eventuais. A par dessa caminhada contra a insensatez, inspirou-se de novo o cinema na mesma indigência do comportamento humano, para realizar o filme impagável que consagrou Macaulay Culkin: Esqueceram de Mim. Uma alegoria que, reproduzindo a máxima — ridendo castigat more — satiriza o homem que não se comove com as coisas graves da vida e se perde na inconsciência de seus atos.

 

Estas lembranças cênicas me ocorreram, tempos atrás, no dia em que a imprensa divulgou a relação dos 21 locais finalistas para escolha das sete maravilhas de Campinas. Fiquei triste, lamentando uma deplorável omissão. E aborrecido, assaltou-me a ideia de que, se o prédio da Academia Campinense de Letras também falasse, ao ver-se olvidado no rol das coisas belas da cidade, haveria de — encarnando a personagem de Kevin McCallistar — gritar a todo pulmão: “Esqueceram de mim!”. Um protesto de direito.

 

Um ato que até merecia ser jurídico e formalmente praticado por oficial público que no seu pregão anunciaria o edifício como réplica de um monumento histórico que documenta a evolução do pensamento ocidental desde o instante em que, 600 anos antes de Jesus Cristo, Heráclidas, general de Esparta, depois de se apoderar do Peloponeso, em agradecimento ao sucesso, mandou erigir o primeiro templo para veneração dos deuses. Um paradoxo da história, é verdade, mas uma afirmação de fatos idos e vividos, como diria Machado de Assis.

 

Um contraponto, porque foram os espartanos que inventaram o magnífico estilo arquitetônico conhecido pelo nome de ordem dórica. Denominação retirada da área geográfica daquela gente belicosa, a Dória. Assim, mesmo fiel aos ditames das leis severas impostas por Lycurgo, o reformador, Esparta promoveu a criação arquitetônica mais antiga da gente helênica. Manifestação robusta e singela, porém detentora em alto grau de nobreza e majestade, que resultou da crença do guerreiro no poder das divindades.

 

 

É nesse passo, na reprodução do primeiro cenáculo, que começa a importância histórica do edifício da Academia Campinense. Nele se reflete, na austeridade das formas e na sobriedade das linhas, a imagem antiga de uma concepção perene. Exterior e interior ali foram avaliados para retrato perfeito, até na planta baixa, dos fundamentos daquele sacrário do ocidente idealizado para a contemplação dos deuses. Altar erguido sem imitação, cópia ou submissão, porque essa era a norma do orgulho dos espartanos.

 

Assim, os templos gregos diferenciaram-se intencionalmente dos egípcios mais antigos a começar da disposição das colunatas. Enquanto no Vale do Nilo eram erguidas no interior do edifício, na Grécia desenvolviam-se exteriormente às paredes de frente, numa afirmação ostensiva do poderio dórico. Em consequência (basta olhar o prédio atual da Academia), as colunas de sustentação na parte externa apresentavam-se robustas, sulcadas de caneluras como concessão apenas para lhes aligeirar a forma.

 

Não possuindo base, assentavam diretamente sobre o pavimento alteado do solo por alguns degraus, numa imitação dos primitivos troncos de árvores que tinham servido de suporte a cabanas rudes. Na parte alta dessas colunas (vislumbrem de novo o prédio), aparecem, já nas descrições mais antigas, capitéis de sóbria moldura suportando o entablamento, região superior da cobertura.

 

Lintéis monolíticos ligavam os capitéis, onde se apoiavam as vigas do teto, sulcadas de ranhuras verticais chamadas tríglifos. Superior a esta parte do entablamento, salientava-se a cornija destinada a preservar o espaço entre as colunas nas intempéries. Na fachada (vale a pena olhar, mais uma vez, a sede do sodalício), sobrepondo-se à cornija, uma grande área em forma de triângulo isóscele de pouca altura, mascarando as linhas do telhado com as molduras da mesma cornija, representa o tímpano ou frontão, cujo espaço interior se destinava à decoração escultural.

 

No interior, após as colunas, existia a “cela” ou santuário, onde ficava a estátua da divindade protetora. Logo em seguida, vinha o vestíbulo (que na Academia corresponde ao hall, onde se situa a Galeria de Artes) chamado “pronaus”, destinado aos sacrifícios. Dali se passava para a “naos”, lugar das orações, que no sodalício constitui, atualmente, o salão nobre.

 

Conforme estudos antigos, contavam-se em Esparta 54 templos dóricos que não mais existem, subsistindo apenas alguns em péssimo estado de conservação nas antigas colônias gregas, mas que continuam sendo estudados por arquitetos e historiadores ocupados a desvendar a crônica de um universo que já não é. De qualquer forma, a Academia Campinense de Letras aí está com seu prédio para selar o passado.

 

Uma construção que, silenciosamente, testemunha em suas linhas arquitetônicas, a origem mística da cultura ocidental. Um monumento que fala a cada instante da contribuição que Esparta foi capaz de oferecer ao esplendor da arte que, ainda hoje, acalenta o mundo.

 

Parodiando, vale dizer que a sede da ACL é — a seu modo — um monumento que lembra o apoio que, há quase 60 anos, o sodalício vem prestando à cultura na cidade, particularmente nesta primeira década de século, quando abriu suas portas para abrigar entidades assemelhadas destituídas de sede. Institutos que se identificam, presentemente, com o inexcedível trabalho de divulgação desenvolvido por Agostinho Toffoli Tavolaro desde sua posse no comando do silogeu.Graças ao seu programa de valorização da cultura, a ACL ganhou dimensão nacional.

 

 

Como evidência da conquista, basta consultar o rol de intelectuais convidados a participar dos eventos mensais: Arnaldo Niskier (ABL), Laurentino Gomes, Hernani Donato, Ruy Martins Altenfelder, Des. José Renato Nalin, Paulo Nathanael Pereira de Souza, Douglas Michalany, Ives Gandra Martins e Paulo Sérgio Rouanet, entre outros grandes nomes.

 

Para culminar. Tivemos, ainda, a presença recente de Michel Temer, vice-presidente da República, que veio a Campinas para, com o brilho de sua palestra, dar titularidade nacional à Academia Campinense de Letras.