Publicado 23 de Fevereiro de 2014 - 5h08

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AAN

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A esfera é o sólido perfeito. É o único que a natureza faz natural e perfeitamente com a ajuda de uma criança que sopra bolhas de sabão... Não sei de nenhum poeta que tenha escrito um poema dedicado ao cubo ou ao cone. Mas sei de filósofos e poetas que escreveram sobre essas esferas diáfanas e transparentes. Vejam a sensibilidade de Nietzsche: “Quanto a mim, gosto da vida: borboletas e bolhas de sabão e todas as coisas que, entre os homens, se assemelhem a elas, parecem conhecer mais sobre a felicidade. Vendo flutuar essas almas leves, tolas, moveis, pequenas – isso seduz Zaratustra a lágrimas e canções”. E Alberto Caeiro: “As bolas de sabão que esta criança se entretém a largar de uma palhinha são translucidamente toda uma filosofia...”

A esfera foi objeto de espanto filosófico. Pensavam os primeiros filósofos que o universo é formado por esferas de cristal concêntricas girantes onde estão as estrelas. Deus é um geômetra. Como poderia ter ele criado o universo a não ser a partir da figura geométrica perfeita? O espantoso é que essas esferas, no seu giro, produzem música... Se o universo tivesse sido construído à semelhança do cubo ele seria cheio de planos, linhas retas e ângulos. Na esfera não há ângulos. E a expressão musical dessa perfeição é o canto gregoriano onde os encadeamentos estão todos em equilíbrio.

A se acreditar no místico Jacob Boehme, que dizia que a única coisa que Deus faz é brincar, compreende-se que a esfera, objeto geométrico perfeito, seja o que mais se presta a ser transformado em brinquedo. Bolhas de sabão, bolas de gude, de boliche, de bocha, bilhar, sinuca, basquete, bexigas coloridas, vôlei, beisebol, futebol... Lembrei-me de uma tela em que o Menino Jesus, no colo de sua mãe, tem nas mãos uma esfera: o Deus-criança brinca com o mundo! Que jogo ele jogará?

As crianças, em virtude de sua mania de ir andando e chutando o que encontram pelo caminho, logo perceberam que os melhores objetos que se prestam ao chute são os objetos esféricos. É melhor chutar uma laranja que um galho. É melhor brincar de jogar laranjas que brincar de jogar pedras. Depois de grandes as crianças continuaram. E foi assim, sob a inspiração da esfera, que surgiu esse jogo chamado futebol, cerca de 3 mil anos antes de Cristo, na China.

Era um jogo de guerreiros. Na ausência de informações históricas o escritor pode valer-se de sua imaginação para reconstituir o que acontecia. Tratava-se de celebrações religiosas, oferecidas aos deuses pelas vitórias contra os exércitos inimigos. Minha imaginação vê a cena. De um lado, o time dos Tigres. Os nomes tinham de ser ferozes. Do outro, os Águias. O estádio cheio, os torcedores aos gritos como hoje, os reis, os sacerdotes, os militares. Lá estão os jogadores no campo, à espera do início. O juiz faz soar o gongo. Como o apito ainda não havia sido inventado e o gongo sabidamente é um instrumento da China, o juiz, ao invés de ter um apito na boca, tinha um minigongo nas mãos que fazia soar sempre que a ocasião aparecesse. Estabelecia-se um silêncio absoluto. Aí então ele dizia em alta voz: “Boleiro, produza uma bola”. A função de produção de bolas em campo não mais existe posto que as bolas agora são feitas em fábricas. O boleiro se encontrava assentado num banco ao lado de dez homens. Esses homens eram prisioneiros de guerra que seriam homenageados pela sua bravura. Até mesmo os inimigos merecem respeito. O boleiro, que trazia à cintura uma espada reluzente, adiantava-se com um dos prisioneiros, conduzia-o até o meio do campo. Chegado ao meio do campo, o prisioneiro se curvava em ângulo reto e o boleiro, com um golpe perfeito, cortava a sua cabeça que caía no chão. O público explodia em urros. Aí quatro sacerdotes tomavam o corpo sem cabeça e o conduziam a uma pira que ardia e ali o colocavam como holocausto, oferenda aos deuses. Que gloriosa maneira de morrer! Por aquele ato sagrado o prisioneiro era libertado das correntes que o prendiam e transformado num pássaro que ascendia aos céus sob a forma de fumaça. Terminados os preliminares sagrados, iniciava-se o jogo. Chutes para lá, chutes para cá, a cabeça do guerreiro tinha pouca duração. O juiz fazia soar o seu gongo, chamava o boleiro, e tudo se repetia. Os jogos não eram medidos por tempo, posto que os cronômetros ainda não haviam sido inventados. Os jogos eram medidos por número de cabeças a serem cortadas. Enquanto todas as cabeças ao fossem cortadas o jogo não terminava.

Aí veio um tempo de paz. Cessaram as campanhas bélicas. Houve escassez de cabeças. O jogo experimentou um lamentável declínio, com consequências tristes para a alma do povo. A guerra faz bem à alma. A guerra faz emergir os instintos mais fortes que moram nos homens. Um torcedor possuído é um guerreiro! O povo ficou triste. Imaginem essa idéia louca, impossível: que, de repente, por um ato mágico demoníaco, desaparecessem todas as bolas! Desapareceriam também os times de futebol. Desapareceriam os campeonatos. Sobre o que os homens iriam falar? Que paixão os faria vibrar? Durante a semana não haveria o que esperar! Pois não é a espera do próximo jogo que dá sentido à vida? Seria o tédio.

Esgotadas as cabeças decapitadas a solução salvação veio de um menino. Ele estava num matadouro vendo um boi sendo estripado. Notou a sua bexiga, abandonada no chão. Curioso, aproximou-se. Era um bolsa vazia. Ele pegou a bexiga, lavou-a, e encheu-a de ar. Percebeu então que ela era um brinquedo divertido, boa para ser chutada, pulava. E foi assim que o objeto lúdico do jogo foi transferido das cabeças cortadas para a bexiga dos bois, graças a um menino! A bexiga bovina cheia de ar é o ancestral mais antigo da atual bola de futebol. Assim, ao ver a bola rolando no campo, deixe-se levar pela fantasia. O juiz toca o gongo. “Boleiro, produza uma bola...” E assim se inicia o jogo mais apaixonante do mundo!