Publicado 19 de Fevereiro de 2014 - 5h00

O calor implacável, interminável e desaforado que nos fustigou nos últimos dias pelo menos prestou para alguma coisa, além de turbinar as vendas de bebidas, aparelhos de ar-condicionado, ventiladores e sorvetes: quebrar o silêncio constrangido de elevadores, esses espaços de transição onde o tempo parece se alongar mais que o desejável quando estamos na companhia de estranhos.

Nesses cubículos de metal assépticos, de uma impessoalidade reforçada por paredes de aço escovado, lâmpadas fluorescentes e botões luminosos, estranhos se encontram e se separam, e, quando muito, se cumprimentam e se despedem com um aceno minimalista e um resmungo: é o que basta para cumprir a etiqueta social do dia a dia.

Mas no intervalo entre o meneio de cabeça quase imperceptível, quando se entra no elevador, e o muxoxo quase inaudível, quando se sai, há um jogo de cena em que os alguns fingem se perder em suas individualidades. O olhar fixo no painel que indica a progressão da subida ou da descida — ou no teto da qual emana a luz fria que empalidece a todos — parece denunciar um sujeito ensimesmado, absorto em sua agenda mental, quando na verdade ele anseia que a porta abra logo para ele se ver livre da convivência forçada a que os tempos nos obrigaram.

Outros, porém, se mostram generosos e arriscam um comentário breve e impessoal. E é aí que entra o tempo: o sol, a chuva, o frio etc. O tempo é um “assunto-ônibus”, porque é algo que faz parte da experiência de todos, que a todos afeta. Estatisticamente, seria quase nula a chance de encontrar alguém no elevador que sinceramente dissesse: “Desculpe, mas não sei de que calor você está falando”.

Pensei nisso porque, logo pela manhã, antes de começar a escrever esta coluna, fui no banco resolver pendências e me vi só dentro de um elevador com a ascensorista. A primeira coisa que me ocorreu foi perguntar como estava sendo a vida nos últimos dias dentro de um elevador com o sol lá fora rachando o asfalto. O ar-condicionado estava dando conta do recado? Ou o bafo do Verão ingrato também havia se esgueirado para dentro da caixa de metal, derrotando qualquer artifício humano para tornar a existência minimamente suportável?

Em "Oleanna" (1994), filme de David Mamet baseado em sua peça teatral homônima, o professor universitário vivido por William H. Macy é procurado pela aluna Carol (Debra Eisenstadt) em sua sala. Ela se queixa de que não consegue acompanhar as aulas, porque, segundo ela, vem de um estrato social diferente da maioria dos estudantes, fato que a limitaria intelectualmente e que está fazendo com que tire notas baixas. A personagem é visivelmente neurótica e a impressão que se tem é que o professor está dando murro em ponta de faca, tentando argumentar com uma interlocutora que é impermeável a qualquer argumento. Ainda assim, o professor rompe o protocolo e propõe recebê-la em sua sala após as aulas para conversarem sobre assuntos pertinentes à disciplina.

A certa altura, tendo a estudante em estado permanente de estupor à sua frente, o professor discorre sobre as peculiaridades da comunicação humana (algo que ali, naquela sala e com aquela moça, estava em xeque). E usa como exemplo o clima.

“Eu acho que hoje o dia está agradável”, diz ele.

“E qual a importância disso?”, pergunta a aluna, sempre atônita.

“Porque é a essência de toda a comunicação humana. Eu digo algo convencional, você responde, e a informação que trocamos não é sobre o tempo, mas sobre o fato de que concordamos em conversar. Em última instância, concordamos que somos humanos. Que podemos ter nossas opiniões e desejos conflitantes, mas que somos humanos apenas”.

Humanos como eu e a ascensorista que me conduziu de manhã ao terceiro andar do banco onde fui resolver pendências. Me ocorreu, como disse, comentar algo sobre o tempo, mas enquanto o elevador subia mantive-me em silêncio, simulando estar absorto em meus próprios problemas.