Publicado 20 de Fevereiro de 2014 - 16h36

CECILIO

CEDOC

CECILIO

Neste 2014, completo 23 anos de escrevinhações cá no Correio Popular. E isso me espanta. Ou me assusta. Na verdade, assusta e espanta. Especialmente porque, em 1959 — estudando Direito na “faculdade do Monsenhor Salim”, a PUC-Campinas —, consegui ganhar um dinheirinho como revisor lá na antiga redação da Rua Conceição. Era para me manter, estudante pobretão. E nunca me passou pela cabeça vir, um dia, a escrever neste jornal de tão largas tradições.

 

Dei-me conta destes 23 anos — férteis para mim, nem tanto para os leitores — ao sentir uma repentina e agridoce saudade de dona Jandira. Tenho medo de admitir já tenha, ela, morrido. Mas deve ter-se ido, sim. Pois era idosa, de uma sabedoria pacificadora, de uma ternura aconchegante. Dona Jandira morava em Sumaré. (E eu gostaria de dizer que ela ainda mora lá, mas o infinito humano só existe em nossos sonhos e desejos.) O admirável para mim é que nunca a conheci pessoalmente. E, no entanto, eu a tinha como uma protetora, uma juíza, uma conselheira, nos comentários cirúrgicos que ela fazia a meus artigos. Dona Jandira honrava-me em ler tudo o que eu escrevia, desde o meu começo nesta casa.

 

Nem se falava em internet. Sabia-se dela como um mistério inalcançável. Por isso, dona Jandira ou me escrevia cartas, longas cartas, ou me telefonava semanalmente. Para concordar e para discordar, para me contar de seu agrado ou de desagrados. Para mim, a opinião de dona Jandira tornou-se um referencial, um constante alerta de advertência. E, ao escrever, eu me via indagando-me a mim próprio: “Será que dona Jandira vai gostar?” Na realidade, aconteceu de eu escrever meus rabiscos como se fossem apenas para ela.

 

Certa vez, lá estava, eu, em uma difícil e importante reunião no meu jornal, com políticos, autoridades, discutindo um grave problema comunitário. Minha secretária, então, me perguntou se eu podia atender a um telefonema. Pedi-lhe interrompesse as ligações, pois a reunião estava em alta voltagem. Logo em seguida, ela me deu toque, insistindo. Quase me irritei e, então, ele me falou: “A senhora insiste. Diz que é para eu lhe falar que é dona Jandira, de Sumaré, e que o senhor, então, irá atender”.

 

Foi-me impossível não fazê-lo, como se dona Jandira fosse dona de mim. E, ao falar com ela, a doce mulher apenas me disse: “Olha, que pena você não estar vendo! As pitangueiras estão florindo, como é lindo!”. Sorri, ri-me, entre perplexo diante de tanta pureza de alma e emocionado por toda aquela candura.

 

Senti falta quando dona Jandira parou de me telefonar, de escrever-me. E surgiram-me remorsos amargos ao me dar conta de que eu nem sequer tinha o número do telefone dela, nem o seu endereço em Sumaré. E nem sabia o seu nome completo. Dona Jandira desapareceu de minha vida. Teria morrido? Essa dúvida e tais lembranças assaltam-me ainda hoje porque falhei miseravelmente nas promessas que lhe fiz: as de, algum dia, participar de um lanche da tarde em sua casa, onde ela me serviria bolo de fubá com café. “Claro que irei, com o maior prazer. Qualquer dia desses...” Nunca fui.

 

E, nestes meus 23 anos de Correio, lembro-me de tantos outros leitores generosos dos quais nunca mais ouvi falar. E fico ansioso por saber se aquele garoto — de apenas 14 anos — que me pedia para lhe ensinar a ser poeta conseguiu escrever a sua tão almejada poesia. Eu o atendia com o coração leve de alegria, comovido pela ansiedade literária dele. Recordo-me de ter-lhe sugerido um pequenino e precioso livro de Rilke, Carta a um Jovem Poeta. Pois eu não tinha como aconselhá-lo, repetindo-lhe, no entanto, o que Rilke já advertira: “Mas nunca escreva cartas de amor...” Ora, tolice de Rilke, tolice minha. Escrever cartas de amor são momentos sublimes da alma. Mesmo que, depois, o amor acabe.

 

Dona Jandira permanece-me nas lembranças. E a curiosidade quanto ao garoto, também. Tomara tenha, ele, conseguido escrever sua poesia.. Eu gostaria de lê-la. Pois, até hoje, não consegui escrever a minha.