Publicado 03 de Março de 2014 - 5h00

antonio contente

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antonio contente

Eu estava no barzinho de fim de tarde, sozinho, tomando uma breja, espiritual e sentida, quando ele chegou, sentou, e, olhando nos meus óculos, disse: — Ela está viva.

 

— Bom — respondi — a vida deve ser sempre festejada. Mas você se refere a quem? Quem está viva?

 

Ele estala os dedos para o garçon. Antes de fazer o pedido, cicia um “a mulher que eu mais amei na vida”.

 

Daí, com o dourado uísque já diluindo com as pedras de gelo no copo, seguiu dizendo que há alguns anos recebera informações que a antiga namorada dos tempos da juventude morrera. Mas que há dias, encontrando um amigo comum no Largo do Rosário, este perguntou se ele sabia quem tinha visto na véspera. Respondeu que não, mas logo ficou lívido ao ouvir o nome. E, ampliando a surpresa, foi informado que ela morava meio reclusa, mas saudabilíssima, em condomínio numa das simpáticas cidadezinhas que emprestam certo charme à RMC.

Passando a ponta do dedo indicador no suor do meu copo, perguntei que importância, afinal, poderia ter o fato de saber que criatura tão especial para ele, mas do passado remoto, continuava neste mundo.

 

O amigo dá um gole na bebida, estala a língua e diz que era uma história que poderia inspirar belo conto. Respondi que o dia a dia está crivado de casos assim; ele, todavia, garantiu que o seu era especial. Acende um cigarro; fala, a soltar fumaça pelas narinas e pela boca: — Quando eu a conheci, trafegávamos pela mais ampla e total juventude, esse troço breve que a todos acomete...

 

Daí seguiu afirmando que houve denso entrosamento entre ambos, começando a rolar um desses namoros que transcendem qualquer dimensão de aprisioná-lo em explicações corriqueiras. Detalhou que durante um ano, com ele morando na Capital, a história rolou com lances de luzes e melodias; como, aliás, rolavam os namoros dos velhos tempos.

 

Mas um dia — ele prosseguiu — precisou mudar para o Paraná, onde aparecera chance de trabalho para quem acabara de se posicionar no mercado e queria casar. As visitas, assim, se espaçaram; de repente, ele percebe que a menina parecia meio arredia. Até que explodiu a tragédia: ela, simplesmente, se apaixonara por outro e, em carta, curta e incisiva, informava, peremptória, que não queria mais vê-lo. O coitado quase morre.

 

A ouvir a história ali no bar eu ainda não detectara nada que tornasse o caso realmente empolgante. Até que o amigo me aperta o braço: — Mas agora que eu soube que ela está inteira, saudável, e morando aqui perto, me deu, de repente, baita vontade de revê-la.

 

Como disse isso voltando a olhar nos meus óculos, suspirei: — Bom, com você bem entrado em anos, ela certamente não regrediu no tempo; assim, bem entrada em anos a antiga beldade também deve estar, apesar da boa saúde, certo? Seria, nessas condições, um encontro meio estranho, meio exótico, meio heterodoxo, não acha?

 

— Pode ser — ele concordou — mas eu queria dizer a ela apenas um troço.

 

— Santo Deus — meu caro — o que será que você poderia dizer, mais de 50 anos depois, para o grande amor da tua vida que te deu um baita chute no traseiro?

 

— Pois aí é que está — ele sorriu –—há certas coisas que de repente emergem no coração da gente. E isso emergiu quando soube que a menina do passado, que eu julgava morta, está vivíssima.

 

— Muito bem — acabo por conceder — e o que você gostaria de dizer a ela?

Primeiro ele perde o olhar sobre as árvores do Centro de Convivência, molhadas pela benfazeja chuvinha que caía. Depois informa que o que agitou seu espírito para falar algo à moça do passado, vinha embutido num antigo poema de Ernesto Cardenal, que relera depois de saber que a guria do passado não morrera. Claro que eu não poderia deixar de pedir que recitasse a estrofe que fizera renascer tantas coisas dentro dele. Pensou um pouco; e declamou o “Ao Perder-te”, do poeta nicaraguense: ... “Porém de nós dois / Tu perdes mais do que eu:/ Porque eu poderei amar a outras/ Como te amava a ti/ Mas a ti não amarão/ Como te amava eu”...

 

Pensei um pouco, depois fiz a pergunta inevitável: — Belíssimo. E ela, plena de saúde como está, vai adorar e entender, não é?

 

Primeiro ele pensou, a dar longo gole no uísque; para só então garantir, baixando o copo: — Eu acho que não...