Publicado 19 de Fevereiro de 2014 - 19h39

Por Maria Teresa Costa

Irrigação por aspersão desperdiça água e agrava a crise de abastecimento na região de Campinas

Janaína Ribeiro/AAN

Irrigação por aspersão desperdiça água e agrava a crise de abastecimento na região de Campinas

O uso de água para irrigação está provocando quedas abruptas na vazão dos rios das Bacias Piracicaba-Campinas-Jundiaí (PCJ), principalmente no Rio Atibaia, onde a demanda para a atividade é de 1,05 m3/s, e representa 16% da água captada. Nesta quarta-feira (19), o rio começou o dia com uma vazão de 10,48 m3/s, caiu para 9,38 m3/s às 7h10, chegou a 7,84 m3/s às 11h10 e a partir das 12h, manteve média de 8,5 m3/s.

 

A Sociedade de Abastecimento de Água e Saneamento (Sanasa) está acompanhando a situação, pediu mais rigor na fiscalização ao Departamento de Água e Energia Elétrica (Daee) e decidiu levar a preocupação aos Comitês de Bacias PCJ, para a definição de uma política de irrigação não só para a região, mas para o Estado.

 

Desperdícios

 

A agricultura, disse o consultor da Sanasa, Paulo Tinel, é essencial, mas não é possível mais aceitar a utilização de técnicas de irrigação que significam grandes desperdícios de água. "Em períodos de rios cheios, as oscilações de vazão não causam problemas, mas em épocas de estiagem, como a que ocorre agora, qualquer perda de água pode ser fatal na garantia do abastecimento público" , disse.

 

Ele afirmou a empresários reunidos no Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp-Campinas) que se a região quiser garantia de água, terá que mudar conceitos, mudar a política de irrigação e de uso da água. Tinel disse que esta semana, com técnicos da Sanasa, fez um sobrevoo na sub-bacia do Atibaia, e viu muitas lagoas de recreação em chácaras. "Isso é água que sai do rio e interfere na vazão. Temos que ter mais rigor na lei de uso e ocupação do solo nas Bacias PCJ", afirmou

 

Área irrigada

 

A área irrigada em Campinas, segundo levantamento relatório de situação de 2008, era de 1,9 mil hectares , com uma demanda por água de 0,55 m3/s. Estimativa dos Comitês PCJ indicam um aumento de área irrigada em Campinas - hoje, seriam 2 mil hectares. No conjunto dessas três bacias (Piracicaba, Capivari e Jundiaí), estima-se que a demanda total de irrigação seja, atualmente, cerca de 6,70 m³/s

 

O prefeito Jonas Donizette (PSB) disse que pediu atenção da Sanasa para esse setor e defendeu o estímulo à irrigação pela técnica de gotejamento - um duto passa ao longo das raízes das plantas, pingando apenas a água necessária.

Segundo o agrônomo Douglas Figueiredo, o gotejamento,além de mais eficiente, não provoca desperdício, porque o sistema evita evaporação e vazamentos.

 

Melhorar a eficiência

 

"Esse tipo irrigação provê para as raízes de cada planta a quantidade exata de água", disse. Para enfrentar o desperdício, afirmou, é necessário ampliar a eficiência da irrigação. Em geral, os agricultores promovem a inundação de seus campos ou constroem canais de água paralelos aos canteiros. No Brasil, são comuns os sistemas de aspersão. Entre eles, está o de pivô central, com uma haste aspersora que gira em torno de um eixo, molhando uma grande área circular. Em todos esses casos, as plantas só recebem uma parte pequena da água. O resto evapora ou e corre para corpos d'água próximos. Muitas vezes, isso acaba promovendo erosão, salinização da água ou sua contaminação com agroquímicos.

 

Segundo levantamentos do Ministério da Agricultura, o gotejamento permite reduzir em até 50% a água necessária. Produzir tomates, por exemplo, com os sistemas de irrigação tradicionais exige 40% mais água que nos sistemas de gotejamento. A Agência Nacional de Águas (ANA) estima que o Brasil gasta 81% de sua água na produção agrícola e pecuária.

 

Nova baixa

As represas do Sistema Cantareira que enviam água para a região de Campinas (represas Jaguari/Jacareí, Atibainha e Cachoeira) baixaram mais nesta quarta-feira e chegaram operar com 17,93% da capacidade contra 18,15% na terça-feira, volume que aumenta a preocupação com o abastecimento da região de Campinas. Nesse ritmo, segundo análise do comitê anticrise instituído no início de fevereiro pelos governos federal e estadual, o uso do chamado volume morto dos reservatórios será necessário já em agosto.

 

Esse volume está nos reservatórios, abaixo da entrada dos túneis que interligam as represas e não é captado atualmente. O uso será possível com bombeamento. O comitê fez três cenários, estimando resultados se os reservatórios chegarem em 1 de março com 16,4% do volume útil. No primeiro cenário, se entrar no sistema o volume médio registrado no período 1953-2013 e mantidas as saídas com vazões primárias de março a dezembro deste ano, o Cantareira chega a novembro com 17% da capacidade.

 

Redução abrupta

 

Se a entrada de água for de 80%, os reservatórios chegarão a dezembro com 5% e se a entradas médias mensais forem do pior ano do histórico (1930- 2013) referente ao ano de 1953, o volume morto terá que ser usado em agosto.

 

A entrada de água no sistema teve uma queda abrupta de 21,7 m3/s para 6,9 m3/s. "Estamos trabalhando no limite e só uma chuva de quantidade irá salvar essa crise hídrica que estamos vivendo", disse o gerente do Consórcio PCJ, Alexandre Vilella.

O sistema está liberando 4 m3/s de água para a região, descarregados nos rios Jaguari (1 m3/s) e Atibaia (3 m3/s). A perspectiva de chuva até 23 de fevereiro, segundo boletim diário da sala de situação dos Comitês PCJ é de acumulados de 10 a 50 mm nas Bacias PCJ. Para dar resultado na elevação do nível dos rios, essa chuva tem que cair nas represas do Cantareira, nos afluentes e nas calhas dos principais rios.

Escrito por:

Maria Teresa Costa