Publicado 19 de Fevereiro de 2014 - 12h03

Por Rogério Verzignasse

Usuário de drogas em área com acúmulo de lixo no meio do matagal

Carlos Sousa Ramos/AAN

Usuário de drogas em área com acúmulo de lixo no meio do matagal

O Ministério Público deve se manifestar ainda nesta semana sobre o polêmico rompimento de contrato de adoção de áreas verdes marginais ao córrego que atravessa o Parque Via Norte, em Campinas. O caso, sob análise do promotor Valcir Paulo Kobori — da 9ª Promotoria de Justiça e Urbanismo — opõe Prefeitura e ambientalistas, e interessa diretamente à população, que convive com a degradação da área.

 

População faz trajeto ao lado do espaço onde, além de entulho, também circulam usuários de drogas: medo

A manutenção das chamadas “praças” foi feita, durante oito anos, por moradores do bairro, reunidos pela associação ambientalista Semente Viva. Mas o acordo foi rompido pela Administração municipal, que alegou, no começo do governo atual, que a entidade não cumpria obrigações previstas no documento. O drama é que o poder público não conseguiu outro parceiro, e não assume serviços importantes. O que se vê é que o patrimônio ambiental se transformou em um gigantesco depósito de lixo. O matagal e a erosão tomam a paisagem. Consumidores de drogas passam o dia espalhados por valetas e tubulações. Nenhum morador passeia por um trecho que podia ser um belíssimo parque.

A entidade nunca aceitou o rompimento do contrato. A ambientalista Sheila Rodrigues alega que o Termo Formulário para Adoção de Praças, assinado em agosto do ano passado pelo então prefeito Pedro Serafim (PDT), previa que o Semente Viva ainda fosse responsável pela manutenção de quatro das praças que, ao longo de décadas, resistiram ao desmatamento e a ocupação ilegal. O texto diz que o Semente Viva teria 60 meses, a partir da data, para fazer intervenções para a recuperação ambiental. Quatro meses depois, o documento foi suspenso.

“A Administração criticou a eficiência do nosso trabalho. Mas hoje a situação é muito pior”, disse Sheila. Ela diz ter denunciado em outubro que tratores do poder público abriram um caminho até o córrego, derrubando dezenas de árvores que a ONG cultivou. Foram despejados terra e entulho na degradada Praça 11, fazendo o córrego sumir sob as pedras. O serviço — que na época foi anunciado como o reafeiçoamento de margens ameaçadas por erosão e assoreamento — foi suspenso. A reportagem passou anteontem pelo mesmo ponto, e encontrou tudo do mesmo jeito.

Cracolândia

No trecho da área verde próximo à Via Anhanguera, as galerias do córrego se transformam em reduto para dezenas de usuários de drogas. As roupas velhas e marmitas abertas se espalham pelo chão e os jovens perambulam pela trilha próxima o dia todo, desorientados. Moradores, que passam pela estrada de terra para ir de um ponto a outro do bairro, procuram se afastar de galeria, caminhando em silêncio, apressados, com medo de agressões ou abordagem.

Projeto

A Secretaria Municipal de Serviços Públicos informou ontem, por meio da assessoria de imprensa, que o reafeiçoamento do talude marginal ao córrego, na Praça 11, será retomado dentro de 15 dias pelos servidores da Administração Regional 11. As equipes só aguardavam a conclusão do projeto técnico que define a recuperação dos taludes, assinado pela engenheira Márcia Calamari, da mesma secretaria.

A Prefeitura admite a presença de consumidores de drogas nas galerias do córrego, e informou que um ofício enviado esta semana a organismos competentes pede a remoção dos jovens e o encaminhamento deles para serviços assistenciais. Homens da Guarda Municipal vão acompanhar a abordagem.

Mas o poder público pretende manter a Semente Viva afastada dos serviços. O secretário de Serviços Públicos, Ernesto Dimas Paulella, informou à reportagem, ainda em outubro, que a inoperância do instituto foi comprovada por relatórios técnicos da própria Defesa Civil, que sugeriu intervenções emergenciais na gleba.

 

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Rogério Verzignasse