Publicado 17 de Fevereiro de 2014 - 13h05

Anatilde Hirayama: água que lava o arroz vai para os vasos

Leandro Ferreira/AAN

Anatilde Hirayama: água que lava o arroz vai para os vasos

Diante de uma situação iminente de racionamento de água, a população de Campinas está fazendo muito além do básico para economizar. Assustadas com a pior seca dos últimos 25 anos, famílias usam criatividade para contribuir com o meio ambiente e livrar o município do risco de ficar sem água em pleno Verão. As multas pesadas que a Prefeitura começou a aplicar também incentivam: o cenário alarmante levou Administração a antecipar a Operação Estiagem no começo da semana passada, que prevê autuação por desperdício de três vezes o valor da conta de água.

A economia sempre esteve presente na rotina da professora universitária aposentada Maria do Carmo Alberto Rincon, de 60 anos, mas as imagens do Rio Atibaia seco a levaram a tomar medidas ainda mais radicais. Os corredores do quintal e a calçada de sua casa são lavados apenas quando chove, com a água da precipitação. Seu banho, segundo ela, não dura mais de quatro minutos e o mesmo tempo é exigido para a família. O registro é fechado na hora de ensaboar. “A conta de tudo o que é gasto a mais pela população, acaba sendo repartida por todos com o aumento da tarifa. Por isso, é dever de todo campineiro economizar. E, principalmente, o Atibaia agradece”, diz.

Todas as torneiras de sua casa têm o redutor de pressão e arejador, que diminui a vazão de água. “E eu águo plantas apenas com o pulverizador e água da chuva, que coleto em baldes. Mas fico esperta para os recipientes não virarem local de reprodução do mosquito da dengue”, acrescenta.

Maria do Carmo também investe em eletrodomésticos com selo de economia de água. A última aquisição foi uma máquina de lavar que pesa as roupas e calcula a quantidade exata de água necessária para a limpeza. “Esta é meu xodó. Eu uso toda a tecnologia disponível para economizar água e energia" , diz.

Cláudia e Maria do Carmo Rincon (sentada): consientes

Valdenir Resende Pereira, 65 anos, moradora da Vila Marieta, não utiliza a mangueira há quase um mês. Desde que o sol tomou conta do céu de Campinas, o quintal é lavado com o que sai da máquina de lavar roupas. O mesmo líquido, já com sabão, é usado para passar pano em toda a casa. “Estou lavando roupas duas vezes por semana, depois que acumula bastante peças. Eu guardo a água para lavar o pátio e a garagem. Não prejudica em nada a limpeza da casa” . Para regar as plantas, o marido de Valdenir, Augusto Pereira, de 72 anos, mede meia caneca por vaso. “Não coloco uma gota a mais nesse tempo. É o suficiente para elas não morrerem” , explica.

O exemplo de economia para a dona de casa Anatilde Antunes Hirayama, de 57 anos, veio das cunhadas de descendência oriental. “É da cultura delas preservar e reutilizar tudo, muito diferente dos brasileiros. Aprendi com elas a guardar a água que lavo o arroz para regar os vasos de flores. Parece que os nutrientes do cereal ajudam a planta a crescer” , ensina. Outra dica de Anatilde é usar bacias para enxaguar a louça, ao invés de água corrente. “É um costume de gente mais velha, que pode ser útil em tempo de racionamento como agora. Ou não vamos mais ter água nem para tomar banho” .

Fiscalização

A Sociedade de Abastecimento de Água e Esgoto (Sanasa) começou uma campanha de conscientização da população e intensificou a fiscalização. Por dia o órgão recebe, em média, 40 denúncias relatando abusos. Técnicos da empresa passaram a trabalhar em campo para constatar o mau uso, como lavagem de calçamento público e lavagem de veículos em casa. Quem for flagrado será notificado pelos técnicos e multados na reincidência.

Segundo dados da Sanasa, o horário de pico de consumo de água em Campinas acontece entre 18h e 21h30. Ainda segundo a empresa, por dia, a média de uso de água por habitante é de 210 litros. Porém, desde o início de janeiro e com o calor recorde a quantidade subiu para 230 litros por dia por pessoa.

 

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