Publicado 21 de Fevereiro de 2014 - 14h07

Por João Nunes

Sessão de Cinema

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Sessão de Cinema

O mérito de um filme está sempre nele próprio, não no tema. Entretanto, 12 Anos de Escravidão (12 Years a Slave, Estados Unidos, 2013), de Steve McQueen, consegue a proeza de unir um tema relevante com garantia de bom cinema. Produção de baixo orçamento para os padrões americanos, o filme tenta seduzir a Academia de Hollywood (em relação ao Oscar) e ao público que, a despeito de temática dura e necessária, ele oferece esmero técnico, elementos para nos tocar sem explorar emoções e ainda nos reserva o prazer de ver uma obra de inequívocas qualidades.

 

A força inicial está na história de um negro livre que, em tempos de escravidão (1841) vive como branco Há uma contradição na vida de Solomon Northup (Chiwetel Ejiofor): foi alforriado, porém a liberdade solitária não extinguiu a prática escravagista e seus pares seguem sofrendo as dores da escravidão enquanto ele frequenta restaurantes chiques ao lado de brancos. E possui tal direito, porém, só depois de sequestrado e experimentar doze anos de humilhação e tortura, ele se torna consciente da condição de segregado por causa da cor da pele.

 

E há o modo como o diretor, também negro, se aproxima de um assunto ainda hoje explosivo, que é a escravidão (no caso, americano, mas poderia ser a brasileira, tão desprezível quanto) sem tornar-se panfletário ou levantar bandeiras e, ao mesmo tempo, sem ser condescendente com o espectador.

 

Há duas cenas indigestas de tortura – uma delas, longa e silenciosa sequência do protagonista, provoca incômodo que beira o insuportável. A outra, com Patsey, que revelou o talento de Lupita Nyong’o, igualmente penosa – ambos os atores estão merecidamente indicados ao Oscar.

 

O diretor parece dizer que contra barbáries históricas, como a escravidão motivada pela raça, o único modo de chamar a atenção é expor o desagradável. Daí a aspereza descrita com realismo, sem nunca ser gratuita ou abusar do exagero como justificativa de convencimento. A exposição dos corpos torturados diz, em poucos minutos, mais do que qualquer tese sobre a vileza da escravidão.

 

Escrito por John Ridley a partir da autobiografia publicada em 1853 pelo violinista Solomon Northup, o filme descreve o calvário dele. Àquelas alturas, sem direito a usar o próprio nome, sofre nas mãos de diversos senhores escravagista, entre eles, o mais severo deles, Edwin Epps (o ótimo Michael Fassbender).

 

Um dos muitos acertos é mostrar o vilão Edwin Epps repleto de nuances, o que o torna convincente. Capaz de justificar a tortura com base na bíblia – mãe de todas as heresias, diria um teólogo –, ele é tão cruel quanto contraditório e dividido entre o desprezo pela mulher branca (Sarah Paulson) e o desejo sexual (resultado do ódio) pela negra Patsey, a quem estupra e tortura com idêntico prazer mórbido.

 

E sente-se superior, porém, respeita Solomon pelas qualidades intelectuais intrínsecas deste, que é inteligente, perspicaz, forte e jamais se vitimiza. Ao contrário, faz-se altivo e digno como um grande herói deve ser. Porém, não se transforma em herói romantizado, assim como o vilão não é estereotipado. Ambos são críveis, reais e não sobre-humanos (um, investido da capacidade de olhar o mundo com um mínimo de sensibilidade; outro, tomado pelos próprios demônios e incendiado pelos instintos mais abjetos).

 

E o final, que poderia desandar para um melodrama mexicano, é um belo desfecho. Narrado com tamanha contenção, desde já, serve de aula sobre como dirigir uma sequência na qual se busca a emoção (natural ao contexto da história) sem manipular o espectador. Com Chiwetel Ejiofor no melhor momento, a cena provoca não o choro desbragado, mas o nó na garganta. E não precisa mais, pois o drama como tal está descrito por ele próprio.

 

* Publicado no Correio Popular de Campinas em 21/2/2014

Escrito por:

João Nunes