Publicado 19 de Fevereiro de 2014 - 23h50

Por João Nunes

Clube de Compras Dallas

João Nunes

Clube de Compras Dallas

 No prólogo reside a essência de Clube de Compras Dallas (Dallas Buyers Club, Estados Unidos, 2013), do canadense Jean-Marc Vallée. O eletricista hétero machista e homofóbico Ron Woodroof (Matthew McConaughey) faz sexo casual com duas prostitutas em meio as cocheiras de um rodeio. Entre as frestas, acompanha um caubói na arena (que mimetiza os movimentos de Ron) montado em um touro até despencar e, aparentemente, morrer. Metáfora da morte como resultado do sexo, a consequência explosiva nascida com a aids.

O título soa estranho, ainda que se refira a uma instituição informal que, de fato existiu, uma vez que se trata de história real. Entretanto, ele não tem o apelo de público que o filme merece – estamos falando de apelo comercial porque concorre ao Oscar. E tem o agravante de tratar de assunto difícil de ser digerido por platéias mais amplas, ainda que, para chamar a atenção, se valha muito bem de um astro do rock, Jared Leto (da banda 30 Seconds to Mars), no papel da travesti Rayon.

Estamos em 1985, quando a aids não atingia mais apenas os homossexuais e perdera o estigma de “peste gay”, pois passou a ter todos, indiscriminadamente, como alvo – inclusive o tal hétero machista Ron Woodroof. Naquele momento, gays morriam diariamente, enquanto laboratórios impunham – em consonância com o governo dos EUA – o único remédio disponível para tratar a doença, o AZT, que provocava pesados efeitos colaterais.

Como falar de assunto tão pedregoso e ter a plateia do seu lado? Primeiro, ainda que a doença espante, o filme defende uma causa – que costuma comover espectadores. Depois, se reforça com a presença do belo Jared Leto subvertendo o papel dele da vida real. Por fim, também inverte a ordem ao contar a história de um hétero contaminado pelo vírus do HIV, como a dizer: a aids não está distante de ninguém; portanto, o filme pode dialogar com todo mundo.

O médico de Ron Woodroof lhe dá 30 dias de vida, mas ele decide não morrer e busca alternativas para continuar vivo. Do personagem, que sempre foi destemido, emerge energia incomum que não lhe permite se abater em momento tão crucial. Não levemos para o lado da auto-ajuda, mas, sim, há um poder tamanho de auto-preservação que dá enorme dimensão ao personagem.

Os remédios trazidos do México e, depois, do Japão e Holanda são proibidos nos EUA. Não importa, Ron vira traficante de remédios ilegais. E, pragmático, de homofóbico torna-se sócio de Rayon e se transforma em amigo dos gays (mesmo por interesse).

A atuação de Matthew McConaughey é marcante. Ele se doa ao papel interpretando um homem grosseiro, feio e arrogante, perdeu uns quantos quilos para viver o personagem e se expõe sem medos as debilidades físicas dele. Tem muitos méritos, e o Oscar adora tais esforços – e surge como favorito após ganhar o Globo de Ouro.

A direção evita colocar mais carga sobre um tema por si só pesado. E abre amplo espaço para o protagonista, exibe meandros da batalha entre gays, laboratórios e o governo e narra a história em ritmo alucinante; afinal, Ron corre contra o relógio. A urgência é, portanto, o grande drama do personagem: não há muito o que pensar e nem tempo a perder.

Com orçamento irrisório de US$ 5,5 milhões, Clube de Compras Dallas tem o poder de humanizar um homem brutalizado, que até conquista a simpatia da médica Eve (Jennifer Garner). É um filme limitado nas próprias pretensões e, ainda assim, com inequívocas qualidades.

* Publicado no Correio Popular em 19/2/2014

Escrito por:

João Nunes