Publicado 31 de Janeiro de 2014 - 22h17

Por Mariane Mirandola

Heitor Marconato, Pré- T

Arquivo pessoal

Heitor Marconato, Pré- T

Havia algo de errado com o corpo de Mônica. As roupas que costumava ganhar não eram do seu agrado. Os gostos e os desejos não eram os mesmos de outras meninas e quanto mais o tempo passava, menos mulher ela se sentia.

Em suas histórias de amor, casos com homens e mulheres. Em sua história de vida, um um vazio, uma sensação de que ainda lhe faltava algo para ser plenamente feliz.

Na inocência de criança, sentia-se desfavorecida por não ter um pênis como o do seu irmão. Admirava o fato dele conseguir urinar em pé e não molhar o chão – assim como fazia em suas tentativas.

Todos os ensinamentos, encarava como algo imposto, forçado. Era um homem, um pequeno garoto no corpo de uma mulher. Tinha comportamento de garoto, frustava-se por ser uma menina e deixar de ser criança foi uma de suas maiores frustrações, afinal, pensou que teria que ser aquilo que seu corpo lhe reservava, uma mulher.

Mesmo que homossexual, gostando de mulheres, os seios estavam para desenvolver ainda mais. Sua menstruação chegaria e seu corpo seria visto por todos como um corpo feminino.

Diante de tantas incertezas e frustrações pensou no suicídio como uma saída, mas o violino a ajudou a ser reconhecida entre os amigos. Aos 13 anos imaginava se alguém, caso morresse, sentiria sua falta e na formatura da 8º série tocou Brasileirinho e mesmo sendo uma aprendiz do instrumento, recebeu os aplausos e olhares de reconhecimento.

Com a música sua postura foi corrigida, afinal, um bom som depende também de uma boa postura. Antes andava torta e procurava vestir apenas camiseta, pois queria esconder os seios.

Foi obrigada a fazer aula de jazz e chegou a ficar, por castigo, segurando um cabo de vassoura por horas para corrigir o modo como andava e sentava. Entre lágrimas de dúvida e raiva, conseguiu melhorar, mas a música e um amor quase proibido por uma mulher foram os paliativos concretos para sua melhora.

Hoje, todo esse passado é relembrado por um corpo diferente do corpo de uma adolescente. Um corpo de homem, que no meio do ano de 2013 assumiu sua identidade de gênero masculino e diante de todas as dificuldades e obstáculos sente-se feliz e liberto ao ser chamado de Heitor, Heitor Marconato.

Com olhar distante, de poeta sonhador, cabeça raspada, bigode por fazer e um sorriso tímido, que ele anda pelas ruas de Americana. Em um apartamento, sem luxo e sem fartura ele encontrou sua liberdade e com a ajuda de amigos, alguns familiares, vai aos poucos, superando os obstáculos impostos à população transgênera

Questionado, em meio ao bate papo, sobre como descobriu sua identidade, ele afirmou que foi um processo crescente e que amizades, pesquisas e relacionamentos o fizeram ter certeza daquilo que queria. “Acho que um marco inicial pra começar a me desamarrar foi uma matéria que li no começo do ano passado sobre a Beatriz, uma transmulher que havia acabado de assumir sua identidade de gênero e com uma aparência andrógina, e o que mais chamou a atenção foi o fato dela declarar-se lésbica, pois na ocasião eu me entendia como lésbica e fiquei encantado por ela, achei ela linda e desde então desconstruí qualquer barreira que atrapalhasse a compreensão por sentir-me atraído, encantado por ela”, relata.

Dentre tantas amizades, uma em especial chamou a atenção. Uma garota bem mais nova, mas decidida. Heterossexual, porém sem tabus, permitiu um diálogo aberto, fazendo-o construir um elo de confiança para o início das pesquisas e a tomada de decisão. “ Nós tínhamos um diálogo aberto quanto a sexualidade. Pela idade dela e pela minha, rolou interesse dela de saber sobre como eu lidava com o meu corpo, ela queria entender o dela e não teve pudor ao tratar disso nesse elo que a gente construiu. Falar de sexo, corpo, mulher, masturbação tornou-se completamente normal”.

Desde então as peças do quebra-cabeça foram se encaixando e em meio aos diálogos e pesquisas a coragem tomou o lugar do medo e após um mês de pesquisa a decisão foi tomada. “Foi um mês, um mês de pesquisa intensa, altos e baixos, calafrios e medo, muito medo pois a última coisa que eu queria era ser algo completamente fora do que eu conhecia, mas, parece que bastou um texto pra eu concluir que eu poderia ser um homem transexual e não uma mulher cis e lésbica, então eu conversei com meu irmão e ele apoiou, o que foi muito importante”, conta.

O apoio, porém, não é de toda família. A invisibilidade tomou conta do seu corpo para algumas pessoas, que recusaram-se a reconhecê-lo como homem. Entre essas pessoas, seus pais, os quais também não entenderam a fase da homossexualidade. “Meu pai argumentou que se eu quisesse ser homem, que eu seria fora da casa dele. O mesmo argumento usado para o lesbianismo da fase anterior. Resumindo, ficou clara a mensagem de que se eu quiser ser parte da família, eu teria que ser o que eles projetaram a meu respeito. Uma filha mulher que não trouxesse constrangimentos a uma família tradicional”.

Para Heitor, o conceito de família imposto dentro de casa o envergonha, assim como ele chega a envergonhar seu pai. “ O conceito de família deles também me envergonha e não é o modelo que pretendo seguir, para mim o conceito de família é diálogo e amor”.

Em sua luta pelo respeito e reconhecimento, Heitor ainda não iniciou o processo de hormonioterapia, atualmente ele passa pela transição. Questionado sobre o futuro, afirmou que não pensa nele, que não o fantasia, pois toda vez que pensa em um tempo a frente, pensa em toda população transgênera . “O presente sempre vai ser a melhor fase. Agora estou à vontade, mesmo que eu seja pré-T ainda, entendo meu corpo como algo em construção e essa ideia de construir que me proporciona força pra continuar e não é uma construção só pra mim, é pra todo mundo”, finaliza.

Existência x  Preconceito

“A sociedade não encara, somos ainda invisíveis. Houve com certeza uma maior visibilidade de 30 anos pra cá, mas ainda impera uma visão higienista de que matar trans é uma limpeza para a sociedade sexista. “As palavras são do escritor João W. Nery, autor de dois livros autobiográficos, sendo o primeiro denominado "Erro de Pessoa - Joana ou João", lançado em 1984, onde começa a discutir no Brasil as especificidades da transexualidade masculina e o segundo "Viagem Solitária - Memórias de um Transexual 30 anos depois", publicado em 2011, o qual, ele repensa vários aspectos de sua vida, olhando para o passado.

A luta pela visibilidade tem que enfrentar, além das barreiras do preconceito, as barreiras da violência. É preciso desviar das ameaças de morte e a sobrevivência vai além de ofensas verbais. “Vem crescendo os assassinatos. Muitos não são registrados como trans, pois ficam desfigurados ou então a delegacia não coloca como transfobia ou homofobia”, explica.

Quando tratados, a maioria deles, são vistos como seres de um outro mundo, doentes ou então anormais. “Somos considerados pré-sujeitos ou não humanos, se preferir. O mundo é patriarcal, sexista e pautado nas heteronormas, quem pisa fora disto é preciso não existir. A medicina nos patologiza como doentes mentais”.

Luta pela visibilidade

Janeiro o foi marcado pelo Dia da Luta da Visibilidade Trans. Celebrada no dia 29, a data foi marcada por depoimentos, eventos em algumas cidades do país e um grande barulho nas redes sociais, porém, o sonho de João vai além da celebração do dia 29. Assim como a maioria da população transgênera, o escritor sonha em um mundo onde a visibilidade seja todos os dias do ano.

Segundo ele, “ser trans é apenas mais uma forma de ser e a luta é pelo espaço, por poderem ser diferentes com direitos iguais”.

Diante de seus sonhos e lutas, o escritor deixou um recado a toda população, pedindo que tenham orgulho de serem quem são. “O recado é que tenham orgulho de ser trans, de denunciar a hipocrisia social, de se tornarem visíveis para lutarem por políticas públicas, pelos nossos direitos garantidos pela Constituição mas que não são respeitados. Quem precisar de ajudar, é só me procurar no facebook”, garantiu.

Lei João W. Nery

Os deputados federais Jean Wyllys, e Érika Kokay, denominaram o Projeto de Lei que dispõe sobre o direito à identidade de gênero como Lei João W Ney.

Caso aprovada, no Congresso, poderá ser feita a mudança de nome e gênero em cartório, sem necessidade de laudo psiquiátrico, cirurgia de readequação ou hormonização.

Escrito por:

Mariane Mirandola