Publicado 25 de Janeiro de 2014 - 5h00

José Pedro Martins

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José Pedro Martins

Mais uma vez o foco da mídia mundial esteve voltado, durante alguns dias, para o Fórum Econômico de Davos, a reunião de ricos e poderosos que, pretensamente, desenharia a pauta econômica e política internacional para o ano. Entre as discussões sobre a volatilidade dos mercados, a recuperação econômica americana e europeia e o desgaste do protagonismo dos BRICs, um embate de posições não deixou de atrair atrações. Tratou-se da divulgação de documentos com pontos de vista distintos sobre um aspecto que não é central na citada agenda global, mas que é absolutamente fundamental como imperativo ético: como superar a pobreza extrema no planeta.

O assunto foi o tema dominante na carta anual publicada por ninguém menos do que Bill Gates, que hoje seria o segundo homem mais rico do mundo. “3 Mitos que bloqueiam o progresso dos pobres” foi o tema da carta, assinada por Gates e a mulher, Melinda. Os dois lideram uma fundação com seus nomes e que tem apoiado vários projetos nas áreas de desenvolvimento e da saúde nos países em desenvolvimento.

A visão de que “Países pobres estão condenados a continuar pobres” é o primeiro mito que, para Gates, é falacioso. Ele observa que, no curso de sua existência, de quase 60 anos (nasceu em 1955), aumentou muito a renda da maioria dos pobres que eram considerados do Terceiro Mundo e hoje, seriam “em desenvolvimento”. Ele cita os casos do aumento da renda real por pessoa na China em oito vezes, na Índia em quatro, no Brasil em cinco vezes e em Botsuana – “um país pequeno com uma gestão inteligente de seus recursos minerais” – em 30 vezes. Milhões de pessoas deixaram a condição de pobreza extrema nessas seis décadas, e o acesso à escola melhorou muito. Enfim, os países pobres não estão condenados a continuar pobres, diz o mago da Microsoft.

O segundo mito que ele combate é o de que a “Assistência externa é um grande desperdício”. Ele está se referindo à ajuda dos países ricos aos países pobres. Uma ajuda que vem sendo cada vez mais combatida nos países industrializados, pelos setores conservadores, para quem essa assistência externa não é eficaz, é vulnerável à corrupção e deixa os países receptores na condição de pedintes, impedindo a sua autonomia. Gates cita fatos e projetos para criticar cada um desses argumentos.

E o terceiro mito (comentado em texto assinado por Melinda Gates) seria o de que “Salvar vidas resulta em superpopulação”. De novo, cita vários números e fatos, para concluir que “tornamos o futuro sustentável quando investimos nos pobres e não quando insistimos em seu sofrimento”.

Enfim, é a expressão de um dos casais que se tornaram símbolos da chamada Nova Economia, e que apontam para uma modalidade de pensamento de ricos e poderosos sobre como contribuir para que outros milhões deixem a condição de pobreza extrema. Gates acredita que, com os investimentos certos, “até 2035, quase não haverá mais países pobres no mundo (isto é, de acordo com nossa definição atual de pobreza)”.

Uma visão menos otimista é demonstrada em outro documento publicado nas vésperas do Fórum de Davos, “Governar para as elites – Sequestro democrático e desigualdade econômica”, produzido pela Oxfam, uma coalizão de ONGs internacionais. O documento observa que a desigualdade econômica cresce rapidamente na maioria dos países. Que a riqueza mundial está dividida em duas partes: quase a metade está em mãos do 1% mais rico da população, e a outra metade fica com os demais 99%.

O documento assinala que “a desigualdade econômica extrema e o sequestro dos processos democráticos por parte das elites são demasiado interdependentes”. E adverte que “a falta de controle nas instituições políticas produz seu debilitamento, e os governos servem de forma avassaladora às elites econômicas em detrimento da cidadania”. Para Oxfam, a desigualdade extrema não é inevitável, e “pode e deve ser revertida o antes possível”. A coalizão se demostra especialmente preocupada com o fato de que “a metade mais pobre da população mundial possui a mesma riqueza que as 85 pessoas mais ricas do mundo”.

Entre as propostas para mudar a situação, combate aos paraísos fiscais, a taxação progressiva sobre riqueza e renda, que os poderosos “não utilizem sua riqueza econômica para obter favores políticos que suponham um desprezo da vontade política de seus concidadãos” e transparência total “de todos os investimentos em empresas e fundos das quais sejam (os poderosos) beneficiários efetivos e finais”.

Em síntese, em todos os espectros políticos e sociais, a preocupação central com a desigualdade, que continua grande e ainda representa a grande ameaça para a democracia, o desenvolvimento sustentável e a própria segurança pessoal e coletiva. Ainda haverá tempo de superar essa desigualdade que continua provocando fraturas sociais inquietantes em todos os países?