Publicado 09 de Agosto de 2013 - 5h01

Por Joaquim Motta

ig - joaquim motta

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ig - joaquim motta

Além dos ranços sexistas que ainda interferem muito na sexualidade atual (machistas e feministas brigam muitas vezes só pelo hábito), temos que lidar com certas circunstâncias conservadoras e valores tradicionais de uma ordem moral extremista que sustentam barreiras de difícil transposição. Desde o impulso biológico essencial à vida até o contato sexual que busca o prazer optativo, toda a libido é marcada pela ordem moralista. Essa censura moral persegue o sexo desde a queda do Império Romano (séc. 5). Oficializada como religião desde o século 4, a Igreja Católica foi assumindo esse papel censor.

Michael Flocker indica: “Foi só quando o cristianismo tomou conta da situação e Roma começou o seu histórico declínio que o sexo passou a ser associado à culpa, pecado e vergonha. Os cristãos associaram a queda dos romanos ao sexo e ao prazer, e com o tempo as entediantes práticas da abnegação, abstinência e autotortura assumiram o seu lugar... O sexo ficou sendo um ato sujo, vergonhoso, que só devia ser praticado em caso de extrema necessidade”.

Tal panorama permaneceu até o início do segundo milênio, quando os trovadores europeus começaram a germinar o amor romântico, espécie de oposição liberal discreta ao domínio católico que regrava o casamento já com características muito semelhantes ao que ainda se vê hoje.

O amor cortês entremeou a leveza do romantismo artístico com a carga do sadismo espiritual. O trovador arriscava com a coragem de oferecer sua música a uma dama inacessível e sofria ao confirmar sua submissão de vassalo.

A sociedade em transformação cíclica tem oscilado entre etapas moralmente rígidas (radicalismos antigos como a fase medieval da Inquisição, mais recentemente, no século 19, a época vitoriana) e movimentos liberais (certos tópicos iluministas da Revolução Francesa, a contracultura hippie do século passado).

A evolução cultural repara alguns equívocos mas segue prestigiando tradições aborrecidas, perpetuando alguns conceitos que já deveriam ser reformados. Valeria a pena debater sobre as diferenças essenciais entre moral e moralismo, esclarecendo aspectos que discriminam uma ideia da outra.

O professor de Filosofia Fernando Montes D'Oca publicou um comentário que esclarece bem esses aspectos: “Infelizmente, ao homem de hoje falta moral e sobra moralismo. Em geral, tais expressões são confundidas e tomadas como tendo um mesmo e único sentido. No entanto, vale lembrar que entre a moral e o moralismo há um verdadeiro abismo. Alguns ismos, acrescentados como sufixos, dão um sentido pejorativo à nova palavra formada [...]. O ismo denota uma espécie de desvalorização e transmite a ideia de que algo foi levado ao extremo a ponto de uma completa banalização. Assim sendo, a moral levada ao extremo passa a ser um moralismo”.

O moralista parece ser uma pessoa de extremo valor egoico, que se encontra acima do bem e do mal. Com toda essa pompa narcisista, julga-se muito digno, ainda que muitas vezes se revela incapaz de ser um formador de opinião. Ou de legislar sobre a vida dos outros, mesmo pretendendo isso.

Na prática, quanto mais moralista se é, menos moral se tem! O moralista prega para os outros, é um completo hipócrita. O fato de ele levar o discurso moral ao extremismo, isto é, a ponto de reduzi-lo a ações irracionais, detona a possibilidade de se ter uma doutrina moral legítima e viável, baseada em princípios e valores flexíveis, repensados e revistos, e não apenas em emoções sensacionalistas, pudores pernósticos e puritanismo anacrônico.

O bom valor moral é mais inspirado no amor e no sexo responsável, muito menos em repressões e exigências dogmáticas.

Escrito por:

Joaquim Motta