Publicado 09 de Agosto de 2013 - 5h00

ig-cecílio

AAN

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Permita-me, Santidade, escrever-lhe em caráter pessoal, quase íntimo. Na verdade, eu queria ser um daqueles cinco peregrinos cujas confissões Sua Santidade ouviu. Em vez de pecados, eu confessaria minha gratidão por sua fé contagiante ter-me iluminado, por sua humanidade comovedora que transbordou em forma de humildade e simplicidade. O senhor — permita-me chamá-lo assim? — instigou-me a voltar ao rebanho. Desgarrado, eu queria retornar mas não sabia como, talvez por receio de outras decepções. Sua Santidade reconheceu haver, na Igreja, feridos e ressentidos. Eu estava entre eles. E doía ainda mais por eu ter saudade. Foram — quando tive fé — os mais serenos e felizes anos de minha vida. Quando — por intelectualismo, por decepções — permiti se fosse, vieram os anos amargos. Não soube, porém, fazer a saudade motivar-me para o recomeço. Foi quando, na escuridão, Sua Santidade apareceu, raio de sol nas sombras que nos envolviam a todos.

Portanto, Santidade, tento recomeçar. Com ansiedade, com receios, mas com alegria renovada. Estou, pois, a caminho. Mais outra vez. Não é esse — estar a caminho — o destino do homem? Lá me vou. E o grande sinal, a grande luz, o senhor no-los deu convocando-nos para a Alegria. A fé conduz à alegria. Sua Santidade falou: “Que coisa mais feia um bispo triste, não?” E há coisa mais triste, Santidade, do que uma humanidade triste?

Pois estamos ainda tristes. A Igreja não é o Reino, mas um instrumento para se instituí-lo na terra. A oração de Cristo não nos envia para outra dimensão, mas faz uma súplica: “Venha a nós o Vosso Reino”. Para os que estão vivos. Mas esquecemo-nos da “Gaudium et Spes”, da “Lumen Gentium”. E, portanto, também da Alegria, confundindo-a, com entusiasmo, com vibração. Lembrei-me, Santidade, propositalmente da Gaudium et Spes, pois Alegria quer dizer gáudio e não gozo. E estamos, tristemente, vivendo no mundo dos gozos e dos prazeres. Sem Alegria.

Tento, pois, retomar a caminhada. Mas com dúvidas, incertezas. O senhor esbanja alegria, mas eu penso no luto, na morbidez ainda existentes na Igreja. Há contradições, Santo Padre, e o senhor mesmo as admitiu. De minha parte, perturbo-me com algumas que, parecendo simples, são — no meu entender — fundamentais. Permita-me dizê-las, como em confissão.

Comecemos com Eva e Adão, aos quais foi imputado o Pecado Original que, ainda hoje e cruelmente, amargura a humanidade. Mesmo como mito, é complicador, confuso, contraditório. Qual o pecado original que eles cometeram? Primeiro, comer a maçã — o fruto proibido — parecia referir-se à sexualidade. Mas se homem e mulher fossem assexuados, não teriam genitais específicos, apropriados para o “Crescei e Multiplicai-vos”. Não há como entender, Santidade, mesmo como lenda ou mito. Sexo com amor é Alegria.

Eis, porém, que surgiu outra explicação: o Pecado Original aconteceu por Eva e Adão terem comido do fruto da Árvore do Conhecimento, na qual estavam os segredos do Bem e do Mal. Como, porém, entender que a busca do conhecimento, a curiosidade — isso que levou o homem à ciência e à reflexão — poderiam ser um Pecado Original? O ideal humano, então, seriam a ignorância, a conformação com tudo? O princípio de toda confusão, Santo Padre — pelo menos para mim — está no conceito de Pecado Original. Se, para a Igreja, ele fundamenta tudo, para os pobres fiéis é desanimador.

É daí — em meu mísero entender — que começa a confusão. Arrepio-me ao pensar na oração que recita: “Maria, concebida sem pecado”. Ela foi concebida pelo Espírito Santo e até isso é compreensível no mistério da fé. Mas por que falar-se em pecado, quando a gravidez de outras mulheres — fruto do amor — é uma bênção, uma graça? Ora, na proclamação — “Maria, concebida sem pecado” — fica explícito ser pecaminoso o amor de um homem e de uma mulher, mesmo quando geram um filho. E eu me recuso, Santidade, a ser fruto do pecado de meus pais.

Ah! a Alegria, Santidade. Como foi bom ouvir do seu coração o convite, a proclamação da Alegria na vida cristã. Mas como vivê-la, Santo Padre, se, em outra oração, está aquela amargura macabra, mórbida, numa invocação a Maria: “A vós, bradamos, os degregados filhos de Eva. A vós, suplicamos, gemendo e chorando, neste Vale de Lágrimas”.

Se viver é estar “em desterro num Vale de Lágrimas”, como falar em Alegria? Por que “Vale de Lágrimas”, se há tantas maravilhas no mundo e na vida? Até dores e sofrimento podem ser balsâmicos se o alicerce for a Alegria. Quero crer, Santidade, ser ela — a Alegria — o retorno ao Cristianismo vívido ao qual o senhor nos convida. Por isso, ainda que com dúvidas, estou a caminho.