Publicado 13 de Agosto de 2013 - 11h13

O assistente social Wendel Okino Lourenço, que se tratou na entidade e há três anos trabalha como educador

Janaína Maciel/Especial a AAN

O assistente social Wendel Okino Lourenço, que se tratou na entidade e há três anos trabalha como educador

“Salvou minha vida. Não sei o que seria de mim se não tivesse conhecido o Instituto Padre Haroldo”, disse o assistente social Wendel Okino Lourenço, de 32 anos, um dos 70 mil usuários de drogas que já passaram pelo instituto ao longo de seus 35 anos de existência. Idealizada pelo padre jesuíta Haroldo J. Rahm, a entidade, que fica em Campinas, foi inaugurada em 1978 e investe mais de R$ 7 milhões — fruto de doações e parcerias — por ano na recuperação de viciados em drogas lícitas e ilícitas. Há três anos, Lourenço trabalha no próprio instituto como educador social da Comunidade Terapêutica Feminina. Mas não foi sempre assim. Antes de vencer, ele teve de chegar ao fundo do poço em São Carlos, sua terra natal, para só então, por meio de um amigo, conhecer e virar residente no instituto para conseguir restabelecer sua vida.

“Eu comecei a usar drogas aos 11 anos. Fumava maconha, cheirava cola, tíner, solventes. Até que, aos 15 anos, fui internado por 40 dias, em Votuporanga, e fiquei um ano sem usar nada, mas depois tive uma recaída e usei mais um tempo. Até que, quando eu tinha 20 anos, um amigo me falou do Instituto Padre Haroldo e eu vim pra cá, onde me recuperei e nunca mais tive recaída”, contou. “O instituto acreditou e investiu em mim. Hoje, sou formado, tenho família e estou muito feliz em poder ajudar as pessoas que passam pelo mesmo que eu já passei aqui dentro”, disse Lourenço.

Segundo César Rosolen, gestor do tratamento, a entidade atua em três frentes de trabalho: prevenção e profissionalização, enfrentamento à situação de rua e tratamento terapêutico da dependência química na abordagem comunidade terapêutica.

Baseada em três pilares — espiritualidade, conscientização e trabalho —, as ações da entidade, a integração entre o residente, seus familiares e uma equipe interdisciplinar formada por médico clínico, psiquiatra, psicólogos, dentista, terapeuta ocupacional, educador físico, enfermeira, nutricionista, instrutor de artes, educadores e assistentes sociais.

Geralmente, o viciado fica seis meses internado em uma comunidade terapêutica e cada um tem seu tratamento individualizado. “Não temos internação compulsória. Aqui, só são tratadas pessoas que queiram ser tratadas. Ninguém é forçado a ficar aqui. A pessoa tem que querer.”

Nos quatro primeiros meses, o usuário passa por um processo de desintoxicação por meio de atividades físicas e alimentação balanceada, com atendimento médico, psicológico e odontológico, se necessário. A instituição trabalha dentro do modelo de abstinência total. Nesse período, também há o trabalho de conscientização do indivíduo sobre os prejuízos causados pelo consumo de drogas, sobre a importância de mudar o estilo de vida e gerenciar comportamentos, pensamentos e sentimentos.

O apoio terapêutico visa auxiliar o dependente a adquirir autoconhecimento, trabalhar emoções e sentimentos, desenvolver recursos internos para prevenir a recaída, além de aprender o significado do trabalho e da disciplina. Faz parte desse processo a participação na chamada laborterapia, que ajuda o residente a desenvolver hábitos como pontualidade, responsabilidade, persistência, tolerância e cooperação, além de minimizar problemas com autoridade e ensinar a lidar com críticas, frustrações e tensões.

Por se tratar de uma instituição religiosa, durante a internação, o dependente tem a oportunidade de desenvolver a espiritualidade e resgatar valores e princípios espirituais. A família tem papel ativo na recuperação do dependente, com participação em terapias de grupo e individuais.

Os dois últimos meses são dedicados à reinserção social, quando o dependente participa de cursos profissionalizantes, palestras educativas e preventivas e começa a retomar a vida social, com o retorno gradativo ao ambiente familiar, atividades esportivas, laborais, culturais, religiosas e de lazer, sempre com acompanhamento.

“Devolvemos a sobriedade às pessoas. Após seis meses de tratamento, conseguimos devolver a sobriedade a sete em cada dez residentes”, afirmou o padre Haroldo Joseph Rahm, que aos 94 anos ainda prega o que ele chama de “ideias de sobriedade” aos internos.

Parceria 

Hoje, o Instituto Padre Haroldo tem na ala masculina adulta dez vagas disponíveis; 22 na masculina para adolescentes; e na ala feminina, ao menos cinco vagas abertas. No mês passado, a entidade firmou convênio com a secretaria Nacional de Políticas Sobre Drogas (Senad) para ampliar o número de leitos gratuitos para tratar usuários de drogas, em especial os dependentes de crack.

Hoje, a comunidade terapêutica oferece 20 vagas para o tratamento sem custo ao paciente. Com a parceria, o número subirá para 90. O contrato é válido por um ano, prorrogável por mais um. A parceria faz parte do programa federal Crack, é Possível Vencer. O governo custeia mensalmente parte da internação na instituição, R$ 1 mil para adultos, e R$ 1,5 mil para adolescentes.

O valor não cobre o total gasto mensalmente com o acolhimento, que chega a R$ 2,5 mil. “Essa parceria veio em boa hora. É um fôlego que recebemos já que nossa lista de espera é grande e nosso déficit anual está em R$ 800 mil. Mas, estamos aqui para dar esse atendimento ao máximo de pessoas que conseguirmos e que necessitam”, afirmou o coordenador de marketing da instituição, Fabrício Prior.

O secretário do Senad, Vitore Maximiano, já esteve no instituto para conhecer e fechar a parceria. Ao todo, serão 10 mil vagas em diversas cidades do Brasil. “O Padre Haroldo é uma delas e é um exemplo de instituição que é seguida por outras. Temos um estudo que diz que 70% dos usuários que estão na rua querem um tratamento”, disse.