Publicado 13 de Agosto de 2013 - 10h12

Martin Luther King discursa para a multidão na Marcha de Washington por Empregos e Liberdade em 28 de agosto de 1963:

Cedoc/RAC

Martin Luther King discursa para a multidão na Marcha de Washington por Empregos e Liberdade em 28 de agosto de 1963: "Eu tenho um sonho"

A professora Viviane Marques Silva, do Colégio Notre Dame de Campinas, usou o fascínio que as biografias podem revelar para, ao mesmo tempo em que trabalhava conteúdos gramaticais nas aulas de inglês, abordar a importância do respeito às diferenças culturais e também um pouco da história dos Estados Unidos. O personagem selecionado para conduzir as atividades em três salas de 8 ano foi o pastor e ativista de direitos humanos Martin Luther King (1929-1968), que ganhou destaque pela sua luta contra o preconceito racial.

“Numa das aulas, comentei com os alunos, de forma rápida, sobre Luther King e nenhum deles sabia quem ele havia sido ou qual a sua importância para a história. Disso, surgiu a ideia de desenvolver um projeto focado totalmente em sua biografia”, contou a professora.

O projeto, desenvolvido durante o segundo bimestre letivo deste ano, recebeu o nome de “I have a dream”, uma referência à famosa frase de Luther King, “Eu tenho um sonho”, em português, com a qual ele iniciou seu principal discurso, em 28 de agosto de 1963. Nessa fala, feita durante a Marcha de Washington por Empregos e Liberdade, Luther King falava da necessidade de um convívio harmônico entre todas as raças.

Por sinal, foi a luta para que negros e brancos tivessem os mesmos direitos o que mais seduziu os alunos na biografia do pastor. A professora começou contando trechos significativos da trajetória de conquistas, como o ocorrido em 1955 com a costureira negra Rosa Parks (1913-2005). Em 1 de dezembro daquele ano, ela se recusou a ceder seu lugar para um branco em um ônibus, dando início a um movimento de boicote ao transporte público que culminou num déficit para as empresas. Naquela época, os brancos tinham privilégio nos lugares dos ônibus e os negros deveriam se levantar caso faltassem assentos. Rosa foi punida com multa e acabou presa.

“Muitos alunos ficaram surpresos com esse fato e em perceber que os Estados Unidos, símbolo do desenvolvimento, é um país com altos índices de preconceito e muitas histórias de intolerância”, lembrou a professora. A partir desse primeiro estímulo, com a narração de um dos fatos mais marcantes na biografia não só de Rosa, mas também que desencadeou toda a luta antissegregacionista de Luther King, os alunos começaram a querer saber mais sobre esses personagens. “Muitos partiram em busca de novas informações pela internet, em livros e em casa”, disse Viviane.

Certo dia, um dos alunos divulgou para a classe a sua descoberta: Luther King foi assassinado. “Encontrei aí um espaço para contar mais um trecho da história e também para abordar as manifestações de intolerância e a falta de respeito à diversidade.”

Desde as manifestações que Luther King organizara em meados da década de 1950 contra a segregação nos transportes, ele passou a ser odiado por opositores e a receber ameaças. Em 1968, foi assassinado por James Earl Ray (1928-1998), que confessou anos depois. O crime aconteceu momentos antes de uma marcha, num hotel na cidade de Memphis, no Estado do Tennessee, no Sudeste dos Estados Unidos.

Gramática

O trabalho foi uma maneira de envolver os aspectos culturais no aprendizado do idioma. “Chamou a atenção dos alunos o fato de os Estados Unidos terem um feriado dedicado à memória de Luther King”, afirmou a professora, se referindo à terceira segunda-feira de janeiro, em que o legado do ativista é celebrado com festas no país.

As aulas de Viviane são totalmente ministradas em inglês para que os alunos possam vivenciar a imersão na língua estrangeira. Assim, a experiência de Luther King também serviu para que os tópicos gramaticais fossem trabalhados. “Os alunos estudaram voz passiva a partir da biografia. Como se tratava de um fato já ocorrido, foi fácil abordar os tempos verbais do passado e a diferença entre voz ativa e voz passiva, assuntos em que, geralmente, os alunos encontram dificuldades”, avaliou a educadora.

Viviane também elaborou a prova bimestral baseada na história de vida do ativista e, agora, para a mostra de trabalhos que anualmente a escola realiza em setembro, os alunos estão produzindo uma encenação que será gravada em vídeo para ser exibida durante o evento. Cada turma adaptou, em inglês, a cena em que Rosa Parks se recusa a ceder seu lugar no ônibus. “Interessante notar como cada grupo reproduz a cena por ângulos diferentes, mas sempre fiel ao acontecimento”, disse. Para construir a narrativa, os alunos se basearam em dois livros: A Lesson For Martin Luther King Jr, de Denise Lewis Patrick, e Martin’s Dream, de Jane Kurtz.

Finalizando com a dramatização, Viviane conseguiu trabalhar com todas as habilidades essenciais ao ensino de uma língua: a oralidade, a escrita e a leitura. Além disso, os alunos conheceram a capacidade de oratória e argumentação que marcou a personalidade de Luther King.

Desdobramentos

A realização do projeto nas salas de 8 ano coincidiu com o período de eleição para representantes de classe na escola e, durante o processo, os alunos candidatos deveriam demonstrar, por meio de discursos, as razões pelas quais gostariam de exercer a função. “Percebi em vários alunos a utilização de recursos de oratória e argumentação característicos de Luther King, um sinal de que esse conhecimento já passou a fazer parte da vida deles”, contou Viviane. Além disso, foram inevitáveis as referências ao presidente Barack Obama, o primeiro negro a chegar à Casa Branca, também lembrado como uma forma de luta e vitória contra o preconceito racial.