Publicado 25 de Agosto de 2013 - 5h00

Amel de Souza, e Roberlei de Jesus Matano: exemplos de que o gene do talento pode estar na pessoa ao lado

Edu Fortes/AAN

Amel de Souza, e Roberlei de Jesus Matano: exemplos de que o gene do talento pode estar na pessoa ao lado

Amel de Souza, de 48 anos, pedreiro, pintor, eletricista e encanador — um faz-tudo — foi chamado às pressas numa tarde qualquer por uma senhora que morava na Rua Uruguaiana, no Bosque, para resolver um vazamento no banheiro. Chegando lá, o que logo chamou a atenção dele foi a aparelhagem de som e alguns instrumentos que estavam na sala, já que, aparentemente, a mulher morava sozinha.

A curiosidade ficou aguçada, mas ele estava ali para socorrê-la, portanto, tratou de focar no trabalho e solucionar o problema com o encanamento.

Com o banheiro novo em folha, na hora de partir, Amel não resistiu: “Por que a senhora tem toda essa aparelhagem musical?” Ela disse que estava organizando uma festa junina e que aquilo seria usado por quem fosse tocar no evento, mas que estava preocupada, porque não encontrava ninguém disponível. “Eu toco e canto”, disse Amel. A senhora riu e achou que o pedreiro estava brincando. “Eu faço um arroz-com-feijão, mas eu canto e toco mesmo”, insistiu. “Você não tem cara de músico”, retrucou a senhora.

Realmente, Amel não se parece com um músico, pelo menos não com os que estamos acostumados a ver por aí, fazendo sucesso. Mas, isso quer dizer alguma coisa? Por que a senhora riu de Amel? “Eu estava ali barbudo, sujo, com uma roupa feia, trabalhando. Não era o tipo de músico com que ela estava acostumada.”

Ainda desacreditada, a senhora entregou um violão ao pedreiro e pediu para que ele provasse o que estava dizendo. “Aí eu toquei e cantei para ela.” E, para a surpresa da senhora, sim, Amel cantava e tocava. Mais do que isso, era bom, mesmo não se parecendo com um músico. Constrangida, a única coisa a se fazer diante de tal situação foi simples: “Está contratado”.

“Não quis nem saber valor e tratei de aceitar. Foi algo bem marcante”, lembra. Nos sete anos que se passaram, Amel foi a atração principal da tal festa junina organizada pela senhora, ao lado do parceiro Valdemar Correia de Araújo, de 59 anos, dono de uma confecção de roupas.

Baseando-se nisso, pensamos: a aparência define o talento de alguém? Ou melhor, a profissão do indivíduo é caráter eliminatório para se fazer outras coisas? Não! E, por mais incrível que possa parecer, um pedreiro pode não ser apenas um pedreiro. Assim como um vendedor pode ser mais que um vendedor, ou um mecânico, um motoboy, um cinegrafista... mesmo que isso, num primeiro momento, fique acobertado por estereótipos taxados por regras sociais. O talento, como dizem por aí, nasce com a gente.

Amel, nascido em Muzambinho, Minas Gerais, é pedreiro desde os 16 anos, mas sempre gostou de cantar. Em toda festa que ia, aniversário, reunião de família, tinha vontade de entrar nas rodinhas de música para soltar a voz. Observava o pessoal, os violeiros tocando e, só de olhar, começou a tirar umas notas também. “Nunca fiz aula de nada, tudo o que eu sei foi de espiar os outros fazendo e praticando.” Além do violão, Amel aprendeu teclado da mesma forma e hoje usa os dois instrumentos para fazer algumas apresentações e incrementar a renda de casa.

“A gente que vive de aluguel não pode ficar parado. O meu sonho é viver de música, mas é muito difícil. Como eu queria fazer aulas, me aperfeiçoar, conseguir mais agilidade. Mas não reclamo não. Graças a Deus nunca me falta serviço e a música completa a minha vida, porque ela dá para nós tudo aquilo que o dia a dia não consegue.”

Mesmo se dizendo tímido, munido de seu poderoso teclado — um sonho realizado de Amel, já que ele usava um emprestado —, o faz tudo soltou a voz para a reportagem do Correio ao lado do parceiro Valdemar e mostrou que tem talento de sobra — e que de acanhado não tem nada. Com uma voz poderosa, com direito a falsetes e vibratos, ele interpretou o clássico sertanejo Meu Reino Encantado depois de um longo dia de trabalho como se tivesse se preparado há horas para aquilo.

“A garganta tá cheia de tinta, então ajuda a alcançar as notas.” Mas o nome disso é apenas talento. Aliás, ele canta tão alto que, quando Amel e Valdemar decidiram se juntar, eles precisaram ficar seis meses ensaiando para que o amigo conseguisse acompanhar o faz tudo no canto. “Não foi fácil”, lembra.

Atualmente, toda quarta-feira, lá estão eles na casa de Amel, ensaiando num quartinho apertado para os shows que aparecem e afirmam: ficam quatro horas seguidas animando o público. “Se eu parar, a garganta esfria e não sai nada. E outra, estou fazendo algo que eu amo muito, que me dá prazer. Claro que o dinheirinho que entra é ótimo e, na verdade, eu preciso muito. Mas faço principalmente porque é bom demais.” E faz muito mais do que um arroz com feijão. Entrega uma refeição com direito a salada e picanha.