Publicado 13 de Agosto de 2013 - 15h19

Por João Nunes

Tatuagem, do pernambucano Hilton Lacerda, foi exibido domingo no Festival de Cinema de Gramado

Divulgação

Tatuagem, do pernambucano Hilton Lacerda, foi exibido domingo no Festival de Cinema de Gramado

Um uruguaio, em coprodução com o Brasil, e um brasileiro são os dois primeiros destaques do 41º Festival de Cinema de Gramado, que termina no sábado. 'El Padre de Gardel', de Ricardo Casas, e 'Tatuagem', do pernambucano Hilton Lacerda, ambos exibidos no domingo, mobilizaram as atenções até aqui.

O primeiro conta a inacreditável história do suposto pai do mito da música argentina, Carlos Gardel. Que o cantor e compositor tenha sido uruguaio confronta a tese argentina de que ele nasceu em Toulouse, França, e veio pequeno para Buenos Aires. Porém, o filme não nega a passagem de Gardel por Toulouse, mas prova quase de modo incontestável que ele nasceu em Tacuarembó, Uruguai.

Pior: nasceu de um pai de vida muito complicada. O coronel Carlos Escayola era autoritário, prendia os inimigos em calabouços, e casou com três irmãs na sequência, além de ter tido uma filha com a sogra. Filha que viria ser a mãe de Gardel, portanto, ele era filho da filha do pai.

O caso incestuoso é apresentado por meio de livros, documentos e, principalmente, depoimentos de historiadores, moradores de Tacuarembó, e familiares de Escayola. Diante da tragédia familiar, Gardel teria sido isolado em um povoado e, mais tarde, enviado a Buenos Aires, de onde partiu para a França.

Obviamente, tudo pode ser questionado, pois são pesquisas, mas nada comprovado de modo irrefutável. Uma jornalista argentina em Gramado elogiou o filme e o justifica dizendo que está tão bem fundamentado que ela não tem argumentos contrários. Outro jornalista argentino igualmente gostou do filme, conversou com o diretor e o elogiou pelo trabalho.

A história é espetacular. A maneira como as provas vão sendo demonstradas, também. E de repente embarcarmos nessa aventura que há décadas gera polêmica entre os dois países. Há quem demonstre que ele tem uma certidão de nascimento na França. O filme mostra a certidão de quem nasceu no Uruguai.

Uma polêmica saudável que, de modo simpático, o filme levanta. Depois da exibição, um jornalista brasileiro brincou que está fazendo um filme provando que Diego Maradona é paraguaio e que o papa Francisco, de fato, nasceu na Itália.

Brasileiro

O roteirista pernambucano Hilton Lacerda finalmente exibiu pela primeira vez seu primeiro longa-metragem, 'Tatuagem'. E pegou pesado. Trata o universo homossexual com franqueza poucas vezes vistas no cinema. Não tem medo de cenas de sexo nem do linguajar erótico que embala a relação dos protagonistas.

Mas em momento algum qualquer cena, diálogo ou ações caem na vulgaridade porque o filme tem dois caminhos muito sérios. Um deles é a descoberta de vida de Fininha (o ótimo Jesuíta Barbosa), rapaz que vai para o exército em plena ditadura, descobre a homossexualidade e conhece o agitador cultural Clécio (Irandhir Santos), que tem um cabaré anarquista.

O outro é político. Em 1978, o grupo teatral, que lembra muito o Dzi Croquettes, usa o teatro do puro deboche para contestar a falta de liberdade e de expressão. Dramaturgicamente, há um ótimo gancho: o libertário ator se apaixona por um soldado do exército.

Em que pese o tema que espanta muita gente, o filme é arrebatador. Não só pelo ótimo roteiro do próprio diretor, mas pelos climas que ele cria: as tensões onipresentes e os escapes que prevê por meio das encenações teatrais. Há uma alegria que joga o filme para cima — apesar dos dramas.

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João Nunes