Publicado 11 de Agosto de 2013 - 5h00

Colunista Zeza Amaral

Cedoc/RAC

Colunista Zeza Amaral

Há quem ache que os que escrevem artigos em jornal os devam fazer com determinada forma estética e sem se deixar envolver pelo conteúdo escatológico dos mesmos, segurando os espasmos e assim evitando o vomitório do discurso em prosa. Tudo para não ferir a susceptibilidade do distinto e raro leitor.

Sei bem como se dão as coisas na alienígena academia do pensamento, com seus pensadores que fazem a cabeça dos inocentes cordeiros que acreditam em tudo o que o seu mestre mandar. O resultado disso é o vandalismo social aceito como expressão política e ninguém diz que esses jovens — e também seus mestres — foram crianças que não levaram tapas na bunda. E aqui encerro o meu argumento.

Cerca de 75% dos nossos estudantes são analfabetos funcionais, conseguem ler mas não compreendem o que leem, e eles estão aí se manifestando nas ruas para entenderem suas vidas, seus empregos, suas sobrevivências, e discutindo em redes sociais seus relacionamentos com o mundo virtual de suas existências, cada um procurando um ombro onde possa apoiar a sua angústia, a sua ignorância intelectual. Seus mestres também o são assim.

Meus infortúnios existenciais achei nas palavras dos poetas já mortos e sempre lembrados, Fernando Pessoa, Manuel Bandeira, Musil, Drummond de Andrade, Hilda Hist, Mário Faustino, Manuel de Barros e tantos outros que não menos Patativa do Assaré, Raimundo Oswald Barroso (ainda vivo) e outros muitos cordelistas dos quais não recordo o nome, mas que estão santos e justos glorificados em algum lugar dos meus cuidados neuronais.

Não escrevo nada que não me diga alguma coisa que me leve a sentir vivo e memorial. Pode ser qualquer coisa sobre uma biscate da Treze de Maio ou de uma conversa sobre uma letra de música que Oswaldo Guilherme escreveu sobre a saudade. Disse ele, finalizando a letra: a saudade é a única notícia que tenho de você. A menina de programa da Treze de Maio talvez entendesse o alcance da intenção poética, mas ela estava mais preocupada em sobreviver naquela noite, descansar depois de um sem carinho de companheiro, mulher que era de todos e sempre acordar sozinha.

Esse compositor, Oswaldo Guilherme, esse poeta musical, tinha como companheira a senhora Terezinha, que lhe deu cinco filhas e uma retidão de vida, de compreender as almas boêmias, aquelas que se dissolvem na ilusão das paixões, nos amores extremados, desesperadas almas que nada sabiam das calmarias que só os primeiros amantes sabem porque envelhecem em razões de lealdade e fidalguia. E em algum tempo de nossas vigílias poéticas nos aceitamos com filho e pai.

Não escrevo nada que não me lembre um pai, mãe, irmãos, filhos e amigos. Escrevo a eles, sempre. Mortos ou não. E lembro aqui o já citado Oswaldo Guilherme e Arturo Molina. E mais escrevo para que o raro leitor se lembre de mim e do pouco que faço para me fazer lembrado pelos tempos, pois filho que serei da lembrança de alguns poucos, do nosso pacto em palavras.

Meu pai é um pedaço que carrego na minhas lembranças. Ele gostava de pegar minha mãe pelas costas e beijá-la no cangote. Com ele aprendi a me apaixonar e fazer palavras cruzadas. Com ele aprendi a ler dicionários e cuidar para que as palavras sempre exprimissem o seu sentido. Com ele aprendi a honrar o sentido do pai e mãe, muito além do que os mandamentos, pois ele foi namorado da minha mãe, o que é muito mais valor do que um marido, pois foi um homem que honrou a sua existência para fazer feliz a sua companheira.

Cada um de nós que somos membros da confraria dos que buscam uma vida plena em respeito e harmonia democrática e amorosa saudamos o que herdamos de nossos pais. Falo por mim, é claro, mas acho que também isso diz aos nossos e os meus filhos quando ouvirem o som das palavras de seus próprios filhos. Afinal, o badalo da vida sempre será o filho. E bem sei que o sino bate por mim, eu que sigo filho e agora pai.

Bom dia.