Publicado 10 de Agosto de 2013 - 0h00

Colunista José Ernesto

Fábio Melo/Gazeta de Ribeirão

Colunista José Ernesto

Fui recentemente ao Cemitério da Saudade visitar os túmulos de meus pais, avos, bisavós, tios e primos. Tenho depositado naquele pequeno pedaço de terra amostra total de meu genoma. Dei-me conta que fui extremamente econômico e simples ao colocar na lapide do tumulo de meus pais somente seus nomes, datas de nascimento e morte e a palavra, saudade. Outros túmulos têm frases bíblicas, poesias ou outros dizeres mais extensos. Pensando nisso, voltei a procurar o sentido dessa palavra simples: saudade.

Nós brasileiros frequentemente ouvimos e lemos que esse vocábulo, somente existe na língua portuguesa ou que ele é intraduzível para outros idiomas. Creio ser esse pensamento mais uma das megalomanias nacionais. É impossível que nós brasileiros sejamos donos exclusivos de um sentimento. Os sentimentos são universais. Lembrei-me então que essa palavra já foi objeto de outras investidas minhas em busca de entendimento de seu significado. Essa diversão é para mim muito agradável.

Um dos poetas que ajudou a disseminar o conceito que somos os possuidores da patente de um sentimento foi o professor, educador, político e romancista mineiro Mario Palmério (Monte Carmelo 1916 - Uberaba 1926). Em 1962, a convite do então presidente Jango, Palmério assumiu a embaixada do Brasil no Paraguai. No ano seguinte os jornais brasileiros registraram o sucesso naquele país de um "long-play" de música popular cantada em espanhol, de autoria de nosso embaixador. A musica “carro chefe” do disco e gravada posteriormente por vários cantores brasileiros e latinos chama-se "Saudade". Em entrevista, Palmério disse que alguém um dia, lhe perguntou o que era saudade e então ele compôs essa guarânia, que segundo ele, era a única maneira de traduzir para o castelhano o lirismo da palavra. Palmério escreveu:

“Si insistes en saber lo que es saudade,

Tendrás que antes de todo conocer,

Sentir lo que es querer, lo que es ternura,

Tener por bien un puro amor, vivir!

Después comprenderás lo que es saudade

Después que hayas perdido aquel amor

Saudade es soledad, melancolia,

Es lejanía, es recordar, sufrir!”

Embora a poesia seja maravilhosa, fica sugerido que em português precisamos de oito versos para explicar para um estrangeiro o significado da palavra saudade.

Outro autor que dedicou extenso comentário sobre o verbete foi Napoleão Mendes de Almeida (Itaí 1911 - São Paulo 1998). Napoleão foi talvez o último ou um dos últimos puristas da língua portuguesa. Em seu agradabilíssimo e incomparável “Dicionário de Questões Vernáculas” ele é extremamente critico (característica marcante do Napoleão) em relação ao nossa pretensa exclusividade universal desse sentimento e descreve palavras que em outros idiomas expressam o mesmo sentimento. Uma das mais poéticas vem do árabe. Os árabes têm duas palavras para expressar o sentimento “de um bem do qual se está privado, pesar causado pela ausência do objeto querido, lembrança suave e ao mesmo tempo triste da pessoa que se tornara simpática”. Para os árabes, “hanim” é palavra mais poética, onomatopaica, que reproduz a voz da camela quando volta a cabeça na direção do lugar que deixou seu filho depois de atravessar o deserto. Os árabes usam também “chauque”. Em “inglês “I miss you” e em espanhol, añoranza”, têm o mesmo significado.

Pensando bem, chego à conclusão que embora simples, não poderia ter achado outro termo para expressar meu sentimento impresso na lápide de meus pais no Cemitério da Saudade: saudade e por que não “hanim”.