Publicado 12 de Agosto de 2013 - 5h00

HELIO PASCHOAL

Cedoc/ RAC

HELIO PASCHOAL

Poucas coisas são mais irritantes do que discursos vazios. Primeiro, porque nos fazem perder tempo. Segundo, porque, dependendo de que os profere, sempre vão aparecer aqueles que hão de dar razão ao que ouvem, por mais que o que ouvem não faça o menor sentido.

E a presidente Dilma proferiu, na última sexta-feira, um dos mais brilhantes e bem elaborados discursos vazios com o qual eu já tive o prazer em me deparar.

Disse ela que o avanço da economia “não se mede apenas com números do PIB (Produto Interno Bruto)”. Já seria o suficiente, mas não: ela foi além: “Queremos um País que, quando cresce, significa que a população melhorou de vida. Tem que crescer a qualidade de vida da população, melhorar os serviços”.

Ora, é uma resposta perfeitamente oca para as manifestações das ruas que ainda assombram a classe política em geral e os que estão no poder em particular. Tudo agora é “melhorar qualidade de vida”, “melhorar atendimento”, “melhorar saúde”, “melhorar educação”. No discurso, obviamente - na prática, tudo continua como antes.

Isso posto, reflitamos as ponderações da presidente. Dizer que o avanço da economia não se mede apenas pelo PIB significa, mais ou menos, dizer a um chefe de família que sua situação econômica não se mede apenas pelo seu orçamento. Com o complemento de que ele pode, sim, melhorar de vida - comprar um plano de saúde, por exemplo - sem, necessariamente, precisar ganhar mais para isso.

Ora, seria irônico se não viesse da boca de quem veio. Verdade que o País precisa melhorar muita coisa; verdade que é preciso distribuir as riquezas de forma mais equilibrada; verdade que as pessoas precisam sentir em seu dia a dia que as coisas evoluíram junto com o crescimento econômico.

Ocorre que, infelizmente, não se tem como desvincular esse crescimento econômico de qualquer melhoria na vida das pessoas. Quem gerencia saúde, educação, segurança e outros depauperados serviços públicos é o governo. Muito mal e porcamente, como todos sabemos - mas mesmo mal e porcamente, é preciso recursos para aplicar nesses serviços.

Recursos de governo vêm, essencialmente, de impostos pagos por todos nós - e é aí que a retórica da presidente desmorona de vez, porque o governo só arrecadará mais se a) aumentar os impostos ou b) contar com um crescimento econômico (ou seja, do PIB) que garanta mais dinheiro nos cofres.

Aumentar impostos é algo que não se cogita - não por consideração com que os paga, mas por causa do custo político de fazê-lo, e especialmente nesse momento. Resta, então, fazer crescer o PIB.

Como o governo tem se mostrado absolutamente incompetente nesse quesito, a única opção (política, não prática ou econômica) é vir a público e tentar convencer as pessoas que sim, elas podem melhorar sua qualidade de vida sem, necessariamente, que a economia cresça.

É uma mentira tão tosca que só mesmo sendo “companheiro” para aceitá-la (e sei que haverá quem não apenas a aceitará, como a apoiará e a defenderá com unhas e dentes, ai de mim). O chato para essas pessoas é que apoiar uma mentira política pode até surtir efeito - com o tempo, elas podem até passarem a ser vistas como verdade por muitos.

Mas mentiras econômicas não funcionam assim; elas são destroçadas pelos números e pisoteadas pela realidade do dia a dia das pessoas, por mais que sejam repetidas e entoadas em cânticos de apoio.

Querer esconder o resultado pífio do PIB com uma retórica tão rasa quanto essa, defendendo que nem só dele depende o avanço da economia, chega a ser ofensivo a qualquer inteligência mediana.

Não há como melhorar nada sem recursos. Não há como gerar recursos a não ser com o crescimento econômico - ou seja, do PIB. Ponto. Qualquer argumentação fora dessa simples equação não passará de discurso vazio.

Claro, se houvesse menos corrupção, mais gestão e menos loteamento de cargos públicos, se se gastasse melhor o que se tem, se o governo não se apropriasse de fundos, contribuições e outros penduricalhos que pagamos além dos impostos, mas que são sossegadamente desviados para pagar suas próprias dívidas (que não param de crescer, entre outras coisas porque a máquina pública não para de inchar), até se poderia chegar a uma melhoria sensível na qualidade dos serviços públicos sem, necessariamente, que o PIB precisasse crescer na mesma proporção. Mas disso, naturalmente, todos os governos se esquecem.

Ou talvez se pudesse agir por outro lado - estimulando a poupança interna e diminuindo a carga tributária, por exemplo - coisas que permitiriam direcionar recursos para melhorar a infraestrutura e, vejam que coisa, fazer crescer a economia. Mas disso também todos os governos se esquecem.

O que temos, no fim das contas, são governos que gastam demais onde não devem, gastam de menos (e pessimamente) onde deveriam, se escondem atrás de desculpas a cada dia mais esfarrapadas e se fingem de indignados quando o caldo entorna.

Tudo somado, melhor faria a presidente em não ter dito nada. Se bem que, na realidade, ela não disse mesmo.