Publicado 12 de Agosto de 2013 - 5h00

antonio contente

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antonio contente

De repente, me fiz a pergunta que está no título desta crônica. E murmurei a inquirição num lugar que se tornou corriqueiro pelas graças da alta tecnologia, porém nem por isso deixou de ser mágico. É que me encontrava a 40 mil pés distante do solo, a bordo de um jato que me levava de Viracopos para Belém do Pará. Era de madrugada, passava de 1 hora.

Bom, mas tudo começou antes, quando ainda estava em terra. Como viajo com frequência, cumpro certa liturgia sempre que chego aos aeroportos. Após o check-in em geral busco a lanchonete para comer algo, pois os amendoins que dão nos voos capricham em ser deprimentes. Depois, busco a livraria para achar algo que possa ler a bordo. Se o percurso fosse direto, sem conexão, em cerca de quatro horas no ar estaria chegando ao destino, na rota que ora narro. Mas esperas para trocas de aeronaves, nesses esculhambados aeroportos brasileiros, podem transformar o tempo acima citado no dobro ou até mais. Quase uma travessia do Atlântico. Daí a necessidade de ter em mãos algo para ler na poltrona apertada.

Mal entrei na loja meu olho foi em cima de um volume. Primeiro pela capa, depois pelo título, “Cores de Outono”. O nome da autora, Keila Gon, que eu não conhecia, só passou a ter importância depois, quando iniciei a leitura.

Você pode falar de um livro levado por vários motivos. Acha-lo bom ou ruim são dois deles, mas nem só a isso a leitura de um romance, que é o caso em questão, pode levar. Por estar sendo, aos poucos, tomado pela história, comecei a perceber que tinha nas mãos uma narrativa que, escrita em inglês e sendo lançada nos Estados Unidos ou Inglaterra, teria tudo para se transformar, quem sabe, num best-seller. “Cores do Outono” estava a me revelar o enredo clássico de uma heroína que se apaixona perdidamente pelo mocinho, num cenário de montanhas. Ao longo da narrativa há fantasias à vontade, num cenário de magias e mistérios que mostram até gnomos e elfos. Desta forma acabei por tornar minha viagem de mais de seis horas em algo bastante aceitável. E por fim, devorado o livro com quase 500 páginas, me fiz a pergunta: e se Keila tivesse escrito essa trama em inglês? Respondi me afirmando que poderia estar prestes a virar um filme daqueles com orçamentos astronômicos, com alguma estrelíssima a fazer o papel de Melissa e um galã de gabarito a encarnar o misterioso bonitão Vincent.

Mais de dois meses depois, estou de volta a Campinas. Num começo de noite, ao entrar na Livraria Saraiva, no Shopping Iguatemi, fui informado que ocorria naquele instante, lá, um bate papo com escritores. Quis saber os nomes dos presentes; quando falaram em Keila Gon, fiquei realmente curioso. O adormecido espírito de repórter de repente acordou, e me deu vontade de conversar com ela se, naturalmente, houvesse concordância. E houve, pois a nova autora, em suas constantes vindas à Campinas onde mora a sogra, leu várias coisas minhas neste Correio; e sentamos para um café.

Para começo de conversa fiquei surpreso com a capacidade de trabalho da autora, pois escreveu o volumoso “Cores do Outono” em apenas três meses, e tem pronto o segundo volume da saga, “Sombras da Primavera”, do mesmo tamanho. No dia em que falamos já começara a traçar a trama do terceiro tomo, “Luzes de Inverno”, que espera concluir até o fim do ano.

E com essa ágil inspiração para armar suas tramas, Keila, uma linda moça que mora em São José dos Campos, ainda ajuda a filha nas tarefas escolares, cumpre rotina de dona de casa com atenção a marido, problemas com empregadas, supermercados etc.

— Sabe? — Olhou nos meus óculos — Nesse primeiro volume da trilogia, cheguei a escrever alguns capítulos do final do livro quando ainda trabalhava nos primeiros...

E antes de terminar o nosso cafezinho ainda fiquei sabendo que Keila tem em José de Alencar, Jane Austen, Gaston Leroux e Collen Houck alguns dos autores que, de uma forma ou de outra, influenciaram e influenciam sua ação de escritora. A última das citadas, Collen, por escrever em inglês, tem sua “saga dos tigres”, com quatro volumes publicados, a percorrer o mundo. A nossa brasileirinha, ainda só em português, corre por fora. E se alguém ficar admirado se sua primeira história ora nas livrarias um dia chegar às telas com Angelina Jolie e Brad Pitt, certamente o surpreendido não serei eu...