Publicado 09 de Agosto de 2013 - 18h30

ALBERTO DINES

Cedoc/ RAC

ALBERTO DINES

Sucedem-se mesas-redondas, seminários, pesquisas e debates sobre as jornadas juninas. Já em meados de agosto — em plena temporada de lembranças e presságios — continuamos na estaca zero. Perplexos, tal como antes. Fenômeno identificado, visível para alguns, mas o elenco-alvo, motivador do levante, continua distraído, conjugando os verbos no passado, desatento a gerúndios, incapaz de perceber andamentos e continuidade.

O pretexto foi uma questão relativa à mobilidade urbana — aumento das tarifas do transporte público — mas no hipertexto piscava a advertência da i-mo-bi-li-da-de. As ruas se mexeram irritadas com um script eleitoral antecipado, previsível e frustrante, independente dos resultados. Foi um movimento de impaciência, desabafo contra a reprise anunciada, um basta ! preventivo contra o filme que entraria em cartaz, sabidamente sem gosto, maçante.

A empolgação das manifestações foi uma resposta direta à desempolgação reinante. Como já constatado, as respostas dos poderes vieram atrasadas, gaguejadas, irrefletidas e incompletas.

À presidente Dilma foi oferecida a oportunidade de esquecer por ora a candidatura e retornar à chefia do governo, os marqueteiros e os militantes não deixaram. Afinal vivem de eleições. Resultado: a presidente percorre o País com uma agenda de insignificâncias como se nos bastidores um batalhão de operadores altamente qualificados e ágeis, estivesse finalizando as inovadoras respostas ao clamor das passeatas.

Um país que se pretende jovem quer sonhar, experimentar, rever dogmas, sobretudo, palavras de ordem. Quer participar. O papa Francisco conclamou-o a ir às ruas. A sociedade precocemente desnorteada, prefere fingir-se atenta.

Examinadas com o viés de agosto, as jornadas juninas são mais preocupantes do que foram no seu momento. Não evaporaram, a hipótese de fadiga não se consumou, continuam pipocando, renitentes. O banho-maria que se seguiu ao destampe da panela deve pressurizá-la novamente.

A espontânea rebelião contra partidos desossados e desatualizados agora voltará contra a rede de corporativismos que está se impondo progressivamente a um Estado fragilizado, incapaz de cuidar do bem comum.

Médicos não querem mais médicos, associações de juízes querem manter os patrocínios de interesses privados nos eventos, senadores não querem perder seus dois suplentes, em troca de migalhas a justiça eleitoral quase destroçou a privacidade de todo o eleitorado. Se a conjuntura é desfavorável para projetos galvanizadores, se os maus costumes resistem aos bons princípios, a compulsão varejista das campanhas eleitorais tornará tudo ainda mais fluido e fragmentário.

Em pleno agosto o memorável junho tem algo de incômodo. Mesmo diante da inexorável aproximação de setembro. Primaveras, ultimamente, além de flores, trazem sustos.