Publicado 25 de Agosto de 2013 - 5h00

Nós fizemos a revolução sexual mas não fizemos a revolução sentimental. Continuamos presos a um modelo arcaico de maternidade, que subjuga a mulher negando a ela a possibilidade de se expressar livremente

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Nós fizemos a revolução sexual mas não fizemos a revolução sentimental. Continuamos presos a um modelo arcaico de maternidade, que subjuga a mulher negando a ela a possibilidade de se expressar livremente

Ninguém ensina a ser mãe. Por mais que se tente seguir modelos, quem vive a experiência da maternidade sabe melhor que ninguém que não há regras. Elas são quebradas a todo o instante, pois cada “serzinho” que chega a este mundo é único e tem suas necessidades em momentos que não são pré-estabelecidos. Com isso em mente, Betty Milan, médica, psicanalista e escritora, expõe em seu mais recente livro Carta ao Filho, sua incursão pessoal e libertadora: para ser boa mãe, a única regra é a escuta do filho.

Ela prega a quebra do tabu de que a mãe tem de ser infalível e enfatiza: “fizemos a revolução sexual mas não a sentimental”. Segundo ela, as mulheres aprenderam a reconhecer e exercer seu desejo, mas ainda se debatem entre modelos de maternidade. A mãe santa, puro sacrifício pelo filho. A boa mãe, que tudo aceita e nada limita. A que se anula e perde tudo o que foi conquistado pelas mulheres na sociedade. Ou a que insiste na liberdade sexual, mas vive envolta em culpa e segredo. São inúmeros os exemplos, de acordo com Betty.

A ideia do livro surgiu de um desentendimento que a autora teve com o filho e da necessidade de entender o que estava acontecendo. “Graças à escrita, fiz várias descobertas, me tornei mais independente e dei a ele mais liberdade.”

Betty Milan é filha de franceses, mas paulistana. Autora de romances, ensaios, crônicas e peças de teatro, suas obras também foram publicadas na França, Argentina e China. Colaborou nos principais jornais brasileiros e foi colunista da Folha de

S. Paulo e da Veja. Trabalhou para o Parlamento Internacional dos Escritores, sediado em Estrasburgo, na França. Antes de se tornar escritora, formou-se em medicina pela Universidade de São Paulo (USP) e especializou-se em psicanálise na França com Jacques Lacan.

Em entrevista à Metrópole, Betty, que já ministrou aulas no Departamento de Psiquiatria da Universidade de Campinas (Unicamp), afirma que o apego à função materna falseia o julgamento a ponto de a mãe considerar ingrato o filho que se separa dela, mesmo que isso ocorra já na fase adulta. “A mãe um dia é obrigada a dizer ao filho: ‘Vai, Vai em direção a você mesmo’. Isso significa abrir mão da presença e pode ser sofrido. Foi este sofrimento que deu origem a uma das músicas mais bonitas dos Beatles: She’s leaving home (Ela está deixando o lar)”.

Metrópole - A senhora acha que as mulheres de hoje ainda se debatem entre modelos de maternidade? Se sim, por que isso ocorre?

Betty Milan - Nós fizemos a revolução sexual mas não fizemos a revolução sentimental.

Continuamos presos a um modelo arcaico de maternidade, que subjuga a mulher negando a ela a possibilidade de se expressar livremente. Carta ao Filho nasceu de um desejo de liberação, que era meu e também do meu filho. Ambos queríamos uma relação nova, fundada na escuta.

A senhora afirma que ninguém ensina a ser mãe e que a maternidade é, na verdade, a escuta do filho. Mas isso não é muito vago para uma mãe de primeira viagem, por exemplo?

A cada vez que uma mulher se torna mãe, ela é “marinheiro de primeira viagem”. Não sabe que filho pôs no mundo e como deve se comportar. Porque cada um é um.

Existem as regras básicas para cuidar que o pediatra transmite, mas desde o começo é preciso atentar para o filho observando e escutando. Do contrário, a mãe tende a proceder de forma rígida e contrariar a natureza da criança.

Na sua opinião, qual fase da maternidade é a mais difícil: os primeiros cuidados, os desafios da formação/educação ou o momento da entrega do filho ao mundo?

Nenhum momento é fácil. Conto no meu livro o quão dificil foi aceitar a amamentação e o quão apaixonada eu fiquei depois pelo bebê. O fenômeno do estranhamento é muito comum. A formação é um outro momento em que os pais tem que ser maneiros para não impor o próprio desejo negligenciando o do filho. Nada é pior do que o espelhamento, que resulta do narcisismo. Por fim, a mãe um dia é obrigada a dizer ao filho: “Vai, Vai em direção a você mesmo”. Isso significa abrir mão da presença e pode ser sofrido. Foi este sofrimento que deu origem a uma das músicas mais bonitas dos Beatles: She’s leaving home.

O que a levou a escrever sobre esse tema?

Um desentendimento com meu filho e a necessidade de entender o que estava acontecendo. Graças à escrita, fiz várias descobertas, me tornei mais independente e dei a ele mais liberdade. O simples fato de escrever tem um efeito esclarecedor.

Antes de se tornar escritora, a senhora formou-se em medicina e especializou-se em psicanálise, o que a levou a escrever?

Escrevo desde sempre. Se não fosse a pressão da familia, teria feito letras. Mas ser uma profissional liberal era um imperativo que eu não podia contrariar. Numa família de imigrantes, o que se espera da terceira geração é, no minimo, o diploma de profissional liberal.

O que faz para ter inspiração e criar os seus livros?

O tema se impõe. Depois, para escrever o livro ou a peça de teatro eu me debruço sobre o tema e faço várias tentativas até considerar que encontrei o caminho.

Daí eu enveredo pelo caminho. Terminado o texto eu reescrevo tantas vezes quantas eu preciso para considerar que não há mais nada a fazer. Ou seja, que eu fiz o máximo que podia.