Publicado 25 de Agosto de 2013 - 5h00

Preparação do Jantar no Escuro envolve treinamento da equipe do restaurante por funcionários da Pró-Visão, entidade que atende pessoas cegas e com baixa visão em Campinas

Cedoc/RAC

Preparação do Jantar no Escuro envolve treinamento da equipe do restaurante por funcionários da Pró-Visão, entidade que atende pessoas cegas e com baixa visão em Campinas

Num jantar em que o outro é seu par, diferenças se esvaem, inclui-se. Sem qualquer referência do menu a ser apreciado, num ambiente completamente às escuras, o que importa é experimentar o novo, atentar-se a texturas, aromas, sabores e temperaturas, e dividir o aprendizado à mesa. Por iniciativa da Pró-Visão – Sociedade Campineira de Atendimento ao Deficiente Visual, cerca de 40 convidados se renderão à experiência na noite de amanhã, durante a segunda edição do Jantar no Escuro, acolhido na adega subterrânea do hotel Royal Palm Plaza Resort (Cave do Douro), parceiro da empreitada.

A primeira edição, realizada no mesmo local e época, no ano passado, integrou as comemorações dos 30 anos da entidade. “Mantivemos a proposta e o formato do evento a fim de propiciar conforto aos convidados. E, felizmente, vendemos todos os ingressos (R$ 200 cada), cuja renda será totalmente revertida à instituição. Houve muita procura desde 2012”, comemora a psicóloga e gerente operacional da Pró-Visão Marina von Zuben, organizadora do jantar.

Daniel Valay, chef do Royal Palm Plaza: Em cada prato, o que proponho é a combinação de sabores e texturas, uma brincadeira com os sentidos

Couberam ao chef executivo do Royal Palm Plaza, Daniel Valay, a concepção do menu especial e a coordenação da brigada, ávida por tornar a vivenciar a experiência. “Ele se mostrou absolutamente encantado e os garçons do hotel nos agradeceram muito pela oportunidade de fazer parte dessa proposta. A ideia de experimentar o mundo de uma maneira nova, com a privação de um dos sentidos, é algo que enternece as pessoas. É um evento de gastronomia e também uma chance de aprendizado.”

A ideia deu tão certo que passou a integrar o calendário gastronômico da cidade. A expectativa é que um segundo evento, mais abrangente e, de certa maneira, complementar ao Jantar no Escuro, seja promovido pela Pró-Visão a partir do ano que vem. “Estudamos a realização de outro projeto, também atrelado à gastronomia, mas de viés mais científico, voltado ao atendimento de pessoas com deficiência visual. Nossa ideia é atender à demanda de tantos cidadãos da região que se mostraram interessados em nosso trabalho”, adianta Marina.

Combinação de sabores

Sem informar o cardápio, claro, o chef situa que lançará mão de ingredientes nem assim tão óbvios para que os comensais se sintam instigados. “De novo, desafio lançado e eu completamente feliz e envolvido. Serão quatro partidas, devidamente harmonizadas. Em cada prato, o que proponho é a combinação de sabores e texturas, uma brincadeira com os sentidos. Por isso escolhi produtos, ervas e temperos diferentes. Quero que as pessoas descubram o que estão provando”, conta. Se desejarem, findo o jantar, os convidados poderão ir até a cozinha central, onde os pratos serão preparados, para conferir as montagens, algo que atiça a curiosidade durante a prova, e os ingredientes empregados pelo chef. “No escuro, é como se imaginássemos a cena de um quadro que foi pintado e descrito. Ao vê-lo, sempre é uma surpresa”, observa Valay.

 

Foto: Cedoc/RAC

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Daniel Valay, chef do Royal Palm Plaza: Em cada prato, o que proponho é a combinação de sabores e texturas, uma brincadeira com os sentidos

Como funciona

Assim que chegam à Cave do Douro, completamente vedada à luz, os convidados recebem uma venda, que não deve ser retirada até o final do evento, a fim de preservar o “fator surpresa”. O comensal, então, é conduzido ao seu lugar por membros da Pró-Visão e deficientes visuais, guias máximos da incursão.

Tal ocorreu no ano passado, a equipe que realizará o serviço foi treinada por membros da entidade, semanas atrás. “Os garçons usam lanternas fixas à cabeça somente quando é necessário para atender aos comensais”, pontua o chef. Durante boa parte do jantar, a voz, bem pronunciada, torna-se a ponte entre quem divide a mesa e quem quer que se aproxime dela.

 

Sobre a Pró-Visão

Fundada há 31 anos pela professora Teresinha de Arruda Serra von Zuben, a Pró-Visão é uma entidade sem fins lucrativos que atende hoje, de forma regular e gratuitamente, cerca de 60 crianças e 40 adultos de Campinas e de municípios vizinhos, a maioria oriunda de famílias carentes, além de adolescentes, adultos e idosos cegos ou com baixa visão. O trabalho desenvolvido pela instituição compreende projetos de inclusão digital, alfabetização em Braille, estimulação sensório-motora, e atividades referentes a alimentação, higiene pessoal, saúde, vestuário e esporte, entre outras, por meio de uma equipe profissional multidisciplinar. Saiba mais em www.provisao.org.br.