Publicado 11 de Agosto de 2013 - 5h00

'As limitações motora, cognitiva e sensorial existem, mas, na arte do corpo e do contato com a música, só vemos a leveza e o desenvolvimento de cada aluno a seu modo e em seu tempo'

Dominique Torquato/AAN

'As limitações motora, cognitiva e sensorial existem, mas, na arte do corpo e do contato com a música, só vemos a leveza e o desenvolvimento de cada aluno a seu modo e em seu tempo'

A dança é a atividade eleita pela pedagoga e bailarina Keyla Ferrari para integrar crianças e jovens portadores de necessidades especiais à sociedade. Diretora e uma das fundadoras do Centro de Dança Integrada (Cedai), organização não-governamental (ONG) que funciona há 11 anos em Campinas, ela ministra aulas para esse público e se dedica a projetos como o que coloca as mães para bailar com eles. Também tem levado sua companhia de dança para apresentações em outras cidades e, para outubro, está prevista a participação no Teleton, programa de televisão que é parte de uma campanha para arrecadação de fundos para a Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD).

Ela revela que, desde a infância, gostava de assistir aos surdos usando as mãos para se comunicar. Já na adolescência, quando fazia aulas de balé clássico e dança contemporânea, sentia que lhe faltava algo. “Ganhei uma bolsa de estudos em Londres e lá me encantei ao ver uma bailarina em cadeira de rodas. Voltei e, por coincidência, a mãe de um garoto surdo me procurou para dar aulas de expressão corporal a ele. Vieram outros alunos e não parei mais”, relata.

Em entrevista à Metrópole, Keyla, que é especialista em educação especial pela Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa e mestre em atividade motora adaptada pela Faculdade de Educação Física da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), explica o que é a dança integrada, lista seus benefícios e fala da falta de apoio a iniciativas que favorecem a arte e a integração social.

Metrópole – Como funciona a dança integrada?

Keyla Ferrari – O trabalho é de dentro para fora, fruto da sintonia entre os participantes e suas possibilidades. Procuro ver o que eles fazem, suas expressões, suas preferências e, acima de tudo, o prazer em dançar. As limitações motora, cognitiva e sensorial existem, mas, na arte do corpo e do contato com a música, só vemos a leveza e o desenvolvimento de cada aluno a seu modo e em seu tempo. Unimos pessoas com e sem deficiência nas aulas. Temos mães que dançam com seus filhos e partimos das experiências de cada um para elaborar as coreografias.

Quais são os benefícios da atividade para portadores de necessidades especiais?

A arte, em geral, é bastante benéfica. Em relação à dança, acredito que não existe vida nem educação sem corpo, pois um trabalho corporal bem elaborado e sensível favorece o encontro da pessoa consigo e com o outro. Muitos indivíduos com deficiência foram e ainda são privados de atividades artísticas. Já vi casos de escolas de arte que não aceitam portadores de determinadas deficiências, às vezes até por não terem uma equipe preparada nem acessibilidade. Já vi também mães pararem de cantar para seus filhos quando descobrem que eles são surdos. A dança resgata esse embalar da primeira infância, o toque e a autoestima, e apresenta para a sociedade uma visão diferenciada da pessoa com deficiência e das famílias, muitas vezes discriminadas e encaradas com receio e impaciência pelos leigos. No palco, todos são artistas. Há outro olhar do espectador para o dançarino com deficiência que predomina sobre o preconceito e o sentimento de piedade.

Quais são os principais ritmos que você trabalha com seus alunos?

Trabalhamos dança contemporânea e com a técnica americana adaptada do contato e da improvisação, por ser mais ampla e poder ser feita por pessoas de qualquer idade, independentemente de limitações físicas. Também temos aulas de sapateado americano para auxiliar na coordenação motora, no ritmo e no equilíbrio de jovens com Síndrome de Down. Utilizo ainda a técnica do balé clássico para esses jovens e suas mães, principalmente se vemos alunos com interesse e aptidão. Nossas coreografias são personalizadas, com cada um a seu tempo e de acordo com sua potencialidade. Com isso, uns ajudam aos outros.

O que te levou a incluir nos encontros as mães das crianças e dos jovens atendidos?

Vejo que várias delas dedicam mais tempo aos filhos do que a si mesmas e abrem mão de muitas coisas. Penso que esse resgate da mulher, da mãe, da artista e da protagonista é importantíssimo. Além disso, elas ajudam bastante no trabalho, porque conhecem o corpo dos seus filhos, suas preferências, seus gestos e olhares melhor do que eu ou qualquer profissional. Elas são as que mais sabem como é essa comunicação silenciosa.

Quantas pessoas são atendidas no Cedai atualmente?

São cerca de 70 pessoas, considerando que, além da ONG, atuamos em outras entidades, principalmente quando temos patrocínio.

Quais são os projetos desenvolvidos? E os espetáculos apresentados em Campinas e em outras cidades?

Já realizamos mais de 35 coreografias e cinco grandes espetáculos. Também montamos a Cia de Dança Humaniza, para dar maior visibilidade ao projeto e autossustentabilidade aos dançarinos. É uma iniciativa arrojada e, quando somos contratados, todos ganham cachê. Normalmente, nos apresentamos em escolas, teatros e congressos de educação. Para montar essa pequena companhia, com oito artistas, foi necessária uma seleção, pois um grupo numeroso dificultava as contratações por conta da necessidade de transporte especial e quartos adaptados. Elencamos os alunos maiores de idade, que estão conosco há mais tempo e cujas mães têm mais disponibilidade de horários. Em dezembro, dançamos no Memorial da América Latina, em São Paulo, e recentemente fomos ao Rio de Janeiro e nos apresentamos para o coreógrafo Carlinhos de Jesus. Semana passada, fizemos uma pequena apresentação para Dedé Santana, em Limeira.

Como são montadas as coreografias e confeccionado o figurino?

As coreografias são elaboradas de acordo com as histórias de vida dos participantes. Procuramos fazer algo simples, leve e poético, que transmita uma mensagem positiva. Estamos com um espetáculo chamado Vanessa Asas da Transcendência, com poesias de Vicente Pironti. Temos também outras montagens, como A Flor É Espelho Refletindo o Amor e Alma Bailarina. Nosso figurino é simples porque entendo que a roupa não deve chamar mais a atenção do que o artista na sua essência e também pela falta de verba para trocarmos as peças frequentemente.

Quais são as principais dificuldades enfrentadas para levar o trabalho adiante?

Elas sempre foram financeiras. Se houvesse mais apoio, certamente, teríamos mais profissionais contratados, mais dias de trabalho na semana e mais pessoas atendidas. Temos lista de espera e gente que quer vir, mas não tem condições ou transporte.