Publicado 22 de Agosto de 2013 - 15h29

Por Moara Semeghini

Recém-nascido de 22 dias da mãe, dentro do Tivoli Shopping, em Santa Bárbara d'Oeste

Arquivo Pessoal

Recém-nascido de 22 dias da mãe, dentro do Tivoli Shopping, em Santa Bárbara d'Oeste

Gabriel, o bebê de 23 dias raptado no shopping Tivoli de Santa Bárbara d´Oeste na noite de terça (20), foi encontrado pela Polícia Civil nesta quinta-feira (22) em uma casa de tarô no bairro Vila Maria. A sequestradora do bebê, conhecida como Márcia, e duas mulheres - todas ciganas da mesma família - que estavam na casa com Gabriel, foram presas. Márcia retirou o bebê do colo da mãe, uma adolescente de 15 anos, depois de dopá-la, e fugiu com a criança.

Foto: Álbum de Família

Bebê Gabriel, que foi roubado em shopping na cidade de Santa Bárbara d'Oeste

Bebê Gabriel, que foi roubado em shopping na cidade de Santa Bárbara d'Oeste

A polícia chegou ao local através da denúncia de um taxista que fazia corridas para Márcia. A delegada Olívia dos Santos Fonseca disse que o Setor de Investigações Gerais chegou à casa e constatou que havia um bebê. Ao entrar na residência ela pediu a certidão de nascimento da criança e as mulheres não tinham, segundo a delegada. As acusadas também não souberam responder a nenhuma pergunta feita pela polícia.

O bebê e as acusadas chegaram à delegacia por volta das 16h30. Uma hora depois a avó paterna de Gabriel, Solange Cristina Brabosa, de 34 anos, chegou ao local e reconheceu Gabriel. Ela chegou acompanhada do pai da criança, Igor Felipe Barbosa, de 18 anos e seu irmão (filho de Solange), de 9 anos.

A mãe do bebê, de 15 anos, participava de uma entrevista para uma emissora de televisão em Campinas, chegou à delegacia por volta das 19h e confirmou que a criança encontrada era mesmo seu filho.

Foto: Elcio Alves/AAN

Policial carrega o bebê Gabriel até a delegacia, após ação que o localizou em uma casa, com três mulheres, em Santa Bárbara

Policial carrega o bebê Gabriel até a delegacia, após ação que o localizou em uma casa, com três mulheres, em Santa Bárbara

Uma das mulheres presas – a que aparece ao lado da sequestradora no vídeo do sistema monitoramento de rua na noite de terça-feira (20) – confessou o rapto do recém-nascido.

Um médico pediatra chegou ao local para avaliar o estado de saúde de Gabriel, que nasceu com uma doença cardíaca. Ele tem um problema na válvula do coração e precisa tomar remédio todos os dias.

O taxista

Há cerca de um mês, o taxista Fernando Cassiano, de 30 anos, que fez a denúncia teria feito uma viagem com a cartomante e uma menina grávida. Ele procurou a polícia depois de reconhecer o jeito de andar da sequestradora no vídeo divulgada pela imprensa em que ela aparecia com o bebê, assim que saiu do shopping.

A sequestradora também teria sido reconhecida nesta tarde por um outro taxista, que levou as duas mulheres e um bebê com as características de Gabriel até a frente do Pronto-Socorro Afonso Ramos. De lá, segundo relatou à Polícia em depoimento na quarta-feira (21), elas pegariam um ônibus para Americana.

O caso

O recém-nascido de 22 dias foi roubado da mãe, uma adolescente de 15 anos dentro do Shopping Tivoli, em Santa Bárbara d’Oeste, na noite de terça-feira (20). Segundo a polícia, a adolescente teria sido dopada com uma substância ainda não identificada, colocada no suco da vítima por uma mulher que se aproximou da família durante a gravidez, afirmando ser de uma organização não governamental (ONG).

A ladra, que sempre usava peruca, lentes de contato verdes e muita maquiagem, com o argumento de que tinha câncer, tem entre 30 e 35 anos de idade. O pai da criança, o calheiro Igor Felipe Barbosa, de 18 anos, e a avó paterna, a coordenadora Solange Cristina Barbosa, de 34 anos, afirmam que só souberam da existência desta 'amiga' na data do crime. A adolescente mora com uma tutora legal na Vila Pântano, já que a mãe está presa desde março por tráfico de drogas.

Segundo os familiares, a mulher, que se identificou como Márcia, se aproximou da jovem no 5º mês de gestação dizendo que trabalhava em uma ONG de apoio a jovens grávidas e que iria ajudá-la.

Ela chegou a pagar um ultrassom no 7º mês, mas nunca entregou o exame para a mãe. Também doou uma cômoda e prometeu dar uma máquina de lavar. “Elas se viram apenas três vezes, mas a Márcia ligava todos os dias para saber quando o bebê iria nascer e depois perguntava se ele era bonitinho”, conta Barbosa.

“Meu filho tem um problema na válvula do coração e precisa tomar remédio todos os dias para o sangue não voltar para o coração. Se ele não tomar o medicamento corre risco de vida.” O bebê Gabriel nasceu com doença cardíaca.

Na tarde de terça-feira, a avó paterna foi visitar Gabriel e encontrou a nora se aprontando para ir com Márcia até Americana, com a promessa de uma consulta em um cardiologista.

“Vi que ela estava de lente e peruca. Desconfiei e decidi ir junto de ônibus”, disse Solange. “Lá na clínica ela nos enrolou que a consulta foi desmarcada. Pagou o táxi para voltar e ofereceu para pagar um lanche no shopping onde eu trabalho.”

Praça de alimentação onde bebê foi levado da mãe A adolescente, a suposta ladra e um filho de Solange de 9 anos sentaram na praça de alimentação para lanchar. O garoto afirma que Márcia usou um boné que estava sobre a mesa para disfarçar, pegou algo na bolsa, despejou no copo da adolescente e mexeu.

Após beber o líquido, a vítima teria começado a passar mal e foi levada ao banheiro para lavar o rosto, acreditando estar com a pressão baixa.

“A Márcia disse que ia comprar uma pipoca para ela melhorar. Saiu com o bebê e deu R$ 9 para meu filho jogar fliperama”, contou o marido de Solange, o ajudante de produção Alex Sandro de Camargo, de 34 anos. “Minha esposa viu a nora perambulando pela praça sozinha, passando mal, e perguntou pelo Gabriel. Foi aí que percebeu o roubo.”

Imagens

O Shopping Tivoli registou imagens de todos chegando juntos às 19h08 e depois da suspeita deixando o local apenas com o bebê, às 19h42.

A filmagem foi cedida à polícia, mas não foi suficiente para identificar a suspeita, que andou com a cabeça baixa e tapou o rosto com a mão.

A adolescente passou a noite internada no Pronto-Socorro Afonso Ramos e na manhã desta quarta-feira (21) foi levada para colher exame de sangue no Instituto Médico Legal.

De acordo com a Polícia Civil ela estava com a capacidade psicomotora alterada, mas apenas o laudo, que sai em 30 dias, poderá dizer qual substância foi usada para dopá-la.

As imagens do bebê foram divulgadas a pedido da família e constam no Facebook para facilitar o reconhecimento da criança.

Investigação

O roubo do bebê Gabriel é investigado pela Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Santa Bárbara com o apoio da Delegacia de Investigações Gerais (DIG) de Americana. A delegada da DDM, Olívia dos Santos Fonseca, disse nesta quarta-feira (21) que recebeu denúncias anônimas e imagens de uma empresa próxima ao shopping, que mostra uma segunda mulher acompanhando a suspeita de levar a criança.

Foram ouvidos os depoimentos de cinco pessoas ontem, inclusive de um taxista que pegou duas mulheres com um bebê na frente do Pronto-Socorro Afonso Ramos e as levou até o Centro da cidade, onde elas pegariam um ônibus para Americana. A bolsa da criança também foi encontrada jogada na rua lateral do shopping. “A filmagem é de 15 minutos após a saída do shopping e mostra que a suspeita trocou de calça e seria loira, com cabelos até a cintura”, informou a delegada. “Uma outra mulher a acompanha e elas dispensam a bolsa. Mas as imagens não são nítidas.”

A polícia ouvi nesta quinta-feira (22) novos depoimentos dos familiares, além de uma mulher de um bar próximo ao local que teria indicado o táxi para as suspeitas e a atendente da lanchonete do shopping. “Vamos tentar um retrato falado”, disse. “Mas pedimos que a população colabore com informações.”

A delegada ouviu ainda a mãe da adolescente, que está presa, mas não acredita que haja ligação com o caso. “É prematuro dizer que se trata de tráfico de pessoas. Não sabemos se a criança foi roubada para um lar substituto ou para a própria suspeita, que segundo declarações falava pelo celular em outra língua, que as vítimas não sabem dizer qual é”, explicou. “O que sabemos é que foi tudo muito bem organizado e planejado há bastante tempo. Ela sempre pagou tudo com dinheiro, nunca passou cartão.”

Escrito por:

Moara Semeghini