Publicado 11 de Agosto de 2013 - 9h21

Por Rogério Verzignasse

Aldo foi mensageiro em 1932 e morreu durante bombardeio do governo federal: pouca gente conhece sua história na escola onde quadro foi fixado

César Rodrigues/AAN

Aldo foi mensageiro em 1932 e morreu durante bombardeio do governo federal: pouca gente conhece sua história na escola onde quadro foi fixado

Quem entra pelo portão da Rua Bernardino de Campos e sobe a imponente escadaria de mármore fica impressionado com a fachada monumental. O prédio de estilo eclético — com detalhes em Art Noveau — encanta os amantes da arquitetura. Mas a Escola Estadual Orosimbo Maia, em Campinas (que começou a ser construída há exatos cem anos), também guarda um acervo histórico desconhecido e inexplorado.

O próprio saguão de entrada, por exemplo, é decorado com um retrato magnífico, raro, de Aldo Chioratto, ex-aluno da escola, herói campineiro na Revolução Constitucionalista de 1932. Escoteiro, o menino de 9 anos era mensageiro das tropas rebeladas. No dia 18 de setembro de 1932, ele entregava uma correspondência em uma residência próxima da estação ferroviária, quando foi morto pelos estilhaços de uma bomba lançada por aviões do governo federal.

Na ocasião, o corpo do menino foi sepultado pelos parentes no Cemitério da Saudade, sem qualquer homenagem. Mas, três décadas depois, a Sociedade Veteranos de 32-MMDC, reconhecendo o garoto como herói do movimento revolucionário, requisitou a transferência dos restos mortais para o mausoléu dos ex-combatentes, no Parque do Ibirapuera. Os despojos foram retirados do túmulo em julho de 1966, velados na Câmara e levados a São Paulo.

Aldo nasceu em Campinas no dia 5 de outubro de 1922. Segundo o Chico Marcondes, um dos principais historiadores do conflito, o garoto fazia parte do Grupo Escoteiro Ubirajara e era mesmo aluno do Grupo Escolar Orosimbo Maia. Durante a revolução, os meninos integravam a Cruzada Escoteira Pró-Constituição, e foram incorporados às tropas revolucionárias de São Paulo.

O reconhecimento posterior levou antigos diretores da escola a afixarem o retrato colorido no saguão de entrada. O menino tem cabelos repartidos, olhos castanhos, bochechas rosadas. Veste um uniforme branco com detalhes azuis, e lenço amarrado ao pescoço. Ninguém sabe a quem pertencia o quadro, nem quando ele foi doado à escola.

O mais curioso, no entanto, é que a maioria dos alunos antigos (e boa parte dos professores) nem imagina quem está retratado. Sob a moldura, só existe uma placa de bronze com uma mensagem em relevo: “O pequeno herói morto por uma das bombas criminosas, lançadas pela ditadura sobre a cidade”. Não há nome algum.

O patrimônio, na verdade, foi mostrado à reportagem pela educadora Ana Lúcia Jacobsem C, de 42 anos de idade, que ingressou na escola como professora de português e, há dois anos e meio, é vice-diretora. Para ela, o retrato na parede, ignorado até por muitos historiadores da cidade, comprova que a própria escola, tombada, é desvalorizado pela comunidade. .

Por conta disso, a diretoria atual começa a trabalhar pelo resgate da história da escola. Não existem recursos, nem especialistas contratados. Os próprios professores e diretores vão se dedicar à identificação, à recuperação e à preservação de um acervo belíssimo, esquecido em gavetas ou prateleiras (leia texto nesta página).

Foto: César Rodrigues/AAN

A vice-diretora Ana Lúcia Jacobsen mostra livro antigo de ex-professores da Orosimbo Maia, com capa de madeira: arquivo em segundo plano

A vice-diretora Ana Lúcia Jacobsen mostra livro antigo de ex-professores da Orosimbo Maia, com capa de madeira: arquivo em segundo plano

O primeiro passo prático do programa é incluir no currículo escolar, durante o segundo semestre, aulas e eventos especiais alusivos ao herói mirim, e à importância da escola que nascia em um período marcante da história. Em seguida, a direção vai procurar parceiros (públicos ou privados) que possam orientar e financiar a recuperação do acerto histórico que corre o risco de desaparecer. “Houve sim, diretores antigos que se desfizeram de documentos, fotografias e móveis que eram considerados lixo”, fala a educadora. “Precisamos salvar o que resta, para que a escola ainda consiga cultuar a história de muitos alunos e professores que passaram por aqui.”

Escrito por:

Rogério Verzignasse