Publicado 11 de Agosto de 2013 - 8h42

Rodrigo Borges e sua mãe, Edna, ganham a vida recolhendo sucata às margens do trilho no Parque Residencial Shalon, em Campinas: segundo eles, é comum ver jovens se arriscando para se divertirem nos trens

Gustavo Tilio/Especial para a AAN

Rodrigo Borges e sua mãe, Edna, ganham a vida recolhendo sucata às margens do trilho no Parque Residencial Shalon, em Campinas: segundo eles, é comum ver jovens se arriscando para se divertirem nos trens

Sempre que o trem passa, toda a casa de Rosimeire Santos de Jesus treme. Não raro, a força chega a derrubar algum prato ou panela das prateleiras. A desempregada de 46 anos faz parte do grupo de seis famílias que ainda moram a menos de cinco metros dos trilhos da malha ferroviária que corta o Parque Residencial Shalon, em Campinas. E, diariamente, ela se arrisca pelo menos uma vez ao atravessar a linha, seja para procurar trabalho ou apenas para comprar pão.

“Eu já me acostumei com o treme-treme. O barulho foi mais difícil de ignorar. Mas agora os vagões passam só duas vezes, e durante o dia. Não acordo mais assustada”, explicou. O maior medo, na verdade, é que o filho de 9 anos atrevesse desatento a linha. O temor tem explicação nas estatísticas. Em uma semana, a região de Campinas teve uma morte e três pessoas com membros amputados em acidentes com trens, em Valinhos, Limeira, Hortolândia e Sumaré. No Shalon, uma adolescente de 15 anos foi encontrada com uma fratura de crânio na ferrovia em abril. O mesmo ponto ainda serve de passarela para diversos moradores que precisam chegar ao outro lado dos trilhos.

Rosimeire mora há 16 anos na residência de dois cômodos à beira da ferrovia. Como ela, dezenas de sem-teto invadiram a área entre a década de 80 e 90. Porém, a maior parte deles já foi realojada pelo poder público em casas de programas habitacionais. Sobraram poucos casebres na área que hoje é de responsabilidade da América Latina Logística (ALL), concessionária que administra a massa da extinta Ferrovia Paulista S.A. (Fepasa).

A promessa é que os apartamentos do Minha Casa, Minha Vida fiquem prontos até o final do ano, para que as famílias saiam de vez do local. “Mas não sei se quero morar naquelas casas apertadinhas não. Aqui pelo menos minha cozinha é grande. Dá para respirar”, disse.

O jovem Rodrigo Borges, de 20 anos, também mora em uma casa modesta na beira da ferrovia, como Rosimeire. Mas fica muito mais tempo nos trilhos do que ela: trabalha como catador de material reciclável na linha junto com a mãe, Edna Borges, 50 anos. Com uma filha de dois anos para sustentar, ele afirmou que chega a caminhar 10 horas por dia coletando cobre na malha ferroviária campineira. “O pessoal joga muito lixo no matagal perto dos trilhos. Todo dia tem mais sujeira”, contou.

O “surfe de trem” é a principal causa de tragédias nas ferrovias da cidade, segundo Borges, que tem a mesma rotina de trabalho desde pequeno. Na brincadeira perigosa, crianças e adolescentes ficam à espreita nos trilhos esperando o veículo. Quando o trem passa, eles se agarram e sobem nos vagões. A “graça”, de acordo com Borges, é se equilibrar, como se estivesse em uma prancha de surfe. “Tem moleque que fica em um ponto alto para se jogar em cima dos vagões. Eu não faço isso, não tenho coragem. Nem quando era mais novo. Já vi muito amigo se machucar. Dois morreram”, contou.

Selma Jesus Lima, 35 anos, abandonou a casa onde morava, na beira dos trilhos, com o marido e as quatro filhas, por medo de um acidente com as crianças. Hoje, ela e a família dividem uma casa de dois quartos com a sogra, em uma rua regularizada no Shalon. Mas a linha do trem ainda é motivo de aflição para a dona de casa. “As meninas ainda atravessam a ferrovia para ir à escola, pegar ônibus. Meu papel é instruir bem. Elas sabem que precisam prestar atenção, ouvir o barulho. Mas não é só o trem que me preocupa. Tem muito estupro e roubo perto dos trilhos”, contou. As filhas de Selma têm idades entre 2 e e 16 anos.

Também catador de material reciclável, o companheiro de Selma, Aparecido Pacheco de Abreu, 40 anos, disse que já salvou muitas pessoas bêbadas e drogadas de serem atropeladas pelo trem. “A noite, o que não falta é louco andando nos trilhos. Eles estão sempre alucinados, alguns estão tentando mesmo se matar. A cena é triste. Mas eu empurro, tiro eles de lá. Já até apanhei por causa disso”.

Má conservação e falta de barreiras piora situação 

Para especialistas, as tragédias nos trilhos revelam que há graves problemas na malha ferroviária. Além do mau estado de conservação de trilhos e dormentes, não existem barreiras adequadas que separem a zona urbana da linha férrea, nem passarelas suficientes para a população atravessar as áreas em segurança. Campanhas de conscientização sobre o perigo dos trens também são escassas. A ALL informou, por nota, que realiza constantes ações educativas para evitar acidentes na linha férrea. Uma delas é a “Campanha de Prevenção ao Surf Ferroviário”, além de blitze nos cruzamentos da ferrovia e palestras em escolas, “visando minimizar os riscos de acidentes envolvendo veículos, pedestres e trens”. As últimas campanhas na região de Sumaré e Hortolândia ocorreram no dia 22 de julho, de acordo com o texto. No Parque Residencial Shalon, a empresa informou que conserta frequentemente o muro que separa parte dos trilhos das casas. Segundo a ALL, os próprios moradores destroem a barreira. Sobre a sinalização na linha, a empresa disse que, de acordo o Regulamento dos Transportes Ferroviários, a manutenção e sinalização das passagens de nível “são de responsabilidade do executor da via mais recente”. A nota diz ainda “que realiza o reforço da sinalização passiva nas passagens de nível oficiais, como a pintura de solo, instalação de cruz de Santo André e redutor de velocidade com reflexivos”, informou a nota.

A Prefeitura de Campinas informou que a Coordenadoria de Fiscalização de Terreno já notificou diversas vezes a ALL para fazer a limpeza da linha férrea e construir um muro de segurança entre trilhos e casas.