Publicado 11 de Agosto de 2013 - 8h34

Grupo que esteve na manifestação na Câmara não quis se identificar; para eles, agir por conta própria é preciso para mudar a realidade social

Dominique Torquato/AAN

Grupo que esteve na manifestação na Câmara não quis se identificar; para eles, agir por conta própria é preciso para mudar a realidade social

Durante a última sessão da Câmara Municipal de Campinas, um grupo de pessoas vestidas de preto e com os rostos cobertos aproveitou um intervalo para invadir o plenário ao lado de outros manifestantes. Até então tudo era pacífico, com palavras de ordem, faixas e cartazes.

Foto: Dominique Torquato/AAN

Detalhes do vestuário dos jovens: símbolos e palavras de rebeldia

Detalhes do vestuário dos jovens: símbolos e palavras de rebeldia

Momentos depois, alguns resolveram sentar em cima da Mesa Diretora e subir nas cadeiras. Até que surgiu uma pichação do símbolo anarquista em uma parede e começaram os primeiros movimentos de destruição do patrimônio público. A ideia era permanecer no local sem tumultos até que os integrantes do Legislativo tomassem alguma atitude em relação a, por exemplo, criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Transportes. As ações provocadas pela já tão comentada minoria deixaram o clima tenso e a chegada da Tropa de Choque da Polícia Militar ao local selou o destino daquela noite.

Resultado: 138 pessoas levadas para a delegacia para averiguação. Muitos do que foram vistos cometendo atos de vandalismo eram jovens rotulados como “punks”. O mesmo já havia acontecido quando alguns enfrentaram a Tropa de Choque diante da Prefeitura no último dia 20 de junho, quando mais de 35 mil pessoas foram às ruas protestar.

Mas quem são eles? O que pensam? Quais são seus objetivos? Alguns desses punks conversaram com o Correio para expressar suas opiniões sobre esses questionamentos. Todos se identificaram apenas por letras e fizeram questão de frisar que não estavam ali para representar o movimento como um todo, mas para falar por eles mesmos.

“Muito saem às ruas, pintam o rosto, têm uma bandeira e acham que isso é protestar. Ficar piscando a luz do apartamento ou buzinando também não é. Protestar é isso o que a gente fez. Fomos invadir onde eles (os vereadores) julgam que é a casa deles, mas é a casa do povo.

Aquilo não foi uma invasão, foi a utilização do nosso patrimônio”, afirma aquele que se identifica como AC, reconhecendo que sua luta precisa ser melhor entendida. “Nós somos odiados.Lutamos para defender um povo que nos apedreja. Dentro do movimento, cada um tem a sua forma de agir. Um pode jogar uma bomba e o outro uma poesia, mas os dois vão jogar no mesmo lugar, que é contra o sistema que está errado”, diz. Leia, a seguir, a entrevista dos jovens mascarados que seguem com fidelidade o lema “Para mim nada, mas para nós tudo”.

Correio Popular - Em primeiro lugar, quem são vocês?

AC - Não somos todos iguais, lutamos por alguns ideais e contra o governo que está fazendo o seu papel de forma errada. Somos a favor da revolução e das melhorias públicas. O governo é algo que existe para favorecer o seu povo, mas está matando a todos quando não oferece Saúde e Educação de qualidade. Muita gente reclama de nós falarmos por eles, mas as pessoas não falam o que tem de ser dito. Representamos a voz de um povo calado que está sendo oprimido.

Nas manifestações pelo Brasil e mais recentemente na Câmara Municipal de Campinas, a figura dos punks ficou em evidência. O que vocês querem?

AC - Queremos simplesmente coisas que já deveríamos ter, que são os direitos básicos de sobrevivência. Uma Saúde para nos salvar ao invés de nos matar; hospitais para nos atender e não nos deixar esperar em filas até a morte. Uma Educação para aprender de verdade e saber mais sobre o próprio governo. As pessoas se formam na escola e nem sabem a diferença entre presidente, vereador e deputado. Temos que ter conhecimento e não apenas o que “eles” acham que é certo ensinar. O nosso principal foco no momento é a questão do ônibus, que está virando um abuso. Os governantes pensam que o povo é um robô sem pilha. Os governantes não podem fazer o que quiserem. Não são eles que usam os ônibus, somos nós. A gente é que tem que decidir quanto deveria custar a passagem.

E os atos de vandalismo na Câmara?

AB - Cada um agiu de uma forma, né? A ação não estava organizada. Chegou na hora, a galera decidiu entrar. O objetivo era permanecer lá como uma ocupação. A ideia não era quebrar, não era destruir ou machucar alguém que estava lá. A ideia era só ocupar e mostrar que aquilo ali é um lugar público. Nossa intenção era ficar ali para chamar a atenção dos vereadores e fazer com que eles votassem algo que possibilitasse uma mudança para gente. Sempre tentamos manter a organização em relação ao que está acontecendo. Estávamos filmando tudo e ajudando a galera que estava lá dentro a se alimentar. Então, todos estavam agindo de forma correta. Se aconteceu alguma coisa errada, isso partiu de pessoas alheias, que não sabiam o que estavam fazendo lá e foram só para badernar, como aconteceu em outros protestos. São pessoas que não têm a raiva direcionada. Se as pessoas tivessem o mínimo de consciência, elas saberiam o que fazer.

AC - É como dizemos: “Para mim nada, mas para nós tudo”. No caso da Câmara, se um fosse entrar, todos iam entrar. Todos têm direitos iguais. Se eu posso falar, outros também podem. Nós estávamos em 30 pessoas na “linha de frente”, que são da organização e do “antivandalismo”. No final, isso foi visto como algo oposto. Fomos considerados como o grupo que vandalizou, mas nós estávamos segurando os vândalos e pedindo calma e paciência para o povo lá dento.

O patrimônio público foi depredado, quem paga é a população. Vocês têm consciência disso?

AC - Eu não quebrei nada, mas outras pessoas podem ter quebrado. Muitas vezes, em situações maiores, essas ações foram uma reação à opressão policial. “Ah, vocês depredaram a Prefeitura!” Isso foi uma estratégia do governo contra nós. Eles colocaram a Tropa de Choque entre nós e a Prefeitura e fizeram com que ela nos atacasse. Eles sabiam que, quando a gente levasse tiro de borracha na cara e spray de pimenta não ia ficar quieto.

Mas se não houvesse a barreira da Guarda Municipal e da Tropa de Choque?

AB - A ideia era só entrar na Prefeitura e ficar lá. Sem vandalismo. Era só entrar, sentar, ocupar e esperar que algo acontecesse por parte do governo. Na Câmara seria a mesma coisa. Só que aí a polícia vai, acontece alguma coisa e foge do controle. Ainda no dia da Prefeitura, o mini-Extra (alvo de saques no último dia 20 de junho) foi invadido e não foi por manifestante. Tem um vídeo que mostra que foi um “P2” (como se referem a supostos policiais infiltrados no grupo de manifestantes) que invadiu.

AC - Até gostaria de comentar uma coisa que eu vi na mídia sobre o que aconteceu na Câmara que dei risada tamanha a manipulação. Apareceu a cena de um manifestante jogando uma mesa e o jornalista dizendo que eram vândalos e que estavam quebrando as coisas. Em momento algum esse mesmo jornalista falou que, atrás daquela porta, tinha a Tropa de Choque com gás de pimenta e bala de borracha para acertar a cara de cada um lá dentro.

As pessoas que picharam o plenário da Câmara estavam com um visual parecido com o punk. Quem são elas?

AC - Se vestir com qualquer roupa, qualquer um pode. Eu posso colocar uma farda de policial e matar alguém, mas nem por isso todos os policiais vão ser taxados de assassinos. Então, qualquer um pode se vestir de preto, entrar no meio do grupo que estava ali, quebrar tudo e fazer com que o grupo inteiro seja denominado vândalo. Não é bem assim! Num grupo de, por exemplo, 30 pessoas, pode ter cinco delas infiltradas no meio enquanto os outros 25 são inocentes que tentavam impedir esse ato.

Se alguém invadisse e atacasse a casa de vocês, qual seria a reação?

AB - Tem que ver por qual motivo a pessoa iria querer invadir a minha casa. Se tivesse como eu arrastar todas as pessoas que não têm casa ou os animais abandonados eu levaria para morar comigo. Ali (a Câmara) é um espaço público. Sua casa é particular; não teria razão de alguém invadir. Você está fazendo algo de errado? Está indo contra as leis? Não tem porquê invadir uma casa de alguém assim. Tem que ter um motivo.

Recentemente, a cidade viveu o escândalo do Caso Sanasa. Por que vocês não foram à Câmara protestar naquele momento?

AB - Faltou uma organização para fazer isso. Por exemplo, hoje (a última sexta-feira, dia 9) os ônibus estão parados... poderia haver um protesto juntamente com isso para alavancar uma coisa maior. Mas não teve uma organização para isso. Então, sem organização é melhor não agir.

AC - O movimento é meio que uma coisa que vai e vem. Cresce num momento e depois cai. Obviamente, com essas mobilizações no Brasil inteiro o grupo cresceu, mas qualquer um acha que pode colocar uma máscara na cara e dizer que é manifestante.

AB - Isso acontece muito no Brasil. As pessoas pensam o certo, mas não fazem o certo. De que adianta pensar o certo e não tomar uma atitude?

Vocês votam?

AB - A gente não vota em ninguém. Se o cara está lá no governo e faz um serviço bom, coisa que eu acho que nunca vai acontecer, a gente não vai com a cara dele, mas tudo bem. Mas se ele estiver fazendo bosta a gente vai para as ruas protestar.

AC - O povo escolhe quem será o governo, mas eu decidi que não preciso de alguém para mandar em mim.

Já que vocês estão em busca de um governo com vergonha na cara porque esconder o rosto?

AB - Escondemos o rosto para mostrar que pode ser qualquer pessoa atrás da máscara. Pode ser eu, você, seu pai, sua mãe ou seu irmão. A ideia não é se esconder, mas mostrar para a sociedade que qualquer um pode estar ali; não há barreiras.

Qual o recado que vocês dariam para a população de Campinas?

AC - Se você quer ver uma evolução, não fique pedindo por ela. Ninguém aqui é seu empregado! Se você quer algo, lute.

Vocês planejam outras ações?

AB - É uma coisa que não para. Enquanto o erro estiver por aí, essa mobilização sempre vai existir.

Vocês trabalham ou estudam?

AB - Nós todos estudamos e trabalhamos. Quem não trabalha é porque não consegue arrumar um emprego. A sociedade é muito preconceituosa em relação a nós.

E drogas?

AB - Minha posição sobre isso é a de não querer usar.

AC - Você não precisa ser de um jeito para usar ou não drogas. Policiais, padres, políticos, donas de casa, mendigos e ricos podem cheirar pó, fumar crack e fazer o que quiser.

O que é ser punk hoje?

AB - Ser punk é viver. A pessoa que faz parte de qualquer outro movimento e está lutando pelos seus direitos está vivendo também. Quem está parado dentro de casa sem fazer nada está apenas conformado. Uma dona de casa que vai para a rua protestar contra o preço do tomate é punk também. Punk não é visual, punk é atitude!