Publicado 11 de Agosto de 2013 - 8h15

Por Milene Moreto

Ocupação do plenário da Câmara de Campinas, na última quarta-feira: bandeiras de partidos apareceram

Janaína Maciel/7ago2013/Especial para a AAN

Ocupação do plenário da Câmara de Campinas, na última quarta-feira: bandeiras de partidos apareceram

A associação de partidos de esquerda considerados mais radicais, como PSOL e PSTU, a grupos anárquicos e punks, responsáveis pelas depredações na Câmara de Campinas na sessão da última quarta-feira, é considerada de risco por analistas políticos. O quebra-quebra promovido na Casa, na opinião de especialistas, não traz resultados práticos para os manifestantes e as legendas envolvidas poderão sofrer desgaste caso os atos se repliquem na cidade, efeito contrário ao pretendido pelas siglas, que é angariar apoio e fazer palanque. Do lado dos anarquistas e punks, as movimentações mais agressivas e pontuais historicamente se mostraram fracassadas em vários países.

Foto: Janaína Maciel/8ago2013/Especial para a AAN

Marcela Moreira (PSOL), suplente de Paulo Bufalo, foi retirada da Casa após intervenção da Polícia Militar

Marcela Moreira (PSOL), suplente de Paulo Bufalo, foi retirada da Casa após intervenção da Polícia Militar

Na sessão da Câmara de Campinas, na última quarta-feira, durante cinco horas um grupo de cerca de 150 manifestantes destruiu o plenário da Casa e forçou o encerramento da reunião. Entre os que organizaram o ato estavam representantes do PSOL e do PSTU. Os ativistas se recusaram a sair do prédio e foram retirados à força pela Tropa de Choque da Polícia Militar (PM). Houve uma tentativa de diálogo feita pelo presidente da Casa, Campos Filho (DEM), mas os invasores se recusaram a criar uma comissão, sob a justificativa de que os vereadores não os representam. Apesar de não terem depredado o prédio, os manifestantes ligados ao PSOL e ao PSTU não impediram a ação dos punks e anarquistas.

Assim como a Câmara, a Prefeitura também foi palco de depredação em junho, durante o maior protesto registrado na cidade, que reuniu cerca de 35 mil pessoas. O grupo mais radical tomou a frente do Palácio dos Jequitibás e partiu para o enfrentamento da Guarda Municipal (GM). O prédio ficou destruído e a manutenção custou aos cofres públicos cerca de R$ 500 mil.

Mudança

Atualmente, no entanto, há um afunilamento dos grupos que foram às ruas em junho e as manifestações se modificaram. A grande massa saiu de cena e permaneceram partidos como PSOL, PSTU e PCO, alinhados com os movimentos estudantis, sindicais, anarquistas e aos punks na tentativa de conseguir maiores visibilidade e mobilização. Para o professor de ciências políticas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Valeriano Costa, esse grupo restrito vive do restante do “oxigênio” liberado pelos grandes movimentos no primeiro semestre. “Agora estamos numa fase de licença para se manifestar, na qual o governo e a polícia não têm mais autoridade moral para reprimir”, afirmou o docente.

Por outro lado, segundo Costa, partidos de esquerda que têm como bandeira o ataque ao Estado que consideram capitalista e autoritário pegam “carona” nas ações mais radicais, como as depredações de prédios públicos e confrontos com a polícia, para comprovar o caráter repressivo das autoridades. “Com isso, cria-se um palanque. Quanto mais repressão, mais se mobilizam. Os punks não pactuam da mesma pauta dos partidos, mas, em alguns momentos, existe cooperação com as legendas envolvidas nos protestos. Os anarquistas vivem no limite do risco”, analisou.

Para Costa, se os manifestantes não se alinharem em relação à pauta de reivindicação, com propostas reais, o “oxigênio” gerado nas manifestações vai se esgotar e o movimento perderá a força.

O alinhamento dos partidos de extrema esquerda com os grupos anarquistas e punks, responsáveis pelos atos de vandalismo em Campinas, para o professor de ética da Unicamp Roberto Romano, pode prejudicar as legendas pela maneira truculenta com que o núcleo age nos protestos e pela ausência de pauta. “O modelo praticado pelo anarquismo não funciona. Em breve, os partidos vão perceber que podem sair prejudicados, principalmente o PSOL, que tem entre seus líderes um grupo mais intelectualizado. O uso direto da força é reprovado e poderá trazer impactos políticos dentro das siglas”, disse.

Romano defende que as manifestações ocorram sem quebra-quebra. “Quando existe a depredação, os manifestantes se colocam no mesmo nível dos vereadores que não são dignos do seu mandato. Não estou dizendo que todos os parlamentares não são dignos, mas falo sobre aqueles que colaboram para o descrédito. Se os manifestantes querem modificar a política, com certeza, não será com depredação e violência. É indo para as sessões, vaiando e coletando abaixo-assinados que se transforma a realidade. A força e a depredação não têm maioria”, comentou o docente.

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Milene Moreto