Publicado 15 de Julho de 2013 - 5h00

Por Antônio Contente

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Nós, que trafegamos pelo ofício de escrever, sabemos que as histórias estão vagando, pairando por aí à nossa espera. Elas costumam estacionar em muitos lugares, porém acho que um dos prediletos são os bares. Brotam, muita vez, de gargantas molhadas pelos líquidos com alguns graus; outras, mesmo de goelas secas se derramam em narrativas. Basta certa perspicácia para captá-las. Eu conheço PB tempo suficiente para saber que é um cara vivido. Possui aquilo que chamam de espírito, varia do bom ao mau-humor com certa facilidade, e o segredo do que pode te oferecer está nas chispas. Quando seu olhar as emite, sabe-se que é o detonador de papo interessante, com lances de criatividade que prendem, aprisionam a atenção de quem ouve.

Dia desses, num bar, naturalmente, só eu e ele na mesa, de repente perguntou se as histórias de amor por mim escritas, e que já leu em livros ou jornais, sempre se baseavam em fatos reais ou eu inventava. Respondi que as duas coisas, aproveitando a deixa para inquirir se tinha alguma para me dar.

— Tenho – limitou-se a murmurar.

O que me cabia, naturalmente, era esperar. Porém como o silêncio que se interpusera entre nós já me fizera consumir toda a dose que acabara de pedir, murmurei:

— E daí?

— Daí o que?

— A história, rapaz!

PB não costuma beber, mas também pediu um scotch. Depois que a talagada chegou, sua voz saiu nítida, clara: — Quando eu a vi, bastou que pousasse os olhos sobre ela para sacar que estava diante da mulher da minha vida.

Fixado nos meus óculos prosseguiu narrando que começou entre eles um amor intenso. Favorecido, inclusive, pelo ninho de que o moço dispunha, uma bela casinha, das com jardim à frente, num dos meandros do chamado Cambuí Nobre. Quando se completaram dois meses de encontros que PB classificou de santificados, certa tarde a moça disse pra ele que havia algo que não lhe tinha contado.

— Então conte — o apaixonado pediu.

Ela primeiro piscou intensamente. Depois acentuou, a voz tensa, porém, paradoxalmente doce, que era noiva há mais de ano, estava com casamento marcado. PB imediatamente sentiu denso calafrio de corpo inteiro. Ficou mudo, pasmo. E mais pasmo ainda com o detalhe medonho: — Meu noivo me seguiu. Viu uma das minhas chegadas aqui na tua casa...

Antes que PB pudesse dizer algo ela pegou a bolsa e, sem murmurar uma única ou remota nova palavra, se dirigiu para a porta. E saiu.

Bom, o que restou do nosso herói aproximava-se de simples despojos. Naufragado em angústia, ele andou de um lado para o outro, terminando por afundar numa poltrona, o olhar perdido, sem rumo. Começa a escurecer, noite fria, de inverno. Batem na porta. Ele vai, abre e vê um rapaz de pé na sua frente. Atrás dele, no meio-fio, um carro parado. O recém chegado murmura, apontando para o veículo: — Ela está ali dentro; a mulher com quem eu ia casar. Vim trazê-la para você.

PB, pálido de espanto, sente que os lábios tremiam. Por fim, cicia um OK, a jovem poderia ser desembarcada.

No bar em que eu ouvia a história, paira novo silêncio. Passados poucos minutos, seguro no braço de PB: — E então? Seu amor desceu e...

— Desceu nada — ele termina. Para depois detalhar que o noivo a levou embora, casou e com ela, mudaram para Sampa, tiveram vários filhos. Por fim, o amigo me pergunta: — Sabe quantos anos faz isso? Cinquenta, meio século...

Estala os dedos chamando o garçom pra pedir nova dose. Antes mesmo da bebida chegar gemeu, para o gelado ar de fim de tarde: — E até hoje eu ainda não a esqueci...

Escrito por:

Antônio Contente